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Correio Braziliense

Celular: vilão ou mocinho?

No mundo cada vez mais tecnológico, o aparelho não pode ser ignorado no processo de aprendizagem. Especialistas, entretanto, recomendam cautela e orientação


postado em 28/09/2019 06:01

Luca Lima, 16:
Luca Lima, 16: "A gente tem um grande número de informações no celular. Podemos usar isso a nosso favor" (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Eles já ganharam um papel importante na sociedade e, sem dúvida, tomam grande parte do nosso tempo. Os smartphones não saem da mão dos adultos e, muito menos, dos jovens. Mas como disputar espaço com esse aparelho que traz o mundo para as pontas dos dedos? Para especialistas, o ideal é não ir contra eles, mas sim usá-los a favor da educação.

As regras para o estudante do 2° ano Luca Lima, 16 anos, são claras: celular, só quando o professor autorizar e nos intervalos, entre uma aula e outra. O aparelho que muitas vezes foi considerado o vilão em sala, hoje tem conquistado um papel positivo. “A gente tem um grande número de informações no celular que nós podemos acessar a qualquer momento e usar isso a nosso favor. A gente usa o aparelho para fazer algumas atividades e para ter contato direto com o professor fora da sala de aula, por meio de mensagens”, conta o estudante.

Especialista em educação física escolar e membro do Laboratório de Estudos do Lazer (LEL), Tiago Aquino destaca que as redes e as mídias sociais trouxeram a aceleração do conhecimento e da troca de informação, o que é visto com bons olhos, no âmbito da educação. “A gente não pode negar a tecnologia. Isso seria um retrocesso, mas a escola deve utilizá-la como meio de aprendizagem, sem deixar de fornecer o lado orgânico”, orienta.

Na Escola Americana Brasileira, o uso de celular é proibido em sala de aula, mas tablets têm sido usados como ferramenta de aprendizagem nas classes de crianças menores. “Aplicativos para séries inferiores geralmente possuem uma estrutura de jogo, onde alunos são desafiados a identificar determinadas palavras ou objetos, formar números e letras corretamente, realizar cálculos simples, entre outros”, afirma Brian Sullivan, diretor de tecnologia na instituição de ensino.

Luca estuda no Centro Educacional Leonardo da Vinci. A instituição buscou incluir a tecnologia nas aulas. O coordenador disciplinar Fábio Paiva afirma que, além do uso de aplicativos e quizzes, a escola fez uma parceria com o Google Sala de Aula, uma plataforma que ajuda alunos e professores a organizarem as tarefas e facilita a comunicação entre eles. “A ideia é construir com os alunos uma autonomia, para que eles tenham disciplina e saibam o momento certo de usar o celular”, pondera.

Paiva ressalta que, apesar de a instituição ter incluído o uso do celular nas aulas, a atividade é feita sob supervisão e o uso do aparelho é permitido apenas para fins pedagógicos. Luca diz que respeita a regra e que a tecnologia jamais terá mais força que o contato pessoal. “É claro que o lado humano é muito importante e não pode ser substituído. A gente tem que trabalhar juntos porque a máquina nunca vai substituir o professor”, enfatiza o estudante.

Supervisão


Para evitar que o uso do celular prejudique o aprendizado, a supervisão dos pais e da escola é fundamental. O bombeiro militar Lauro Lúcio Castelo Branco, 45, fica de olho na relação do filho, Miguel Castelo Branco, 15, com o smartphone. “Ele é orientado a não usar em sala de aula, sem a autorização do professor. Na escola, nunca atrapalhou, mas em casa é complicado. Eles (crianças e jovens) não têm controle. A gente tem que ficar o tempo todo vigiando”, comenta.

Miguel estuda na rede pública de ensino do Distrito Federal e garante que, em sala, ele só usa o celular quando o professor autoriza. O estudante conta que alguns docentes liberam o uso do aparelho para escutar música no fone de ouvido, enquanto os alunos copiam o conteúdo do quadro, ou para fazer pesquisas, mas, na hora da explicação, a norma é guardar o celular. “Estamos na era da tecnologia. Se a gente souber usar com responsabilidade, isso ajuda muito no nosso aprendizado. Se a gente não souber separar a vida social da estudantil, isso pode atrapalhar, reflete o estudante.

Tiago Aquino alerta que, se os pais e os professores não controlarem o uso do celular, isso pode se tornar um grande problema. “As crianças já nascem com as redes sociais como uma prioridade e isso se torna negativo quando eu não tenho educação para usar o celular. A gente tem que saber o que nós queremos transmitir e para quem, além de ter consciência do tempo em que passamos na rede e se esse tempo está sendo produtivo ou não”, alerta.

O especialista ressalta que o celular tem, sim, seu lado positivo e que tem muito a contribuir com a aprendizagem, desde que não seja usado sem limites e passando dos objetivos pedagógicos.


"Não se pode negar a tecnologia. Isso seria um retrocesso, mas a escola deve utilizá-la como meio de aprendizagem, sem deixar de fornecer o lado orgânico"
Tiago Aquino, professor