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Correio Braziliense

Ensino da ciência deve começar já na educação básica

A preparação à prática científica significa mais do que instruir o aluno para a universidade


postado em 27/09/2018 19:39 / atualizado em 29/09/2018 19:46

A prática permite que os estudantes assimilem conteúdos nem sempre compreendidos nas aulas expositivas(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
A prática permite que os estudantes assimilem conteúdos nem sempre compreendidos nas aulas expositivas (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

Após o fim do ensino médio, um dos rumos naturais dos estudantes é tentar uma vaga no ensino superior. Por isso, boa parte das escolas chama a atenção para a quantidade de alunos que conseguiram se inserir nas universidades federais como forma de ressaltar a qualidade do ensino oferecido. 
 
No entanto, pouco se discute a respeito das dificuldades encontradas por eles assim que ingressam na nova fase. Para ajudar os alunos a lidar com a mudança, os colégios precisam buscar formas não apenas inovadoras, mas também interessantes de levar a prática científica para todas as fases da vida escolar. 
 
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) destaca que os maiores desafios para o país nessa área são a elaboração e a implementação de uma política de longo prazo, que permita ao desenvolvimento científico e tecnológico alcançar a população e que tenha impacto na melhoria das condições de vida da sociedade.
 
Como integrantes do conjunto responsável pelas mudanças na educação brasileira, os pais também devem levar esse elemento em consideração no momento de selecionar a escola dos filhos.
 
A coordenadora de Educação da Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede CpE), Deborah Foguel, explica que descobrir o nível de investimento das instituições de ensino nas diferentes frentes científicas é parte fundamental no processo de escolha de uma escola.
 
“Os pais e mães geralmente querem saber qual é a colocação das instituições no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) ou no vestibular. Isso é um bom indicador da qualidade do ensino, mas é importante que os responsáveis também saibam que ali ensina-se ciência para além da prova”, ressalta.
 
Deborah acrescenta que vale a pena descobrir como os laboratórios das escolas são usados, nos casos das instituições que dispõem desse recurso, e quais projetos de pesquisa se desenvolvem neles. “Isso tudo é importante para que os estudantes se tornem pessoas mais questionadoras e para que o trabalho não se torne chato”, observa.
 
“Tem de ser algo que instigue e desafie os alunos, além de o transformar em um ser perguntador e capaz de responder aos próprios questionamentos”, reforça. Fora ensinar, aos professores, segundo Deborah, cabe o papel de conduzir, mediar e orientar os jovens nesse processo de aprendizagem.
 
O estudante do 8º ano Davi Salles com a professora de química Mariana Brandão: ele desenvolveu um minicanhão de plasma(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
O estudante do 8º ano Davi Salles com a professora de química Mariana Brandão: ele desenvolveu um minicanhão de plasma (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
 

Teoria e prática


Os efeitos positivos do ensino aprofundado das ciências nas escolas é apreciado por quem aprende. Aluna do 3º ano do ensino médio do colégio Mackenzie, Ana Júlia Duarte, 17 anos, participa de atividades que vão desde concursos de redação até olimpíadas de conhecimentos.
 
Presença constante nos laboratórios da escola, a estudante acredita que a prática associada à teoria é o maior diferencial para conseguir chegar mais preparada ao ensino superior. “Tanto no vestibular quanto na faculdade, cobram muito do que estudamos no dia a dia. No laboratório, vemos as reações que aprendemos em sala e acabamos lembrando delas na hora das provas”, comenta.
 
Não apenas como uma maneira de facilitar o entendimento, a prática permite que os estudantes assimilem conteúdos nem sempre compreendidos durante as aulas expositivas. Outro método adotado na instituição de ensino para incentivar o pensamento científico entre os estudantes são atividades com foco no raciocínio lógico.
 
Segundo Raíta Lopes, professora e coordenadora de matemática no colégio, os benefícios são ainda mais expressivos quando essa área é trabalhada desde a educação infantil. “A lógica ajuda na estruturação do pensamento do aluno, principalmente para resolver problemas e entender conceitos. Ela ainda contribui com a interpretação de resultados e situações-problema, a construção de boas argumentações e com a tomada de decisões mais rápidas.”
 
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Formação científica


A necessidade de intensificar o ensino do método científico na educação básica é um dos temas para os quais entidades de promoção da ciência se dedicam. Uma delas, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) encaminhou, em 14 de setembro, sugestões ao Conselho Nacional de Educação (CNE) para questionar os parâmetros que fazem parte da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o ensino médio.
 
