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Correio Braziliense

"Aprendi que sonhos são possíveis", diz a cientista brasileira Zélia Ludwig

Cientista brasileira que desenvolveu projeto em parceria com a Nasa fala sobre a importância e os desafios do ensino da ciência nas escolas brasileiras


postado em 27/09/2018 20:06 / atualizado em 01/10/2018 15:11

 
Física e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Zélia Ludwig, 50 anos, desenvolve, desde o ano passado, projetos de ensino de ciências voltados a mulheres, meninas negras e crianças de escolas públicas. Em 2009, ela visitou o Materials Research Center, no Missouri, Estados Unidos, onde pôde colaborar com um projeto desenvolvido em parceria com a Agência Espacial Americana (Nasa). Em entrevista ao Correio, ela fala sobre iniciativas de expansão das ciências, das dificuldades enfrentadas pelos alunos que chegam às universidades e dos obstáculos que ainda existem para a pesquisa no Brasil. Confira os principais trechos a seguir:
 
(foto: Twin Alvarenga/UFJF)
(foto: Twin Alvarenga/UFJF)
 

Quais são e como se desenvolvem seus projetos com foco na popularização e na inclusão na ciência? 
Como sou física, sempre procuro desenvolver atividades que envolvam física, química, matemática, programação, etc. Aproveito a oportunidade para usar a ciência buscando a inclusão de mulheres e meninas. Mais recentemente, de meninas negras, que têm uma representação muito pequena na ciência, o Para Meninas Negras na Ciência. Fazemos visitas nas escolas contando nossa história de vida e, ao fim das atividades, apresentamos alguns experimentos simples e baratos que envolvem alguns conceitos. Os alunos são convidados a participar e a instigar a curiosidade para tentar entender ou explicar o que está acontecendo. Muitas escolas não têm laboratórios para essa prática. Essas palestras agora estão virando rodas de conversa, porque estou chamando outras pesquisadoras ou meninas que cursam a universidade para contar suas histórias e inspirar mais meninas.

Do ponto de vista de uma mulher, negra e brasileira, como foi a experiência de trabalhar junto à Nasa? O que você mais aprendeu durante esse projeto?
Eu trabalhei no Materials Research Center no Missouri, com dois colegas: o professor Signo e o professor Chandra, que era da Nasa. Eles nos passaram o material que desenvolveram para que pudéssemos caracterizar aqui na Universidade Federal de Juiz de Fora. O trabalho consistiu no desenvolvimento de uma plataforma de vidro adaptada para o solo da Lua. Então, fizemos uma colaboração com os pesquisadores que desenvolveram o simulado do solo lunar. Aprendi que sonhos são possíveis quando você acredita neles, e que a universidade também é o nosso lugar. Além disso, desenvolvemos outros vidros e caracterizamos outros materiais que tiveram muita importância. Isso me motivou a inspirar outras meninas a se interessarem pelas ciências. Quando você inspira um aluno cujo pai é cafeicultor a fazer uma pesquisa para melhorar a qualidade do café, é motivo de orgulho. Quando você incentiva uma menina a estudar polímeros a partir da pesquisa usando filmes de PVC comerciais, é muito gratificante. E por aí vai.

Em relação à transição do ensino médio para o superior e às dificuldades de adaptação dos alunos a essa nova etapa, quais são as lacunas que você observa no que diz respeito ao ensino de ciência na fase pré-universidade? 
As lacunas são muitas, porque, muitas vezes, esses conteúdos são trabalhados de forma muito abstrata. O aluno não se sente o autor dentro desse contexto. Ele participa de forma passiva. Dificuldades na interpretação dos conteúdos devido à falta de estímulo à leitura; precisam ter estímulo também no raciocínio lógico e no pensamento científico, por meio de jogos que envolvam a matemática. Não existe uma associação entre o conteúdo e a prática. Quando fazem experimentação, recebem algo pronto. Só se aprende com o erro e a tentativa, senão viramos meros repetidores. Todos os alunos devem ser incentivados a participar de concursos de redação, maratonas, competições, feiras de ciência, olimpíadas. Outro ponto importante é que a universidade acaba não sendo muito afetiva com a maioria dos alunos no processo de adaptação. É preciso, muitas vezes, quebrar essa barreira entre professor universitário e aluno. O professor precisa saber que muitos alunos chegam com experiências e conhecimentos acumulados diferentes, e é preciso saber lidar com isso. O ensino de ciência pré-universidade precisa ser mais voltado para o que o aluno vai ver efetivamente na universidade. Não adianta ficar decorando nomes de partes do corpo ou de animais, leis da física ou qualquer que seja o conteúdo, sem que ele entenda a importância da compreensão disso. Muitas vezes, um aluno não entende por que estudar ciência, mas, se ele for convidado a ver que ela está em tudo ao redor dele, quem sabe isso mude? 

