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Correio Braziliense

Confira dicas para enfrentar a reprovação sem traumas

Cobranças excessivas ao aluno que repete o ano podem comprometer ainda mais a aprendizagem. Veja como encarar essa fase difícil com o mínimo de estresse


postado em 27/09/2018 18:41 / atualizado em 29/09/2018 00:55

A mudança de cidade trouxe desafios a Pedro Henrique, mas a mãe, Daniela, ajuda a superá-los(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
A mudança de cidade trouxe desafios a Pedro Henrique, mas a mãe, Daniela, ajuda a superá-los (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

 
Um dos maiores tormentos na vida de um aluno é a ameaça de reprovação. Perder um ano inteiro de estudos pode significar um trauma para o seu futuro tanto dentro quanto fora da instituição de ensino.
 
Apesar de fazer parte da trajetória escolar lidar com esse tipo de obstáculo, é importante que ele conte com o apoio da família. Junto à escola, os pais devem buscar alternativas com o intuito de auxiliar o estudante nas suas necessidades.
 
Especialista em psicologia da educação, o professor do programa de mestrado e doutorado da Universidade Católica de Brasília (UCB) Célio da Cunha destaca que a reprovação deve ser tratada pelos pais como um fenômeno natural. “O ser humano aprende de formas diferentes. Alguns com mais e outros com menos facilidade. Portanto, punir demasiadamente o filho não resolve nada”, afirma.
 
“É claro que a família deve ter uma conversa com o objetivo de cobrar mais responsabilidade do estudante, mas também é necessário que ela se mobilize e faça o que estiver ao seu alcance para ajudar aquela criança ou adolescente”, aponta o especialista.
 
De acordo com Célio, sempre que o aluno encontrar dificuldades, professores, orientadores, monitores pedagógicos e pais devem se antecipar e adotar mecanismos que contribuam para otimizar a aprendizagem dele.
 
“A escola tem que ser uma instituição protetora. Montar um projeto pedagógico específico para este aluno pode evitar uma iminente reprovação, além de colaborar para o que ele precisa naquela etapa da educação. Muitas vezes, um acompanhamento individual, com o estudante sendo estimulado e incentivado, surte efeitos bastante positivos”, analisa.

Equipe de apoio


No Colégio Objetivo, um dos métodos utilizados pela coordenação pedagógica e a orientação educacional é o projeto Recupera. “Os alunos repetentes ou com alguma dificuldade são submetidos a uma avaliação diagnóstica. A partir das suas necessidades, eles são condicionados a participar do projeto, recebendo reforço nas matérias que precisam”, explica o coordenador pedagógico do colégio, Marco de Oliveira. 
 
Além do acompanhamento disciplinar, a escola tenta trabalhar os aspectos emocionais dos estudantes, com a participação de psicopedagogos. “Fazemos com que eles entendam que o colégio é um lugar de erros e de acertos e que, apesar de eles terem perdido uma fase, ainda podem recuperá-la”, detalha o coordenador.
 
“É importante investigar o porquê de esse aluno ter ido mal, pois os seus problemas pessoais acabam refletindo dentro da escola. Enquanto adultos, somos a base desses estudantes. Portanto, temos que cuidar de cada um”, defende.

Tranquilidade


Coordenadora do Grupo de Pesquisa, Avaliação e Organização do Trabalho Pedagógico (Gepa), Benigna Villas Boas sustenta que a reprovação pode ser evitada a partir dessas intervenções pedagógicas. “Com um plano de estudos e trabalho pelo estudante, sua família e a escola, a aprendizagem flui tranquilamente, evitando sentimentos de ansiedade e desprazer. Mas é importante destacar que não se trata de ajuda para ele ‘passar de ano’, mas para aprender o que for necessário para prosseguir os estudos.” 
 
Para Pedro Henrique Batista, 14, aluno do 9º ano do ensino fundamental, o auxílio de coordenadores, monitores e professores tem sido crucial para a sua adaptação à escola. Até 2017, ele e a família moravam no Ceará, onde ele estudava em um colégio público. 
  
Neste ano, ao mudar para Brasília, o adolescente teve dificuldades para assimilar os conteúdos de espanhol e inglês, disciplinas que nunca havia estudado antes. “Quando percebi que ele estava indo mal, de imediato conversei com a coordenação da escola, que se comprometeu a dar aulas de reforço para o meu filho. O Pedro Henrique ainda tem muito a aprender, mas já melhorou bastante”, observa a mãe do rapaz, a autônoma Daniela Batista, 35.
 
De acordo com ela, em nenhum momento Pedro Henrique deixou de ter a atenção da família. “Eu quero o melhor para o meu filho, e fico orgulhosa do grau de escolaridade que ele já atingiu. Eu não cheguei no mesmo nível dele quando era estudante. Portanto, sempre que possível, eu cobro do Pedro Henrique mais empenho. Temos que fazer com que os nossos filhos progridam, não mostrando o que eles perderam, mas, sim, o que eles podem ganhar”, frisa.
 
