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Correio Braziliense

Leia entrevista com Álvaro Domingues, presidente do Sinepe-DF

''O professor deixou de ser o ponto central, difusor de informações''


postado em 28/09/2019 06:05

''A BNCC foi fundamental porque ela é um marco garantidor do direito mínimo de aprendizagem a todo estudante no Brasil''(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press - 23/1/18)
''A BNCC foi fundamental porque ela é um marco garantidor do direito mínimo de aprendizagem a todo estudante no Brasil'' (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press - 23/1/18)
O desafio de preparar as crianças e os adolescentes de hoje para o mercado de trabalho do futuro é algo que exigirá todos os esforços das escolas de Brasília, admite o presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe-DF), Álvaro Domingues. Ele diz que as instituições de ensino da capital precisam mudar um velho paradigma, “em que o professor continua centrando a aula nele e abordando os conteúdos de forma verticalizada”.

“A principal preocupação (dos professores), hoje, é que o foco não deve estar mais centrado em conteúdo. Até porque as informações são obtidas muito facilmente, por meio de várias ferramentas ligadas à internet. A escola tem que trabalhar, principalmente, no que chamamos de competências e habilidades”, analisa Álvaro.

Segundo ele, é necessário que os colégios priorizem capacidades como a de operação, assertividade, empatia, resiliência, trabalho em equipe e cooperação. “Acredita-se que essas serão as competências mais exigidas no futuro. O paradigma anterior, centrado no conteúdo com a aferição por meio de prova, tende a ficar cada vez mais obsoleto, e ceder espaço à capacidade de articular o conhecimento, gerando respostas a situações complexas apresentadas às pessoas, no caso, os estudantes”, afirma.

Hoje, as escolas do Distrito Federal estão preparadas para as profissões do futuro?

Poucas são as escolas que estão preparadas para as profissões do futuro, até porque muitas profissões hoje existentes não existirão mais e surgirão outras. Algumas que existem hoje, por mais tradicionais que sejam, sofrerão mudanças significativas na sua abordagem e na sua forma de atendimento ao mundo do trabalho.

Quais devem ser as preocupações dos educadores no preparo das crianças e adolescentes de hoje, diante de um mercado de trabalho que está em constante evolução?

A principal preocupação, hoje, é que o foco não deve estar mais centrado em conteúdo. Até porque as informações são obtidas muito facilmente, por meio de várias ferramentas ligadas à internet. A escola tem que trabalhar, principalmente, no que chamamos de competências e habilidades. Nessas competências, existem as que são técnicas e as que são de natureza socioemocional e comportamental. Resta à escola, portanto, trabalhar a capacidade de operar a assertividade, a empatia, a resiliência, o trabalho em equipe e a cooperação. Acredita-se que essas serão as competências mais exigidas no futuro, e que, aliás, já estão sendo exigidas por algumas empresas de ponta, principalmente na área de tecnologia, que exige muito mais domínio de competências socioemocionais do que de técnica e conteúdo. Então, o paradigma anterior, centrado no conteúdo com a aferição por meio de prova, tende a ficar cada vez mais obsoleto, e ceder espaço à capacidade de articular o conhecimento, gerando respostas a situações complexas apresentadas às pessoas, no caso, os estudantes.

Como as novas tecnologias mudaram a relação de ensino-aprendizagem atualmente?

As tecnologias que apareceram mais recentemente, mais fortemente em celulares, impactaram bastante o mundo escolar. O professor deixou de ser o ponto central, difusor de informações. Hoje, o aluno, ao chegar em sala de aula, pode ter domínio sobre determinados conteúdos ou certas informações. Está muito além daquilo que era a expectativa do professor no passado.

Hoje, o aluno é mais protagonista?

Ainda não. Ainda vivemos em um paradigma muito antigo, em que o professor continua centrando a aula nele e abordando os conteúdos de forma verticalizada. Penso que isso, com o tempo, deve mudar. É uma mudança de concepção e de metodologia, em que o aluno passará a ser mais um pesquisador de informações que possam contribuir, uma vez articuladas por meio de competências e habilidades, na solução de problemas e situações complexas. Então, ainda hoje, o aluno não é o protagonista de forma geral. Continuamos a vivenciar um modelo antigo, verticalizado, em que o professor alinha todos os alunos em sala de aula, passa o conteúdo no quadro e depois afere por meio de provas. A tendência é que isso mude. Que os alunos trabalhem de forma cooperativa, resolvendo problemas, pesquisando, dando sugestões, contribuindo, fundamentando suas ideias e apresentando ao professor, que a passa a ser um mediador nessa situação para desenvolver as competências e habilidades, principalmente as socioemocionais.

Como o professor pode se adaptar a novos métodos de ensino diante de tantos aparatos tecnológicos?

Já existem várias experiências no mundo todo, e mesmo no Brasil, muito significativas e com muita eficácia. A vantagem da internet é que ela socializa isso (o ensino), distribui de maneira muito ampla. Basta que o professor se interesse. Com a tecnologia, ele consegue adaptar muito bem a sua abordagem para determinadas questões do seu componente curricular. Usar as ferramentas da tecnologia amplia bastante o acesso do aluno a informações e a sua capacidade de resolver problemas e situações complexas que antes não conseguiam. É tudo muito acessível e facilitador. O que existe ainda é um preconceito, pois há professores que acham que essas ferramentas, às vezes usadas a distância ou em ambientes virtuais, não são tão educativas quanto o (ensino) presencial. O maior desafio é, com relação ao celular, disciplinar o uso em sala de aula para o aluno saber o momento de utilizar essas ferramentas e de parar para fazer uma reflexão sobre aquilo que está se planejando, criando e sugerindo (com as tecnologias), sem que ele fique permanentemente obcecado pela ferramenta.

