Economia

Profissionais com mais de 50 anos são os mais ameaçados pelo desemprego

Pesquisa realizada pela Coppe/UFRJ alerta que, no período da retomada, profissionais com mais de 50 anos serão duramente afetados pelo desemprego

Renata Rios, Vera Batista, Fernanda Strickland*
postado em 19/07/2020 06:50
Pesquisa realizada pela Coppe/UFRJ alerta que, no período da retomada, profissionais com mais de 50 anos serão duramente afetados pelo desempregoEntre os efeitos que a pandemia do coronavírus provocou na vida de milhões de pessoas, está o desemprego, que, devido ao cenário atual, deverá crescer nos próximos meses. Entre o público com mais de 50 anos, o cenário pode ser ainda pior, de acordo com dados levantados por estudo recente do Laboratório do Futuro da Coppe (Coordenação de Projetos e Pequisas da Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ), em parceria com a startup Labore, sob coordenação do pesquisador Yuri Lima. A pesquisa aponta que cerca de 6,7 milhões de pessoas ocupadas no mercado formal poderiam perder os postos de trabalho. Deste total, a estimativa é de que 1,2 milhão (pouco mais de 1/5 do universo estimado) tenha mais de 50 anos.


No caso dessa faixa etária, os efeitos serão ainda mais danosos, alerta o pesquisador. Além do perigo que o novo coronavírus traz, limitações em relação às inovações, por exemplo, podem dificultar a vida desse grupo. ;Quando olhamos para essa faixa mais idosa, claro que sempre pensando numa generalização, são pessoas que têm um relacionamento mais distante com a tecnologia, que comparado a alguém com 20 ou 30 anos;, explicou.


Yuri diz ainda que a sondagem apontou que ;cerca de 1,2 milhão de pessoas com 50 anos ou mais seriam afetadas;. Para chegar a tais números, foram consideradas variáveis como a limitação em relação ao contato com outras pessoas e a proximidade física. ;O que estamos observando é que ficarão desempregadas por não conseguirem desempenhar suas atividades à distância e, também, por não fazerem parte de serviços essenciais, como saúde e transporte;.

[SAIBAMAIS]Márcia Tavares, engenharia de produção da Coppe/UFRJ, de quem partiu a iniciativa de fazer o levantamento, ressalta que a crise sanitária agravou o quadro no mercado de trabalho. ;Quando os nossos idosos foram classificados como ;grupo de risco;, eu notei que não demorou muito para que o preconceito com as pessoas com 60 anos ou mais se tornasse ainda mais nítido. As redes sociais foram alimentadas com memes que chamaram a atenção para essa população, projetando neles o estereótipo de excepcionalmente frágeis, teimosos, inconsequentes;, observou.

Capacidade

Yuri Lima ressalta que, no caso dos negócios, os empresários podem optar por funcionários mais jovens, pela condição de voltarem mais rápido ao trabalho presencial. ;Sabemos que as micro e pequenas empresas devem preferir quem pode voltar logo ao trabalho e demitir os mais velhos;, lastimou. Ele ainda alerta que a situação pode reforçar o preconceito no mercado de trabalho. Entre as possibilidades para se atenuar a situação, o pesquisador sugere a criação de políticas que ajudem esse público.


Márcia Tavares, por outro lado, acredita que as pessoas mais velhas têm, sim, muito a oferecer e podem ser fundamentais no período pós-pandemia. ;Uma das vantagens dos trabalhadores maduros é o aprendizado que eles adquiriram com os erros ao longo de décadas. As experiências dos profissionais mais vividos podem acelerar a curva de aprendizado dos mais jovens;, ponderou.

Discriminação, questão insuperável

O preconceito com os que são considerados, neste momento da pandemia, grupo de risco, é antigo. Para piorar, além da discriminação dos mais jovens e pelo mercado de trabalho, os trabalhadores com mais de 50 anos ainda são vítimas de preconceito entre eles mesmos.


;O estigma em relação à velhice é grande, grave e antigo. Em várias pesquisas que fizemos, muitas pessoas, acima de tudo, tinham medo de ficar velhas e feias. Quando aprofundamos os dados, percebemos que o feio não tem relação com estética, mas com a aparência, o verdadeiro retrato dos que são discriminados pela idade. Assim, os velhos não querem ser chamados de velhos;, disse Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, que estuda as relações sociais.


E quando essas pessoas idosas foram consideradas grupo de risco pelas autoridades sanitárias, suas limitações e toda a carga negativa do preconceito tiveram a dimensão potencializada, afirma Meirelles. Mais: entre os velhos, os que também são pobres serão os mais discriminados e prejudicados. ;Como são mais vulneráveis, passarão a ser menos aceitos em trabalhos de contato com o público. Por isso, os que têm menor grau de escolaridade tendem a ficar para trás;, acentou. O governo, no entanto, deveria ;cuidar; melhor desse público, cobrou Meirelles.


Pesquisa do Locomotiva aponta 80 milhões de brasileiros estão no grupo de risco (incluídos aqueles com doenças graves, as chamadas comorbidades, de qualquer faixa etária). A saúde dessas pessoas se refletirá na economia, pois são importantes consumidores. ;Integrantes do grupo de risco para a covid-19 movimentam R$ 2,1 trilhões anuais em renda própria. Desse total, os com mais de 60 respondem por R$ 1 trilhão, e os com menos, mas com algum fator de risco, são responsáveis por R$ 1,1 trilhão;, enumerou Meirelles.


A Constituição proíbe qualquer tipo de discriminação ao idoso, principalmente nas relações de trabalho. O Estatuto do Idoso também destaca que ;na admissão do idoso em qualquer trabalho ou emprego, é vedada a discriminação e a fixação de limite máximo de idade, inclusive para concursos, ressalvados os casos em que a natureza do cargo o exigir;. No entanto, na busca pelo trabalho, o idoso não consegue fugir dos preconceitos.


;Um exemplo simples de ser constatado são os anúncios em classificados dos jornais, nos quais as empresas, na maioria das vezes, delimitam a idade, ignorando as garantias constitucionais contra essa prática, e também as potencialidades do idoso;, relatou advogada Márcia Regina Negrisoli Fernandez Polettini, presidente da seccional Bauru da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e autora da tese dee doutorado Idoso: Proteção e Discriminação no Trabalho, que teve o objetivo de demonstrar que ;o trabalhador idoso pode e deve ser incluído no mercado de trabalho;.

*Estagiária sob supervisão de Fabio Grecchi

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