De acordo com o documento, a proposta atual da base curricular é “incompleta e apresenta muitas limitações”. A sociedade destacou problemas enfrentados no processo de formação científica dos alunos e chamou  a atenção para o fato de que expressões como “experimentação científica” e “medir” estão ausentes do texto de 150 páginas que compõe a Base (leia mais nas páginas 44 a 53). 
 
 
 
Para tentar contornar isso, algumas instituições de ensino desenvolvem iniciativas com foco na integração dos conteúdos aprendidos em sala com a parte prática. Feiras de ciências com produção de artigos e banners, apresentação de seminários, clubes de estudos em horários contrários aos da aula e saraus literários são algumas das opções oferecidas aos estudantes, para que tenham contato com diferentes áreas científicas cada vez mais cedo.
 
A possibilidade de associação da teoria com a prática foi um dos fatores que contribuiu para que o servidor público Cláudio Gomes Carneiro, 51 anos, escolhesse a escola dos filhos, de 15 e 17 anos. Ele avalia que cada família leva em conta fatores diferentes e pessoais nesse processo. Entretanto, segundo ele, é importante avaliar se as escolas oferecem uma combinação dessas duas frentes. 
 
“São estruturas fundamentais. E é necessário despertar o interesse dos alunos. Se não está prendendo  a atenção, é porque a aula não está interessante. A experiência e a ciência contribuem com isso e o equilíbrio é o segredo do sucesso”, avalia.
 
Integrante do clube de ciências do Galois, o estudante do 8º ano Davi Salles, 14, desenvolveu um minicanhão de plasma durante os encontros do grupo. Nas tardes de sexta-feira, no turno contrário ao da aula, ele se reúne em um dos laboratórios da escola com 34 demais participantes do clube, alunos do 6º ao 9º ano, para realizar experimentos e ver, na prática, o que aprenderam em sala. 
 
“Todas as escolas têm teoria, mas a vida e o mercado são práticos. A inovação estará em quem tiver essa experiência”, pondera Davi.
 
Para a professora de química Marianna Brandão, responsável pelo projeto, iniciativas com foco na ciência auxiliam, ainda, no aprimoramento de competências interpessoais. “Há desenvolvimento da habilidade de liderança e os alunos também aprendem a trabalhar em equipe. A relação e a interação entre eles se torna muito melhor”, diz.
 
Ronaldo e Izaias desenvolveram projeto de estações meteorológicas(foto: Marília Lima/Esp. CB/D.A Press)
Ronaldo e Izaias desenvolveram projeto de estações meteorológicas (foto: Marília Lima/Esp. CB/D.A Press)
 
 

Apoio da Nasa


lverem gosto pela inovação não é a única dificuldade enfrentada pelos educadores. Alguns  esbarram na falta de investimentos. Quem viveu essa experiência foi o professor da rede pública Izaias Cabral. 
 
Formado em matemática, com especialização em eletrônica, em 2010, com  a parceria dos professores de matemática e física Jaime Antunes e Ronaldo Cesar, ele deu início a um projeto de construção de estações meteorológicas para instalação em colégios, o Clima Escola.
 
A iniciativa só deslanchou em 2015, depois de o Brasil oficializar a entrada no Globe, da Agência Espacial Americana (Nasa). Com a cooperação internacional, o projeto dos três professores de Brasília conseguiu recursos para ser levado a escolas públicas e privadas de todo o Distrito Federal e até de outras unidades da Federação.
 
“O projeto, desenvolvido primeiramente na Escola Técnica de Brasília, nos rendeu o prêmio Estudante Destaque. Com o dinheiro, conseguimos comprar material para projetar e construir 60 estações meteorológicas, que distribuímos gratuitamente a escolas interessadas. A AEB viu, gostou, financiou outras 36 estações e agora pretende comprar mais 50 para levar a outras instituições de ensino.”
 
Os equipamentos, montados com uma placa de sensores, arames e pratos de vasos de plantas, permitem captar dados referentes à temperatura, pressão atmosférica e umidade relativa do ar. 
 
As informações são enviadas para o site www.climaescola.com.br e ficam disponíveis para consulta 24 horas por dia. O portal apresenta dados de todas as escolas brasileiras com estações on-line, off-line e em implantação. Além do DF, há colégios contemplados no Amapá, Paraná, em Goiás e em São Paulo.

Inspiração


Izaias ressalta a importância da ciência para a preparação dos alunos. “Quando trabalhamos isso, os estudantes chegam ao ensino superior nadando de braçadas em projetos. Ele já aprendeu o que é método científico e a importância dele, além de como fazer pesquisa”, comenta.

Meio ambiente

 
O programa internacional de ciência e educação visa promover aprendizagem global e observações em benefício do meio ambiente. O acordo foi assinado entre o órgão norte-americano e a Agência Espacial Brasileira (AEB). 
 
 

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