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Correio Braziliense

Pelo direito de trabalhar sem medo

Pesquisa do Sinpro revela que mais da metade dos professores da rede pública do DF sofreu agressão dentro das escolas


postado em 28/09/2019 06:03 / atualizado em 27/09/2019 11:13

Mais da metade dos professores da rede pública do DF afirma ter sido alvo de violência dentro das escolas(foto: Fernando Lopes/CB/D.A Press)
Mais da metade dos professores da rede pública do DF afirma ter sido alvo de violência dentro das escolas (foto: Fernando Lopes/CB/D.A Press)
escola tem papel crucial no enfrentamento à violência e na formação de alunos que desejam construir uma sociedade mais justa, democrática e tolerante. Para isso, é fundamental que todos os pilares da comunidade acadêmica estejam fortalecidos, em especial os professores. Cada vez mais cobrados para desempenharem o papel transformador em sala de aula, o olhar de cuidado aos docentes não pode ser negligenciado.

“Mais do que um olhar aos professores, é necessário estabelecer um diálogo para que estratégias de melhorias possam ser criadas e adotadas no coletivo da escola. A falta dele se revela como sintomas e adoecimento”, alerta a psicóloga e consultora em saúde e trabalho do Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro/DF), Luciane Kozicz.

Dados levantados pelo Sinpro indicam que 56% dos professores se afastam ao ano para tratamento de saúde. Desse percentual, 70% são referentes a licenças por transtornos mentais e comportamentais. “A maioria está atrelada ao cotidiano de violência nas escolas”, completa Luciane.

Mais da metade dos professores da rede pública do DF afirma ter sido alvo de violência dentro das escolas, a maioria dos casos provocados por alunos (43%), pais (22%) e colegas (17%). Quase a totalidade deles (97,15%) já presenciou situações de afronta à paz dentro das instituições de ensino. Os levantamentos fazem parte de uma pesquisa do Sindicato dos Professores (Sinpro DF), que entrevistou 1,3 mil professores em 2018.

Patrícia* é uma das profissionais de ensino que entraram para as estatísticas. Desde maio ela está afastada das atividades escolares para tratamento de doenças que desenvolveu após um período de opressão no trabalho. “A escola deve ser regida pelo princípio da democracia, mas não era isso que estava acontecendo. Eram conflitos diários com os gestores, que simplesmente queriam impor, sem estabelecer uma troca de ideias necessária”, relata. Ela desenvolveu depressãoansiedade e tinha crises de pânico.

“Pensar em ir para a escola e encontrar o mesmo ambiente intolerante era um martírio. Quando chegava ao estacionamento, começava a chorar e não queria sair do carro. Eu adoeci pela falta de acolhimento, por não olharem para mim como um ser humano dotado de sentimentos e necessidades, apenas uma matrícula”, desabafa Patrícia.

Se por um lado a instituição deixava de cumprir o dever de escutar e discutir com professores e demais servidores; por outro, a cobrança por resultados dos alunos era vigente, reclama Patrícia. “Como ser referência de ser humano capacitado emocionalmente se isso é negligenciado?  Muitos professores estão adoecidos, desmotivados pela falta de valorização. Se não houver um ambiente de troca, de retorno e integração, tudo fica mais difícil.”

O cenário de intolerância e ameaça assombrou Maria* por muitos anos. Por diversas vezes, ela foi alvo de agressões de pais e alunos ao longo das mais de duas décadas de atuação na área educacional. “Já teve aluno que partiu para cima de mim, casos incontáveis de desrespeito e ameaça. Mas já precisei ser afastada depois que um jovem, com histórico de uso de drogas, colocou uma arma na minha cabeça”. A professora precisou ser remanejada para outra regional de ensino depois do episódio.

Para Maria, as atitudes nada mais são do que os reflexos dos problemas além dos muros das escolas. “Vivemos em uma sociedade violenta, intolerante, em que o respeito é pouco trabalhado. Muitas vezes, os alunos são frutos de famílias desestruturadas e ausentes, jogando para os professores a responsabilidade exclusiva de educar. As instituições e os profissionais têm esse compromisso, mas não têm força para lidar com essa sobrecarga”, diz.

Envolvimento da escola e da família


Há uma tendência problemática à naturalização da violência nas escolas, que, por vezes, é considerada corriqueira pela comunidade acadêmica. Reverter esse quadro depende de um trabalho que conta com o envolvimento também do estado e da família.

Basta: violência não pode ser vista como coisa natural ou corriqueira: dever de todos(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Basta: violência não pode ser vista como coisa natural ou corriqueira: dever de todos (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Ameaças e desrespeito passaram a ser algo constante na vida profissional de Isnã dos Santos desde que ele assumiu a direção do Centro de Ensino Fundamental 25 de Ceilândia. “Já teve aluno que disse que me daria facada, que me ‘pegava’ na saída da escola. São situações diárias que naturalizam esse tipo de violência”, expõe o diretor.

Visando promover a cultura da paz dentro da instituição e proporcionar um ambiente melhor para os funcionários e alunos, o CEF 25 passou a aplicar projetos, em conjunto com o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), que conta com palestras, rodas de conversa e reestruturação dos modelos de comunicação com foco no contato mais humanizado.

“Os professores passam por formação para essa mudança de postura que visa trabalhar não só o conteúdo, mas a inteligência emocional. Para isso, eles também precisam encontrar na escola um espaço de acolhimento, de abertura de diálogo”, afirma Isnã. As famílias também são chamadas a participar desse processo. “Muitas vezes os alunos refletem atitudes que são reflexos de casa, dos ciclos de vivência. Buscamos dar suporte às famílias e ter o suporte delas, em uma troca. É um trabalho de formiguinha e que encontra barreiras, mas que precisa começar de alguma forma.”

Ações

Na Secretaria de Educação, as subsecretarias de Formação Continuada dos Profissionais da Educação (EAPE) e de Gestão de Pessoas (SUGEP) são as responsáveis por discutir e elaborar ações para fortalecer a saúde mental de professores e demais educadores no contexto escolar.

“Entre as práticas, está a Virada Pedagógica, uma ação de formação continuada que utiliza o espaço-tempo da coordenação pedagógica para levar diversas temáticas aos docentes da rede, que acontece de forma simultânea nas 14 Coordenações Regionais de Ensino”, destaca a chefe da assessoria especial da Seedf, Janaína Almeida

Pensando em difundir a cultura de paz nas escolas e torná-las cada vez mais ambientes de enfrentamento à violência, a secretaria está lançando o caderno orientador Convivência Escolar e Cultura de Paz, que contém questões conceituais e orientações de como agir perante as violências observadas no ambiente escolar e contatos de órgãos responsáveis. (BL)
 

* Nomes fictícios para preservar a identidades dos professores