Publicidade

Correio Braziliense

Mudar de ciclo requer atenção

A criança e o adolescente precisam se sentir seguros e confiantes em cada nova etapa da sua vida escolar


postado em 28/09/2019 06:17

A estudante Luísa Araújo, 15, sentiu dificuldades ao começar o 1º ano: ''O conteúdo e as provas são diferentes''(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
A estudante Luísa Araújo, 15, sentiu dificuldades ao começar o 1º ano: ''O conteúdo e as provas são diferentes'' (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
O ciclo da educação básica é marcado por diversas etapas. A cada ano letivo, o aluno é apresentado a novos desafios. O fato de lidar com experiências diferentes, se não for acompanhado de perto por pais e professores, pode se tornar um trauma para a vida escolar de uma criança ou adolescente. Portanto, a transição entre cada série, sobretudo quando ela ocorre do ensino infantil para o fundamental, ou do fundamental para o médio, deve ser feita com cuidado, a fim de que o estudante possa seguir o seu desenvolvimento pedagógico sem dificuldades.

“É preciso fazer ajustes para que a criança ou o adolescente encontre equilíbrio. Se existe uma pessoa que não pode sofrer dentro da escola é o aluno. O planejamento é fundamental para que o estudante perceba que naquele colégio ele está seguro, e que essa instituição vai primar pela sua evolução. Se a escola não tiver um cronograma à altura do aluno e que não atenda às suas necessidades, isso é um problema”, analisa a professora do curso de pedagogia do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb), Adjanira Borges.

 

Segundo a professora, é importante que os pais também participem do processo. Educar, para Adjanira, não é uma obrigação exclusiva das escolas. “A responsabilidade é igual para os dois lados. A criança tem de se sentir acolhida principalmente pelos pais, que, diante de um novo desafio, devem ser o seu porto seguro. São eles que devem passar confiança”, explica.

 

O apoio é indispensável especialmente para os mais pequenos. Para a professora, as crianças que deixam o ensino infantil precisam de uma preparação tanto na escola quanto em casa para que o seu momento seja respeitado. “Nos anos iniciais do ensino fundamental, as responsabilidades mudam. É nesse momento que todos devem trabalhar para que a integração do aluno a esse novo ambiente se dê da melhor maneira possível. O que foi trabalhado na educação infantil não pode ser esquecido de imediato”, analisa Adjanira.

 

No Colégio Claretiano, em Taguatinga, a troca entre as etapas de ensino é supervisionada por praticamente todo o corpo de funcionários, sobretudo por coordenadoras pedagógicas, como Maria Alice de Camargo, responsável pela coordenação do ensino infantil. Para preparar os alunos à mudança, o trabalho é iniciado ainda nos últimos meses do ciclo dos pequenos na etapa inicial da educação básica.

 

“A professora do 1º ano do ensino fundamental faz visitas aos alunos da pré-escola 2 e até dá algumas aulas, para que eles já se sintam habituados. Além disso, o tempo de intervalo também muda, e passa a ser o mesmo da série na qual eles estarão no ano seguinte”, conta Maria Alice. Por outro lado, quando as crianças já estão, de fato, na primeira fase do ensino fundamental, são mantidas algumas particularidades do ano anterior.

 

“Alguns processos, como a leitura compartilhada e as brincadeiras, não são retiradas de imediato. Isso é feito aos poucos, para que eles se adaptem ao ritmo do 1º ano do ensino fundamental”, conta a coordenadora. “A gente ainda precisa dessa ludicidade, até para que as crianças não percam aquela sensação de cuidado que existe no ensino infantil. A partir desse olhar, elas vão se sentindo mais ambientadas e veem que o ensino fundamental não é nenhum bicho-papão”, completa Maria Alice.

 

Etapas seguintes

Para os alunos mais velhos, a transição não é menos importante. Coordenadora do ensino fundamental, Maria José Passos conta que a mudança das séries iniciais do ensino fundamental (1º ao 5º ano) para as séries finais (6º ao 9º ano) também é feita entre o fim de um ano letivo e o início de outro. “O estilo de prova e projetos aplicados no 6º ano já é feito no 5º ano. Os estudantes também vão se adaptando a uma quantidade maior de professores. Mas claro que tudo é feito considerando a maturidade e a vivência dos alunos”, detalha.

 

Mesmo assim, o primeiro trimestre do 6º ano costuma ser adverso para boa parte dos estudantes. Para resolver a questão, o colégio oferece um serviço de orientação educacional e ainda comunica a família do aluno em dificuldade. Assim, o desempenho tende a ser positivo nos trimestres seguintes. “Não há uma turma homogênea, portanto, as dificuldades sempre vão existir. Mas logo eles amadurecem, entram no ritmo e seguem o processo normal”, garante Maria José.

 

O mesmo acontece aos alunos que terminam o ensino fundamental. Aos 15 anos, a estudante Luísa Araújo, já no 1º ano do ensino médio, sabe bem o que transitar entre cada um dos ciclos da vida escolar, e a ajuda na transição oferecida pela escola foi crucial para que ela se adaptasse neste ano.

 

“Do 9º ano do ensino fundamental para o 1º ano do médio, os professores são os mesmos. Isso faz com que os alunos tenham uma confiança maior. No entanto, o modo como o conteúdo é cobrado é diferente, assim como as provas. Por causa disso, meu rendimento no primeiro trimestre ficou abaixo do esperado. Tive até medo de ficar com recuperação, assim como alguns colegas. Mas conversamos com o diretor da escola e ele nos deu todo o suporte necessário quanto a essa questão de adaptação. Isso nos deixou mais tranquilos”, comenta.

 

Para facilitar o contato entre alunos e professores, o colégio disponibiliza uma plataforma on-line para que os estudantes tenham acesso a conteúdos e exercícios, e possam tirar dúvidas sobre determinados assuntos. Segundo Luísa, isso também contribuiu para que a passagem pelo ensino médio fosse menos traumática.

 

“Toda a turma se juntou para aproveitar ao máximo essa ferramenta. Isso fez com que a gente tirasse dúvidas até entre nós mesmos. Hoje, já estamos muito mais adaptados. Com a turma unida e a escola preocupada em nos ajudar, temos mais confiança”, analisa a estudante.

 

 

"Alguns processos, como a leitura compartilhada e as brincadeiras, não são retirados de imediato. Isso é feito aos poucos, para que eles se adaptem ao ritmo do 1º ano do ensino fundamental"

 

Maria Alice de Camargo, coordenadora do ensino infantil

 

"Os estudantes vão se adaptando a uma quantidade maior de professores. Tudo é feito considerando a maturidade e vivência dos alunos"

 

Maria José Passos, coordenadora do ensino fundamental