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Correio Braziliense

Escolas devem ser espaços de convivência com a diversidade

Instituições de ensino devem oferecer muito mais que o conteúdo formal, e os profissionais devem ter capacitação para orientar os estudantes


postado em 27/09/2018 18:40 / atualizado em 28/09/2018 17:39

Tatiana é mãe de Moisés, que tem altas habilidades(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Tatiana é mãe de Moisés, que tem altas habilidades (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

As instituições de ensino do Distrito Federal buscam maneiras de se adaptar à diversidade dos alunos. Em um mundo cada vez mais plural, as escolas devem investir na formação dos profissionais para garantir que os estudantes estejam preparados para respeita as diferenças.
 
Coordenadora pedagógica do Leonardo da Vinci, Luciana Tenório explica que a escola recebe crianças e adolescentes especiais pensando não apenas em contribuir com o aprendizado, mas também no seu convívio social. 
 
“Tentamos fazer com que a escola seja um ambiente feliz e saudável, onde, além de conhecimento, esses alunos construirão relações”, destaca. No colégio, cada estudante com alguma deficiência ou dificuldade de aprendizagem recebe um plano de estudo individual, além de auxílio em situações como aplicação de provas. Os pais têm acesso ao documento e podem participar das decisões.
 
“A partir das dificuldades que um estudante possa ter, proporcionamos situações mais significativas para ele”, analisa o diretor financeiro e fundador do colégio, Jorge Manzur.
 
 

Harmonia


A funcionária pública Rafaela Kososki, 44 anos, só descobriu que a filha Juliana, 12, tinha deficit de atenção e hiperatividade após ser alertada por uma professora. Juliana recebeu o diagnóstico há três anos e, desde então, com o suporte de diretores, professores e outros funcionários, passou a ter melhores notas.
 
“Ela não conseguia se concentrar nem acompanhar o ritmo da sala. Mas, agora, é outra pessoa. No ano passado, até conseguiu tirar um 10 em matemática, que era o seu calcanhar de Aquiles”, observa a mãe.
Juliana está no 7º ano e estuda no Sigma. Para a mãe, o bom relacionamento entre colégio e família é imprescindível para que qualquer estudante consiga se desenvolver dentro e fora do contexto escolar.
 
 

Disciplina


Equilibrar a necessidade de disciplina com a liberdade que deve ser dada aos alunos de diferentes perfis é outro assunto que deve ser tratado com cuidado por gestores e professores. 
 
Na visão do advogado Luis Claudio Megiorin, presidente da Associação de Pais e Alunos do DF (Aspa-DF), as escolas precisam investir na especialização dos funcionários. “Um professor com a formação adequada sabe detectar a necessidade do aluno. É totalmente inadmissível qualquer tipo de reprovação para um estudante que precisa de apoio pedagógico”, avalia. “Pior que um aluno com necessidade especial de aprendizagem é um aluno rejeitado e que não recebe os estímulos necessários para o seu desenvolvimento”, alerta.
 
Rafaela, mãe de Juliana: bom relacionamento com a escola é essencial(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Rafaela, mãe de Juliana: bom relacionamento com a escola é essencial (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 

Valores cultivados


Para os pais, além de uma boa proposta pedagógica e da estrutura física do colégio, os valores humanos cultivados pelos professores fazem a diferença no desenvolvimento dos filhos. 
 
“Não é só explicar o conteúdo. Deve partir dos professores a iniciativa de respeitar as diferenças de cada um, independentemente do transtorno”, afirma Tatiana Cordeiro, 39 anos, mãe de Moisés Sousa, 8, diagnosticado desde os 3 anos com altas habilidades.
 
“É preciso trabalhar a socialização entre as crianças e entender que todas são importantes. Juntas, elas construirão um mundo melhor”, completa.
 
Essa é uma das preocupações da Escola Classe 501, em Samambaia Sul, que atende cerca de 15 alunos com algum diagnóstico, entre eles Moisés. Professora da sala de recursos da instituição de ensino, Jackeline de Araújo explica que todos os pedagogos do colégio são instruídos sobre a presença de estudantes com necessidades especiais.
 
