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Correio Braziliense

Uma outra linguagem

Alunos bem treinados nas novas ferramentas e tecnologias levam vantagem e se qualificam melhor para as exigências do mercado


postado em 28/09/2019 06:06 / atualizado em 11/10/2019 12:39

Anna Clara e Maria Rita: desenvolvem sistemas sustentáveis(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Anna Clara e Maria Rita: desenvolvem sistemas sustentáveis (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Como preparar um aluno para o mercado de trabalho em um mundo de constantes mudanças e inovações? Não basta apenas ter acesso às novas tecnologias. É necessário dominá-las e usá-las como instrumento para desenvolver outras soluções. Nesta pegada, a educação tecnológica surge como metodologia que visa à formação de um indivíduo antenado, criativo, proativo e dominador do próprio conhecimento.

Desde o 3º ano do ensino fundamental, Anna Clara Carmin, 13 anos, atualmente cursando o 8º ano, teve contato com recursos tecnológicos e aulas de robótica integrados à grade horária. “Aprendendo tudo isso desde tão jovem, me ajuda a crescer com a mente aberta para expandir e ter ideias inovadoras, que é isso que a gente precisa no nosso futuro. Vou ter esse diferencial quando entrar no mercado de trabalho”, diz a aluna do Serviço Social da Indústria do Distrito Federal (Sesi-DF), de Taguatinga.

Anna planeja seguir a carreira de biomédica, explorando habilidades que ela garante vir desenvolvendo por meio das aulas de robótica. “A gente aprende a resolver problemas e propor soluções de forma sustentável e benéfica para a sociedade. Na biomedicina, o objetivo é, por meio do conhecimento aplicado, preparar medicamentos, alternativas para a melhora do ser humano”, justifica.

Pelo destaque nas aulas de robótica, Anna passou a integrar a equipe oficial do colégio, desenvolvendo projetos para competições em torneios internacionais. A colega de time e aluna do 3º do ensino médio Maria Rita Romeiro, 17, conta alguns dos desafios que a equipe Albatroid já precisou traçar. “Desenvolvemos um sistema de controle de saída de água sustentável, um banco de dados inteligente voltado a apicultores que avisa as tarefas e o capacete para aliviar o estresse dos astronautas.”

A produção do capacete rendeu dois troféus em um torneio de robótica, que envolveu 42 equipes de todo o mundo, ocorrido em julho de 2018, na Austrália. Com o projeto, os alunos de 13 a 16 anos conquistaram a primeira colocação na categoria Estratégia e Inovação, e a segunda no Desafio do Robô. A proposta da vez era construir robôs para ajudar nos transtornos psicológicos sofridos por astronautas. Eles apresentaram um capacete que utiliza terapias alternativas, como a cromoterapia, a musicoterapia e a reflexoterapia, para aliviar o estresse pelo estímulo de áreas específicas do corpo humano.

Para tirar a ideia do papel, os alunos precisaram explorar diferentes áreas do conhecimento como psicologia, fisioterapia, engenharia aeroespacial, física, química, matemática e biologia, além de se apropriarem dos recursos tecnológicos. “Somos estimulados a colocar em prática o que aprendemos em sala de aula e a ztrabalhar a interdisciplinaridade. Usamos as tecnologias como auxiliadoras para desenvolver o que a gente precisa, pensando sempre nas novas demandas e na responsabilidade ambiental e social”, completa Maria Rita.

Independência


Para o professor de matemática e robótica André Alcântara, a metodologia é essencial para a autonomia do aluno. “Ele é criador das próprias competências e habilidades e ter recursos avançados para a produção desse conhecimento é um diferencial. Nesse contexto, cabe ao professor o papel de mediador, porque eles são sujeitos mais autônomos, protagonistas e que sabem trabalhar em equipe, em cooperação”, completa.

Na educação tecnológica, o objetivo é fazer com que o estudante aprenda a aprender, afirma a gerente de educação do Sesi-DF, Núbia Rosa. “A missão é a formação de um ser humano na sua integralidade. Que ele aprenda a desenvolver conhecimentos, a pesquisar, a ir além. Prepará-lo para um mundo de inquietações, de busca por soluções demandadas no mundo do trabalho que se vislumbra.”

Para ela, o desafio é preparar um aluno capacitado tecnologicamente e com maturidade socioemocional para lidar com mudanças. “O que está colocado para o mundo do trabalho, em muitos aspectos, é uma incógnita. Não se sabe exatamente que profissões serão demandadas. Vivemos uma grande transformação nos processos produtivos, em que a indústria 4.0 parte do princípio do homem em interface com máquinas. Então precisamos preparar um profissional com outras competências”, justifica. 

 

 

Atenção com o professor

Antes de incorporar as novas tecnologias ao dia a dia da vida escolar dos alunos, o colégio tem de se preocupar com a adaptação dos profissionais que disponibilizarão essas ferramentas aos estudantes. Os professores, muitas vezes, têm bastante resistência em se adequar a métodos mais contemporâneos de ensino. Por isso, mudar o olhar do educador sobre a tecnologia é determinante para o sucesso na aprendizagem.

“O professor é quem mais precisa ser apoiado nesse processo. Durante sua vida profissional, ele ficou marcado como a pessoa que detém todo o conhecimento, mas agora, já não é bem assim. Se o educador não entrar na corrente das transformações e não estiver concatenado com instrumentos que podem deixar a sua aula ainda mais eficiente, ele ficará ultrapassado”, alerta o diretor de operações do Sesi, Paulo Mól (leia Duas perguntas para).

