Economia

Desinvestimentos continuarão se fundos não sentirem segurança no Brasil

Para líderes reunidos com Rodrigo Maia a fim de discutir a agenda de desenvolvimento sustentável, uma forma de garantir permanência dos investidores é aprimorar rastreabilidade

Simone Kafruni
postado em 28/07/2020 15:09
Rodrigo MaiaAssim como o grupo sueco Nordea, que anunciou a exclusão da empresa brasileira JBS de todos os fundos que administra por conta dos riscos de desmatamento na cadeia de suprimentos, outros desinvestimentos continuarão a ocorrer no país se os investidores não sentirem segurança nas ações de combate à devastação. A afirmação é do presidente da Rede Brasil do Pacto Global, Carlo Pereira, que se reuniu, nesta terça-feira (28/7), junto a lideranças do movimento empresarial, com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para discutir uma agenda de desenvolvimento sustentável para o país.

;Os desinvestimentos vão continuar se os fundos não sentirem segurança aqui no Brasil. Inicialmente, foram os fundos soberanos e a BlackRock. Os asset managers (gestores de ativos, em inglês) do mundo têm uma postura de análise, porque o mercado está sendo pressionado nesse sentido;, disse.

Pereira lembrou que a BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, votou contra 53 empresas na temporada de assembleias deste ano por falhas no progresso em lidar com as questões climáticas. ;Essa pressão vai aumentar cada vez mais. Se não tivermos uma resposta bem adequada, certamente teremos mais evasão de recursos do país;, estimou, ressaltando que parte significativa do Produto Interno Brasileiro (PIB) é produzida pelas empresas signatárias do movimento.

Para reconquistar a confiança dos fundos, André Nassar, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), explicou que as cadeias do agronegócio estão se organizando para fazer a rastreabilidade. ;Isso dialoga com o desmatamento ilegal, porque a rastreabilidade permite fazer o controle e a identificação das cadeias de suprimento, para saber se o que foi produzido está cumprindo toda a legislação brasileira;, explicou.

Segundo ele, as cadeias da soja e da carne bovina rastreiam quem vende diretamente para elas. ;Mas é preciso aprimorar para pegar os elos iniciais da cadeia, antes de chegar no trading. O que existe hoje é o esforço individual das empresas. Mas precisamos do compromisso de transparência disso, publicar as informações;, afirmou.

Nassar disse que há resistência no Brasil em relação a rastreabilidade. ;Como se fosse só uma resposta ao comprador europeu, quando é para o consumidor global, para entender que alimento está comprando;, defendeu. Apesar de não serem perfeitos, os sistemas de rastreamento estão evoluindo e cobrindo parte dos riscos. ;A agroindústria faz o rastreamento, mas o produtor rural também deveria participar;, sustentou.

A presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), Marina Grossi, explicou que não adianta ;baixar o sarrafo no Brasil;. A gente pode aliar produção com conservação. É possível que a gente ganhe com isso. Uma das questões que foram colocadas ao vice-presidente Hamilton Mourão, é que se o governo ajudasse na questão da rastreabilidade isso poderia ser aprimorado;, acrescentou.

[SAIBAMAIS]Marcello Brito, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), alertou que a JBS tem um dos maiores sistemas de rastreamento de carne do mundo. Mesmo assim, a Nordea proibiu investimentos na empresa. ;Coisas pontuais vão acontecer, por isso a transparência joga em favor. Eu ficaria feliz que os investidores parassem de investir em combustíveis fósseis e não é isso que acontece. Por isso, é preciso ter cuidado;, ressaltou.

De acordo com ele, até mesmo os melhores sistemas do mundo são passíveis de erro. ;O setor só terá percentual de erro muito pequeno o dia em que todos os stakeholders (acionistas, partes interessadas ou agentes do setor, na expressão em inglês) tiverem esse tipo de rastreamento;, completou.

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