Como você acha que temas como o método científico e a produção acadêmica podem ser trabalhados na educação básica de modo a garantir que os estudantes cheguem mais preparados ao ensino superior?
Metodologia científica pode ser trabalhada durante as aulas práticas, sem o uso de roteiros prontos e acabados. É preciso que se ensine a eles como podemos traduzir as observações durante os experimentos em equações, gráficos, discussões e apresentação dos resultados. O uso de analogias nessa etapa deve ser explorado. Os alunos, muitas vezes, não são motivados para isso, porque são treinados para passar nos exames de admissão. Meu pai dizia uma coisa que vale a pena mencionar: existe uma diferença muito grande entre estudar para passar, estudar para aprender e estudar para ensinar. Eles precisam aprender a estudar para aprender e entender o que estão estudando. E, nesse caso, as questões devem ser preparadas de modo a estimulá-los a responder, mostrando que aprenderam e que não estão apenas expelindo conceitos aleatórios. Pergunte a um jovem estudante: “Por que uma lâmpada acende?” Dependendo de como ele responde a essa questão, podemos saber se ele memorizou conceitos ou se entendeu o que realmente acontece para que a lâmpada acenda. Isso vale para qualquer outro conceito. A produção acadêmica poderia ser estimulada como a produção literária. Os alunos, muitas vezes, entram e saem da universidade sem saber escrever suas monografias, dissertações e teses. E tornam-se professores que não sabem escrever projetos. Isso é muito comum na área acadêmica. Muitas vezes, todos estão preocupados em cumprir o conteúdo programático dentro do prazo, trabalhando em escolas que não oferecem nenhum tipo de recurso. Olhe a importância das oficinas, das visitas aos museus, a centros de ciência e à própria universidade. 

O que os responsáveis devem levar em conta no que diz respeito ao ensino das ciências na hora de escolher as escolas dos filhos?
Os pais precisam, primeiramente, participar mais da educação dos filhos e não deixar isso apenas a cargo da escola. Primeiro, o respeito ao professor é fundamental. Oferecer livros, visitar museus, incentivá-los a participarem de feiras de ciências, mostras, oficinas. Com essa ideia, sim, ele vai saber quais são os requisitos que uma boa escola que trabalha ciências tem a oferecer aos seus filhos. Isso é importante, porque o processo depende da interação entre os pais e os educadores. A valorização da importância da ciência para uma sociedade mais humana e igualitária é muito importante. Uma escola que só incentiva a competição não é uma boa escola. Competição e colaboração devem ter o mesmo valor. Muitos pais estão mais desesperados em conseguir uma vaga na escola para os filhos do que saber a metodologia aplicada. As escolas devem informar aos pais o que acontece no ambiente, de que recurso dispõe, que metodologia trabalha, mesmo que eles não perguntem. 

Como incentivar e garantir que grupos considerados minoritários nas diferentes áreas científicas desenvolvam interesse pela pesquisa desde cedo?
Esse é um ponto mais importante. Primeiro: dar condições aos pais dessas crianças para que eles possam buscar boas escolas para seus filhos. Como isso pode ser feito? Por meio de muita informação a eles, pois muitos dos pais das crianças trabalham o dia todo, nos piores trabalhos e, quando chegam em casa, acabam nem vendo esses filhos. Como vão incentivá-los sem conhecimento? Estamos começando um trabalho nas universidades com as meninas que trabalham na limpeza para entender quando e por que elas desistiram de estudar, como a falta de oportunidade foi decisiva nessas escolhas, etc. Segundo: as professoras das séries iniciais precisam aprender a lidar com as crianças dos grupos minoritários. E eu diria sub-representados, afinal de contas, se falarmos dos negros, eles são a maioria da população. Se forem mulheres, vale o mesmo comentário. É preciso deixar a meritocracia de lado e começar a valorizar a força e a criatividade que há na diversidade. Meninos e meninas precisam ser incentivados desde cedo, precisam receber brinquedos que estimulem a criatividade, a curiosidade, e também precisam aprender desde cedo o respeito,  o compartilhamento, a união. Se pais e educadores trabalharem juntos, as crianças vão saber que podem estudar e ir para a universidade quando quiserem. Não queremos que todos sejam cientistas, mas queremos que, com o estudo, saibam de seus direitos, saibam cuidar da própria saúde, da moradia, etc. Além de incentivar esses grupos a entrar nas universidades, é muito importante garantir a permanência deles por meio de bolsas, incentivos à pesquisa, prêmios, apoio emocional, financeiro e institucional.

Por fim, em se tratando de educação superior, você poderia citar os três principais obstáculos para que a área da pesquisa seja mais valorizada no país? 
O primeiro é a falta de informação e conhecimento. A sociedade precisa saber da importância e da necessidade de se investir em ciência e tecnologia. Daí, a importância de se divulgar ciência para todos, de explicar de forma simples e objetiva conceitos que mostrem que a ciência está presente no dia a dia de cada um. O segundo é a falta de oportunidade para os diferentes grupos. Quando todos recebem a mesma oportunidade para estudar, viver e trabalhar, fica mais fácil a colaboração na pesquisa. O terceiro se trata das desigualdades na distribuição dos benefícios entre homens e mulheres, negros e brancos, pobres e ricos.

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