De acordo com ela, em nenhum momento Pedro Henrique deixou de ter a atenção da família. “Eu quero o melhor para o meu filho, e fico orgulhosa do grau de escolaridade que ele já atingiu. Eu não cheguei no mesmo nível dele quando era estudante. Portanto, sempre que possível, eu cobro do Pedro Henrique mais empenho. Temos que fazer com que os nossos filhos progridam, não mostrando o que eles perderam, mas, sim, o que eles podem ganhar”, frisa.
 
Buscar novos ares foi um importante passo para que Daniel Henrique Rodrigues, 17 anos, melhorasse o seu desempenho no 1º ano do ensino médio(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Buscar novos ares foi um importante passo para que Daniel Henrique Rodrigues, 17 anos, melhorasse o seu desempenho no 1º ano do ensino médio (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

Troca de escola 

 
Uma das medidas imediatas da família diante da reprovação do filho é mudar a instituição de ensino onde ele estudará no ano letivo seguinte. A decisão, no entanto, deve ser tomada visando a recuperação do aluno, e não como uma forma de puni-lo pelo seu baixo desempenho na escola. “A reação da família deve ser de cautela, porque, na realidade, o aluno está sendo reprovado em um sistema ultrapassado de educação. A pressão não é boa e pode gerar consequências para o futuro desse estudante. A troca de colégio deve ser pensada em último caso, com evidências de que vai gerar melhorias, e não perdas”, comenta o coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro da Universidade de Brasília (UnB), Isaac Roitman.
 
Antes de tudo, sugere o especialista, os pais devem analisar se o atual colégio onde o filho está matriculado conta com um ambiente que contribua para a sua aprendizagem. “A escola tem que entender o perfil dos seus alunos, e não tratá-los como se todos fossem iguais. Cada um tem a sua potencialidade. A socialização é diversificada, assim como a empatia com os professores.”
 
O colégio deve se abrir para que a família possa acompanhar o desenvolvimento do filho. Esgotadas as possibilidades da instituição de ensino visando a recuperação do estudante, ou caso a escola não tenha a proposta pedagógica ideal para o aluno, a mudança é a melhor opção.
 
"A troca de colégio deve ser pensada em último caso, com evidências de que vai gerar melhorias, e não perdas” 
Isaac Roitman, professor do Núcleo de Estudos do Futuro da UnB 
 
Buscar novos ares foi um importante passo para que Daniel Henrique Rodrigues, 17 anos, melhorasse o seu desempenho no 1º ano do ensino médio, série que ele reprovou em 2017. Neste ano, a mãe dele, a bancária Liliane Rodrigues, 36, o matriculou no Objetivo, que tem uma linha pedagógica mais cuidadosa com o transtorno de deficit de atenção do aluno. 
 
“No ano passado, ele não teve o acompanhamento necessário na outra escola, e acabou reprovando. Apesar de eu ter ficado muito decepcionada, percebi que ele precisava de um ambiente mais acolhedor. Hoje, ele ainda tem algumas dificuldades, mas está muito melhor”, diz.
 
Na avaliação de Daniel, os puxões de orelha da mãe foram necessários para o seu crescimento. “É melhor ter uma mãe que pega no pé, querendo o meu melhor, do que uma mãe que não se importa tanto com o que acontece dentro da sala de aula. Além disso, hoje eu estou num local onde todos os alunos têm um objetivo. Isso é um incentivo para que eu também tenha um foco para a minha vida”, garante. 
 

O que fazer

Veja orientações para lidar com o momento da reprovação


Ação imediata

Assim que os professores perceberem as necessidades dos estudantes, eles devem agir imediatamente para auxiliá-los. As intervenções podem acontecer durante a aula ou em outros momentos

Reforço

Se o aluno tem dificuldade em alguma matéria, a escola pode providenciar aulas de reforço. Às vezes, ele não acompanha a matéria da maneira certa, mas, com o suporte de um professor mais experiente, o seu rendimento pode melhorar
 
Última alternativa

A escola deve evitar a reprovação por todos os meios. No entanto, quando não for mais possível, o diálogo com a família, no intuito de verificar o porquê de o estudante estar mal, é indispensável

Plano de estudos
 
Para que não haja pressão sobre o estudante, o que poderá impedi-lo de aprender e de ter prazer com as atividades escolares, um plano de estudos e trabalho precisa ser organizado por ele, os pais e o colégio
 
Atividades prazerosas

Arranjos colaborativos são bem-vindos. Nada de imposição e medo. Crianças e jovens sentem mais prazer com as atividades realizadas fora da escola e necessitam de apoio para resolver o que os incomoda

Transição na hora certa

Mudar de escola nem sempre dá certo. As decisões devem ser compartilhadas. Família e escola têm de andar de mãos dadas, assim como os estudantes devem presenciar, acompanhar e participar das decisões que envolvem o seu futuro

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