Qual a sua avaliação sobre a Base Nacional Comum Curricular?

A BNCC foi fundamental porque ela é um marco garantidor do direito mínimo de aprendizagem a todo estudante no Brasil, independentemente de classe social ou região. Isso é fundamental e é um documento norteador para que a escola elabore o seu currículo, somado ao que chamamos de diretrizes curriculares.

O Sinepe-DF contribuiu de alguma forma com esse documento?

Sim. O Sinepe esteve presente em vários momentos nos últimos cinco anos ou até mais, no debate tanto da BNCC, quanto da Lei 13.415 (da reforma do ensino médio). O Sinepe deu uma contribuição marcante no Conselho Nacional de Educação, no Fórum Nacional dos Conselhos Estaduais de Educação. A BNCC foi um grande avanço. Admite reavaliações e aprimoramentos no futuro, assim como a lei de reforma do ensino médio.

Quais são os pontos mais fortes da BNCC?

Um dos pontos mais fortes da BNCC é que ela está estruturada por área de conhecimento. Isso já é um avanço e tem que ser consolidado. Além disso, ela trabalha competências e habilidades e foge do conceito tradicional de conteúdo. Penso que isso pode trazer uma racionalização na abordagem do conteúdo ao longo dos anos e etapas, sem repetição marcante de conteúdos em diferentes áreas de conhecimento ou componentes curriculares. Pode racionalizar o tempo de abordagem do que era antigamente feito em várias etapas, anos e séries. Vejo isso como grande vantagem, mas creio que também existem fragilidades na BNCC, pois ela já admite que, depois de um período, seja reavaliada e rediscutida. Acredito que, no futuro, ela poderá ser melhor avaliada do ponto de vista pedagógico e técnico, sem sofrer tanto assédio e desgaste por corporações que têm interesses contrários.

E os pontos que deixam mais dúvida?

Vejo que, por área de conhecimento, a mais bem estruturada, sequenciada e aprofundada é matemática. Na sequência, ciências da natureza, linguagens e códigos e, por último, ciências humanas. Acredito que, de todas, a estruturação ainda precisa ser refeita e repensada na de ciências humanas, que ainda é um pouco confusa. Vejo de maneira confusa, também, a de linguagens e códigos.

De que forma o sindicato trabalha para promover a cultura da paz e coibir a prática do bullying?

O Sinepe, há mais de 10 anos, possui um programa de prevenção ao bullying. O que fazemos, por meio de informativos, é recomendar que a escola se estruture na sua prática diária para evitar essas situações. Nos casos em que acontece o bulling, que a escola trabalhe não só com a pessoa que é a vítima, como também com o tal agressor, o que induz o bullying, para compreender os fatores que estão relacionados e pedir a cooperação da família. A partir disso, a escola pode traçar um planejamento de precaução. Mas existem várias formas e metodologias, como a utilização de plataformas que ajudem a identificar e a promover o ingresso do aluno a grupos sem hostilidade. Esse é um trabalho realizado principalmente pelo serviço de orientação e normalmente tem dado bastante resultado.

No processo educacional, o centro é o aluno. Mas como possível trabalhar de forma integral para que o professor também seja valorizado em sua profissão?

Realmente, o processo educacional tem que ser centrado no estudante e na sua aprendizagem. Como você pode trabalhar de forma integral? Depende de política pública. Valorização do professor depende essencialmente de política pública. Depende do interesse dos governantes em valorizar os professores, tanto na formação, que hoje está muito dissociada da realidade — as universidades brasileiras não conversam com a educação básica e, portanto, essa formação fica a desejar, como depois na própria formação continuada —, quanto na questão salarial. Se você pensar no Brasil de maneira mais extensa, em regiões menos assistidas, o salário ainda é muito pouco significativo, e sem hipocrisia, a hierarquia de renda é definidora do desejo das pessoas de ingressarem numa profissão. O fato é o seguinte: se não existir a valorização por parte do governo, nós sofreremos com um “apagão” de professores. Cada vez menos pessoas se interessarão pela área e teremos situações difíceis de se resolver no futuro, mais graves do que as que vivemos recentemente.

Como garantir um ambiente propício não só para o aluno, mas para o professor, visando diminuir casos de violência contra os docentes?

É lembrar que, essencialmente, a escola é um ambiente de interação humana. Ela reproduz conflitos sérios da sociedade. É lembrar que a escola também é parte de toda essa violência que existe na sociedade, e há que se ter medidas preventivas. Inicialmente de acolhimento, de compreensão, e de integração dos alunos e dos professores. Depois, preventivamente, ao identificar algum tipo de conflito, trabalhar com os personagens do confronto, para que eles compreendam o processo de educação e de aprendizagem nos quais estão inseridos, sem apelar para a agressividade ou até para situações mais graves. Isso é o desejável, mas não podemos ser ingênuos e achar que todos os alunos serão sempre educados e compreensivos. Existem situações, independentemente da classe social e de renda, em que o aluno tem uma posição de agressividade e tem que haver uma posição firme também da liderança da escola para coibir essas situações. Isso tem que ser tratado de forma muito realista e preventiva, com trabalhos de integração. Nada é tão eficaz quanto a inserção de artes e esporte para ir integrando o professor, de maneira que ele passe a vivenciar com o aluno, compreendê-lo melhor e vice-versa.