Atualmente, o conhecimento digital é tão importante quanto o conteúdo das disciplinas curriculares. O futuro pessoal e profissional do estudante, por exemplo, será pautado basicamente pela maneira com a qual ele consegue assimilar as novas ferramentas tecnológicas e aplicá-las à sua realidade. Por isso, deve-se instigar o professor a priorizar uma didática de maior interação com o que há de mais recente em termos de mecanismos computacionais.

“Essa é uma habilidade necessária e imprescindível para a formação do estudante, assim como as aptidões socioemocionais e de comunicação e liderança. Novas revoluções industriais estão batendo à porta, e, em um futuro próximo, a inteligência artificial e a nanotecnologia, por exemplo, serão cada vez mais fortes. O movimento está ocorrendo mais rápido do que se imaginava e as escolas precisam despertar o quanto antes para o ensino da tecnologia em sala de aula”, destaca o diretor da Mind Makers, João Lacerda.

Capacitação

Há pelo menos dois anos, o Colégio La Salle, em Águas Claras, tem investido na capacitação do seu corpo pedagógico, por meio de cursos de formação em ferramentas da internet e softwares, que rendem certificações aos educadores. Atualmente, a escola tem até um setor de tecnologia educacional, responsável por orientar os professores.

“Nós não pressionamos nenhum professor a usar tecnologia, mas, sim, o incentivamos a se inserir nessa realidade e perceber como as ferramentas podem ser agregadas ao seu trabalho. Isso ajudou o colégio a elaborar novas formas de dar aula. Hoje, utilizamos computadores, celulares e tablets, que ampliam o olhar do educador para o processo de ensino-aprendizagem”, diz o responsável pela tecnologia educacional da instituição, Janerson Borges.

Dessa forma, a escola adaptou ambientes específicos apenas para a utilização da tecnologia. Em uma das salas, por exemplo, os estudantes se reúnem em grupos para utilizar a plataforma Google for Education, na qual acessam conteúdos virtualmente e até fazem avaliações, que funcionam, consequentemente, como um “teste” para as futuras edições do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que, a partir do ano que vem, será aplicado digitalmente. Os jovens ainda têm acesso a jogos educativos e a vídeoaulas.

“Trabalhando dentro dessa metodologia, conseguimos favorecer o entendimento dos alunos. Uma aula mais dinâmica e interativa sistematiza o conhecimento, porque os jovens têm bastante facilidade para assimilar conteúdos disponibilizados por plataformas digitais. No fim das contas, eles se engajam por entender que estamos trazendo coisas diferentes”, ressalta a supervisora educativa, Tânia Pagano.

 

A realidade do século 21

 

Ana Carolina, ao centro:
Ana Carolina, ao centro: "precisamos saber assimilar a quantidade de informações que surgem diante de nós da forma mais rápida possível" (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 

Diante de um aprendizado mais adequado à realidade do século 21, os alunos ganham confiança e há quem diga que o uso da tecnologia abre espaço para que eles não se sintam meros consumidores dessa ferramenta. “O jeito que a escola nos força a usar a internet, por meios inovadores, permite que nós saibamos controlar um programa ou aplicativo. Nos próximos anos, quando estivermos trabalhando, esse conhecimento vai ser importante, porque não teremos de aprender a mexer em algum software de imediato, como acontece hoje com algumas pessoas”, analisa Leonardo Nunes, 15 anos, estudante do 1º ano do ensino médio.

 

Visando ao futuro profissional dos jovens, o controle da tecnologia será fundamental para que eles assumam postos de trabalho. Tanto que um estudo feito em 2018 pelo Fórum Econômico Mundial revelou que, das competências desejáveis para qualquer ocupação, a partir de 2022, análise de sistemas e design tecnológico, e programação estão entre as 10 principais.

 

“A cada dia temos mais contato com a tecnologia e precisamos saber assimilar a quantidade de informações que surgem diante de nós da forma mais rápida possível. Por isso, aprender ainda na escola as competências que serão cobradas de nós pelo mercado de trabalho é muito importante”, garante Ana Carolina Vieira, 15, também do 1º ano do ensino médio do La Salle.

 

Tempo sem volta

 

A gama de aparatos tecnológicos no ambiente escolar faz com que a absorção de conhecimentos seja mais agradável. Para Pedro Leite, 16, amigo de Leonardo e Ana Carolina, a tecnologia é um produto da educação. “Quanto mais a utilizarmos como fim educacional, mais ela vai aumentar”, diz. “Como nós já nascemos diante de uma realidade digital, tudo fica mais fácil. Portanto, cabe a nós expandirmos os recursos que a tecnologia pode oferecer”, acrescenta o estudante do 2º ano do ensino médio. 


Duas perguntas para Paulo Mól, diretor de operações do Sesi

Por que os colégios devem incorporar a tecnologia na sua metodologia de ensino?É importante a escola estar conectada com o mundo real. Ela tem de imaginar que os seus alunos ocuparão postos importantes no mercado de trabalho e, a partir daí, pensar qual profissional ela gostaria de formar. Todas as habilidades, competências e atitudes que o estudante pode desenvolver são oportunizadas por meio da tecnologia. Por isso, ela é importante.

 

Como a tecnologia pode ser um diferencial para a vida dos estudantes?

Ou as pessoas aprendem a programar ou elas serão programadas. Diante disso, entender pelo menos o básico das ferramentas tecnológicas é importante para que as pessoas saibam solucionar qualquer tipo de problema. É preciso fazer com que os estudantes associem a tecnologia ao que acontece ao nosso redor e a usem como resposta para as demandas que surgirem.