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Correio Braziliense

Acesso a empréstimos precisa ser facilitado, admitem BC e Febraban

Tanto o Banco Central quanto o Congresso e a Febraban admitem que é preciso melhorar o acesso a empréstimos


postado em 10/07/2020 06:00 / atualizado em 10/07/2020 09:33

(foto: Caio Gomez/CB/D.A Press)
(foto: Caio Gomez/CB/D.A Press)
A pandemia do novo coronavírus empurrou as empresas
brasileiras para uma realidade inédita e, especialmente, desafiadora. Fechado na maior parte do tempo para ajudar a conter a disseminação da covid-19, o setor privado
viu seu rendimento despencar nos últimos meses e precisou recorrer ao crédito para sobreviver à quarentena.

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Porém, nem todos os negócios conseguiram se financiar junto aos bancos. Por isso, destravar o acesso ao crédito tornou-se
um dos maiores desafios do Executivo, do Congresso e do Sistema
Financeiro Nacional (SFN). O papel do sistema financeiro no combate aos efeitos econômicos da pandemia de covid-19 foi
tema do Correio Talks, que contou com a participação do presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto; do presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Isaac Sidney Ferreira; e do líder do governo no Congresso Nacional, senador Eduardo Gomes (MDB-TO), na semana passada. E todos eles concordaram que os bancos são fundamentais para o enfrentamento e a saída dessa crise, mas precisam aperfeiçoar o acesso a empréstimos e financiamentos para, de fato, cumprir esse papel.

Afinal, o crédito ainda não está chegando a quem mais precisa.
Não na velocidade desejada. Campos Neto afirma que o Ministério
da Economia e o Banco Central já implementaram diversos programas emergenciais de crédito na pandemia. Só a autoridade
monetária lançou 14 medidas diferentes, que prometem injetar
mais de R$ 1,2 trilhão de liquidez no sistema financeiro nacional.
Ele garante que isso permitiu que o mercado de crédito continuasse funcionando em meio à crise. Mas reconhece que, até agora, boa parte desse capital acabou ficando com as grandes empresas.

Por isso, ainda existe um sentimento de escassez de crédito entre
as micro, pequenas e médias empresas — setor que, segundo os especialistas, foi o mais atingido pela quarentena e é fundamental para a economia brasileira, pois responde por 52% dos empregos formais e por 27,5% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.
“Numa crise como essa, o esperado é o crédito contrair. Mas fizemos medidas que foram capazes de manter o crédito crescendo. E, em alguns momentos, crescendo a níveis de 20% a 30%. Então, nós tivemos um impacto na parte do crédito. Mas, se perguntar se estamos contentes com isso, a resposta
é não, porque, na parte do direcionamento, entendemos que
poderíamos ter feito um melhor trabalho. Entendemos que o crédito tinha que ser mais direcionado à pequena e à média empresa”, diz.

Atenção


O presidente da Febraban reforça esse discurso. Ele conta que
os bancos brasileiros já liberaram mais de R$ 1,1 trilhão em crédito
desde o início da pandemia. Porém, segue trabalhando para tentar
ampliar a oferta de empréstimos e financiamentos. “Não podemos
tapar os olhos. É inegável que merecem ainda mais atenção
e esforços, nessa retomada, as microepequenasempresas.

As ações dos bancos em prol desse importante segmento da economia brasileira já são expressivas, mas precisamos
intensificar”, comenta. O líder do governo no Senado,
Eduardo Gomes (MDB-TO), também reclama da dificuldade para que o crédito chegue à ponta. A crítica, segundo ele, é comum entre os pequenos e médios empresários e chega ao Congresso por meio de demandas dos setores que mais sofrem o efeito da crise. “De todas matérias discutidas recentemente, talvez seja a com maior questionamento sobre a possibilidade de atendimento do sistema financeiro e dos bancos”, observa.

A sensação é de atraso entre a aprovação, pelo Parlamento, do
programa de oferta de crédito e o atendimento aos empresários,
afirma Gomes. “Alguma coisa no sistema precisa funcionar melhor
para que a gente não tenha essa sensação de delay. Milhões de pequenos empresários recebem notícia de oferta de crédito, e essa resposta na ponta demora a chegar”, cobra. Na opinião dele, “o Congresso cuidou de maneira contundente dos CPFs, da localização dos brasileiros para receber o auxílio emergencial, mas ainda pouco se fez em relação ao CNPJ, aqueles que geram, de verdade, empregos”, emenda.

Força-tarefa


Isaac Sidney Ferreira pede, contudo, mais colaboração do
governo nesse processo. Ele acredita que o Executivo precisa oferecer mais garantias e cobrir o risco de inadimplência dos pequenos negócios, como tem acontecido em outros locais do mundo.

Afinal, os pequenos são os que mais sofrem na análise de crédito
dos bancos, já que costumam ter menos garantias para oferecer do que as grandes empresas. “Muitas dessas críticas nos chamam a fazer melhor, a corrigir caminhos, porque também erramos. Os programas de crédito do governo são bons, estão dando resultados efetivos, mas ainda existem problemas”, reconhece.

Campos Neto ressalta que o BC anunciou, recentemente, novas
medidas para injetar mais liquidez e direcionar os recursos para os
pequenos. E garantiu que a autoridade monetária está pronta para
pensar em mais programas desse tipo, se for preciso. “Preferimos errar por mais do que por menos”, afirma. Ele destaca, no entanto,
que a criação de mais linhas de crédito, com mais garantias do governo, é uma questão que deve ser tratada com o Tesouro Nacional, visto que o papel do BC é o de injetar liquidez no sistema financeiro e não prover essas garantias.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, reconheceu o problema.
Em recente audiência pública realizada pelo Congresso Nacional,
ele admitiu que “o desempenho no mercado de crédito não foi satisfatório” e “está ameaçando a sobrevivência das micro e pequenas empresas”. Porém, alegou que essa situação decorre do fato de que a “necessidade de capital de giro triplicou, quadruplicou” na pandemia.

Ou seja, cresceu bem mais do que a oferta de crédito. Guedes mostrou, ainda, ter esperanças de que o Programa Nacional
de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte
(Pronampe) suprirá parte dessa demanda. O programa, sugerido e
aprovadopeloCongressoemabril, oferece R$ 15,9 bilhões de garantias do Tesouro para os pequenos negócios. Porém, levou bastante tempo para ser regulamentado e implementado pelos bancos. Por isso, está disponível em apenas cinco instituições financeiras.

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