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Correio Braziliense

Escola acolhedora

Centro Educacional Gesner Teixeira, no Gama, trouxe uma perspectiva de escola acolhedora, dialógica e promotora de relações harmoniosas entre todos os seus atores sociais


postado em 28/09/2019 06:16

Centro Educacional Gesner Teixeira, no Gama: projeto mudou a escola(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Centro Educacional Gesner Teixeira, no Gama: projeto mudou a escola (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Saber cuidar: uma habilidade que requer conhecimento, solidariedade, pensamento coletivo, respeito social e ambiental. É reconhecer as próprias qualidades e limitações e ter extinto de sobrevivência para assim poder voltar o olhar ao próximo. A prática, que envolve tanto o nível individual quanto coletivo, é referência para a construção de um currículo de aprendizagem que promova a formação integral do ser humano.

 

Incorporando a pedagogia do cuidado como eixo do Projeto Político Pedagógico (PPP), em 2018, o Centro Educacional Gesner Teixeira, no Gama, trouxe uma perspectiva de escola acolhedora, dialógica e promotora de relações harmoniosas entre todos os seus atores sociais. O projeto “Saber Cuidar” norteia as demais ações desenvolvidas nos planos de aula, no cotidiano escolar, na relação com a comunidade, na valorização do patrimônio material e humano.

 

A implementação do projeto trouxe para Felipe Ferreira, 16, estudante do 8º ano, uma nova perspectiva sobre si mesmo. “Antes eu xingava colegas e aprendi que isso é errado. As pessoas passaram a me tratar melhor porque eu também comecei a respeitá-las”. Felipe tem deficiência intelectual. Sem o olhar individualizado, tinha dificuldades de lidar com as próprias emoções e não conseguia se relacionar bem com os colegas.

 

São trabalhadas quatro dimensões do cuidado: Ecologia Humana e Sustentabilidade, Cidadania, Diversidade e Direitos Humanos e Valorização do Patrimônio. “Todas as atividades são voltadas ao respeito ao próximo, à partilha, à generosidade”, conta a orientadora educacional Raquel Guimarães.

 

Entre as ações, que contam com a parceria da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, estão a oferta de práticas integrativas de saúde como shantala (técnica de relaxamento), automassagem e meditação e terapia comunitária. O objetivo é alcançar a efetivação de uma escola pautada no olhar cuidadoso com as relações humanas e na promoção de vínculos sociais e afetivos.

 

Uma das atividades adotadas pelo centro de ensino foi a roda de conversa com alunos que passam por algum tipo de vulnerabilidade, seja ela social, seja emocional. “Com as práticas, as pessoas passaram a se identificar mais, se espelhar uma nas outras, se ajudar. Isso realmente mudou o ambiente escolar, porque começamos a nos sentir mais livres para externar o que realmente estamos sentindo”, conta a aluna do 9º ano Maria Clara Costa, 14.

 

Aprender a lidar com os próprios sentimentos também mudou a vida da estudante do 7º ano Rebeca Teixeira, 13. Com um histórico de depressão, ela chegou a faltar semanas de aula porque não encontrava na escola uma referência. “Com o apoio dos orientadores, professores e colega, passei a me enxergar, a me entender e me controlar. As dificuldades ainda existem e sempre vão existir. É normal. Mas sei que vou procurar apoio e vou encontrar e isso conforta”, conta.

 

A linha de aprendizagem que foca no desenvolvimento socioemocional e na melhoria entre a integração do aluno com a escola fizeram com que a abordagem fosse explorada em outras escolas da regional de ensino do Gama. “O Gesner Teixeira é o colégio inspirador. Vimos muito resultado e, por isso, estamos ampliando o projeto para mais oito escolas. É necessário abrir um espaço de escuta, das dores e conflitos não só dos estudantes, mas professores e comunidade para o fortalecimento das habilidades socioemocionais e a busca por uma sociedade mais tolerante e equilibrada”, explica a assessora pedagógica da regional, Francisca Beleza.

 

Desafios

“A escola é uma extensão da comunidade, precisamos captar a realidade desses alunos e trabalhar em cima dela de maneira contributiva, evitando a evasão e melhorando o rendimento escolar”, diz a diretora Leila Cunha de Albuquerque. No Brasil, 2, 8 milhões de crianças e adolescentes estão fora de sala de aula. O índice de evasão escolar chega a 11,2% entre jovens de 15 a 17 anos, segundo o Ministério da Educação.

 

No DF, 3,3 mil alunos do ensino fundamental e 4,8 mil do ensino médio foram afastados das escolas por abandono, o que representa 1,23% e 6,31% dos matriculados em 2018, respectivamente. Já o índice de reprovação foi de 6,35% no fundamental e 12, 53% no médio.

 

Para construir ações que aprimorem o processo pedagógico e evitem o abandono da educação, a Secretaria de Educação (Seedf) conta com apoio técnico do Unicef, por meio da  plataforma Trajetórias de Sucesso, que disponibiliza um painel diagnóstico e conjunto de recomendações pedagógicas a partir de dados do Censo Escolar.

 

“O aluno precisa encontrar na escola um ambiente acolhedor e com uma ampla rede de apoio. O trabalho é para que ele consiga agir como protagonista na ação educativa e capaz de propor transformações para além dos muros da escola. O centro é o aluno, mas, para que isso ocorra, é necessário o acolhimento e cuidado de toda a comunidade acadêmica. Esse é o caminho”, finaliza Leila.

 

 

"Com as práticas, as pessoas passaram a se identificar mais, se espelhar uma nas outras, se ajudar. Isso realmente mudou o ambiente escolar"

 

Maria Clara Costa, 14, aluna do 9º ano