Economia

Alardeamento da privatização levou à saída de Novaes da presidência do BB

Executivo desagradou presidente Jair Bolsonaro, funcionários e militares ao defender sistematicamente a privatização do banco. Gota d'água foram os embates com TCU sobre publicidade em sites acusados de disseminar fake news

Vicente Nunes, Rosana Hessel
postado em 25/07/2020 07:00

Renúncia foi apresentada há cerca de um mês pelo economista. Disputa de prestígio com o presidente da Caixa também pesou no desfechoO economista Rubem Novaes caiu da presidência do Banco do Brasil (BB). Segundo comunicado enviado à Comissão de Valores Mobiliários, ele renunciou ao cargo, conforme pedido encaminhado ao ministro da Economia, Paulo Guedes, e ao presidente Jair Bolsonaro. Ele ficará na função até agosto.


A nota encaminhada à Comissão de Valkores Mobiliários (CVM) diz que Novaes decidiu renunciar ;entendendo que a companhia precisa de renovação para enfrentar os momentos futuros de muitas inovações no sistema bancário;. No entanto, a insatisfação do Palácio do Planalto com Novaes era visível. Apesar de ter sido alertado pelo presidente da República de que não era o momento para se falar sobre a privatização do BB, o executivo insistia no assunto, criando constrangimentos para o governo junto à base aliada e entre os militares, que são contra a venda da instituição.

Fontes próximas ao ministro Paulo Guedes informaram que o pedido de renúncia foi feito ;há um mês;. E que Novaes deverá ser assessor especial do ministro, ;ajudando o time do Rio de Janeiro;.

Outro motivo de desgaste de Novaes foi a disputa com o presidente da Caixa, Pedro Guimarães. Bolsonaro passou a comparar as ações dos dois bancos e começou a exercer forte pressão sobre Novaes por resultados, que, segundo o Palácio do Planalto, nunca foram entregues.

A gota d;água para a queda de Novaes foi a briga que ele comprou com o Tribunal de Contas da União (TCU). Nesta semana, ele apresentou à Corte um agravo pedindo que fosse revista a proibição de o BB anunciar em sites que são acusados de disseminarem notícias falsas.

A suspensão da publicidade do Banco do Brasil em sites de fake news foi tomada pelo ministro Bruno Dantas, que já vinha aventando a possibilidade de rever sua decisão, depois de uma longa negociação com o ministro das Comunicações, Fábio Faria. Dantas, no entanto, ficou irritadíssimo com a ação encabeçada por Novaes, que alardeava que a determinação do TCU era inaceitável e que estava causando sérios prejuízos ao banco. Tudo o que o Planalto não quer, neste momento, é briga com o TCU ou qualquer braço do Judiciário.

Novaes, que também é atacado pelos funcionários do banco, dizia que a privatização não era só um desejo dele, mas, também, do ministro Paulo Guedes, que, na fatídica reunião de 22 de abril deste ano, disse que a instituição estava pronta para ser vendida. Guedes foi repelido por Bolsonaro.

A expectativa é grande sobre o nome do sucessor de Rubem Novaes. Entre os cogitados, estão o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, e os vice-presidentes do BB: Carlos Hamilton (Gestão Financeira e Relação com Investidores), Walter Malieni (Negócios de Atacado) e Carlos Motta (Varejo). Nada impede, porém, que Guedes, em acordo com Bolsonaro, leve para o BB alguém do mercado.

Críticas

Além de desagradar o presidente Jair Bolsonaro, Novaes vinha sendo criticado também pelos funcionários do banco por defender sistematicamente a privatização da instituição. Em artigo encaminhado ao Correio, o presidente da Associação dos Funcionários do Banco do Brasil (Anabb), Reinaldo Fujimoto, disse ;poucas vezes se viu tamanha falta de liturgia no cargo como no atual comando; da casa.

;Causa apreensão a investida verbal do comando da empresa contra o Tribunal de Contas da União e as decisões tomadas relativas à publicidade do BB na internet, com indícios de investimentos em veículos inadequados. E mais: sem a devida transparência e prestação de contas;, acrescenta Fujimoto.

O presidente da Anabb acusa Novaes de querer ;desmontar, desfazer e rejeitar o que dá certo;. ;Graças ao trabalho de seus funcionários, o BB gera excelente retorno para os acionistas. Sem considerar recolhimento de impostos, o Banco do Brasil alimentou o caixa da União com quase R$ 51 bilhões nos últimos 13 anos;, afirmou.

;Causa apreensão a investida verbal do comando da empresa contra o Tribunal de Contas da União e as decisões tomadas relativas à publicidade do BB na internet, com indícios de investimentos em veículos inadequados;
Reinaldo Fujimoto, Presidente da Associação dos funcionários do BB (Anabb).

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