“Sempre no início do ano, nós orientamos os professores e montamos estratégias para lidar com os alunos da melhor forma. Também temos 10 educadores sociais voluntários, que auxiliam os estudantes em determinadas atividades dentro de classe”, relata Jackeline.
 
O foco, segundo ela, é trabalhar a autoestima e a potencialidade das crianças. “Ao fim do ano, é perceptível a evolução em cada uma. Com um trabalho coeso, conseguimos fazer com que elas superem muitos obstáculos.”
 

Lidando com a diversidade

“Todos têm de estar envolvidos na busca pela superação do preconceito. A partir do momento que a criança ou o adolescente com necessidades está matriculado em uma turma comum, é necessário que diretores, coordenadores e professores entendam que a limitação do estudante não está no atributo corporal, mas nas barreiras que ele encontra na sociedade”, comenta Maria Lúcia Lopes, professora do Departamento de Serviço Social da Universidade de Brasília (UnB).
 
Na visão da professora, muito mais do que dispor da infraestrutura adequada para atender alunos nessas situações, é importante que o colégio se preocupe em conscientizar toda a comunidade escolar. 
 
 
“Em primeiro lugar, a escola tem a responsabilidade de capacitar o corpo docente e fazer debates com os outros estudantes para estabelecer regras de convívio. O processo educacional é muito amplo, e não se restringe somente aos conteúdos apresentados em sala de aula.”

A filha da jornalista Renata Maia, 35 anos, Manuela Maia, 4, é autista e já estudou em duas escolas. Na primeira, quando tinha 2 anos e o diagnóstico não havia sido feito, demonstrava dificuldades e a mãe sentiu falta do apoio da instituição.
 
“Quando passei a investigar e descobri que a Manuela tinha autismo, procurei outro lugar para ela estudar. A minha maior preocupação era achar um ambiente acolhedor”, relata.
 
Atualmente, Renata está satisfeita com a escola onde a filha estuda. O colégio ainda permite que uma terapeuta particular da menina a acompanhe durante algumas atividades.
 
“O preconceito só existe pela falta de informações; portanto, os pais não devem tentar esconder a deficiência dos filhos. Além disso, a escola tem de estar envolvida desde o início, dando espaço para a família sempre que possível. O colégio não pode ser um espaço sufocante”, frisa.
 
Juliana, com Júlia:
Juliana, com Júlia: "Quer ser uma criança como qualquer outra" (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
 
 
A dona de casa Rosângela Mesquita, 51, defende que “o desenvolvimento dos alunos especiais só é possível a partir de um cuidado social dos pedagogos”. Sua filha, a estudante Júlia Mesquita, 11, nasceu com a síndrome de Prader-Willi, doença rara e sem cura, que comprometeu a sua capacidade intelectual. 
 
“Eu nem fico pensando se minha filha vai se formar ou não. Para mim, o que importa é saber se ela consegue viver socialmente e ser bem-aceita por todos, pois o meu maior medo é a rejeição. Dói na nossa pele. Por isso, o apoio dos professores é indispensável”, diz Rosângela.

 
Respeito em primeiro lugar


A diarista Vera Lícia Gomes, 40, acredita que um profissional qualificado também pode evitar situações de preconceito. Seu filho, Breno de Souza, 12, tem deficit de atenção e deficiência intelectual. “Enquanto pais, o que nós mais esperamos é a aceitação dos nossos filhos. A discriminação sempre será a maior dificuldade. Portanto, nós esperamos que o colégio tenha professores que mostrem para todos os outros alunos a importância do respeito, e que ninguém é inferior a ninguém”, aponta.
 
A educadora social Juliana Pereira, 39, ressalta ainda que um dos fatores que influenciam na aceitação da própria criança é a assistência pedagógica. Ela é mãe de Julia, 11, que tem paralisia. “Ela quer ser uma criança como qualquer outra, que corre e brinca sem problema algum. Mas, aos poucos, ela entende as suas limitações e sabe que é diferente. Dentro das suas possibilidades, está evoluindo aos poucos. Tudo isso passa pela participação dos professores, que fazem com que ela se aceite como ela é.” 
 
Manuela, filha de Renata, foi diagnosticada com autismo(foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)
Manuela, filha de Renata, foi diagnosticada com autismo (foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)
 

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