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Correio Braziliense

O amanhã é hoje

Além do ensino das disciplinas curriculares, escolas se engajam para preparar alunos capazes de resolver problemas de forma inovadora


postado em 28/09/2019 06:10 / atualizado em 27/09/2019 12:05

Estudantes têm aulas de robótica, com fundamentos de eletrônica básica: desafios diários(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Estudantes têm aulas de robótica, com fundamentos de eletrônica básica: desafios diários (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
A cada dia, o mundo se reinventa. A constante evolução, pautada principalmente pelo aperfeiçoamento da tecnologia, com o surgimento da inteligência artificial e a automação acelerada, atinge em cheio o ser humano e o obriga a pensar em soluções para se adaptar à nova realidade e se adequar a relações profissionais e pessoais cada vez mais exigentes. Diante desse cenário, um personagem não pode ser esquecido: o estudante. Hoje crianças e adolescentes em formação, amanhã serão eles os adultos responsáveis por ditar o futuro do país. Portanto, para que isso ocorra com sucesso, é indispensável a atenção das escolas quanto ao desafio de prepará-los para as emergentes transformações e, sobretudo, as profissões que surgirão. “O mercado de trabalho está se tornando cada vez mais dinâmico, exigindo pessoas que sejam capazes de mudar de área ou de se ajustar a novas situações e resolver problemas de forma inovadora. Isso vale tanto para as profissões mais simples, quanto para as mais complexas. Portanto, o grande desafio para as escolas é como formar crianças e adolescentes que tenham esses atributos”, analisa o professor do Departamento de Métodos e Técnicas da Universidade de Brasília (UnB), Gilberto Lacerda.

Para o especialista, a preparação dos jovens para o mundo corporativo do futuro deve seguir ainda dois aspectos indispensáveis. O primeiro é o acesso do estudante às novas tecnologias. “Quanto mais as escolas proporcionarem esse contato, melhor será o entendimento do aluno quanto às possibilidades desses instrumentos”, analisa o professor. O segundo é uma boa formação pedagógica das crianças e adolescentes. “É necessário domínio do português, da matemática e de outras linguagens básicas para que o indivíduo possa utilizar as tecnologias de forma mais inteligente. Sem compreensão e senso crítico, eles serão apenas joguetes desses aparatos”, analisa Lacerda.

A preocupação com o futuro movimenta algumas instituições de ensino de Brasília, que já tratam o horizonte como realidade, especialmente porque, na próxima década, a estimativa é de que 85% das ocupações existentes no mercado de trabalho sejam novas (veja quadro na página 31). No Colégio Ideal, de Taguatinga, alunos do 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio têm aulas de robótica nas quais aprendem fundamentos que vão da eletrônica básica à automação de projetos.

“A robótica surge como o primeiro contato desses alunos com algo prático que pode se tornar uma profissão, afinal, a ciência está em tudo. Quando incentivamos essa atividade, os estudantes passam a entender que não são apenas meros consumidores da tecnologia, como também pessoas capazes de criá-las”, explica o professor de robótica da escola, João Henrique de Oliveira. “O papel da escola é oportunizar experiências para que o estudante se veja fazendo aquilo no futuro”, avalia.

Possibilidades


Segundo João Henrique, qualquer profissão que surja a partir de hoje estará relacionada ao conhecimento científico. Portanto, independentemente da carreira que os estudantes optarem por seguir, o aprendizado adquirido atualmente será fundamental para a vida de cada um. “Naturalmente, a tendência é de as coisas irem se implementando e a tecnologia está tão anexa à nossa sociedade que as próximas profissões vão se basear em como lidar com ela. Por isso, a vivência com a robótica vai facilitar o futuro”, pontua.

Aluno do 2º ano do ensino médio, Igor Caldeira,16 anos, tem essa percepção. Graças às aulas de robótica da escola, hoje ele já consegue até desenvolver aplicativos para celulares e mexer na programação de computadores. “Pretendo trabalhar com isso no futuro, até porque eu acredito que não haverá escapatória. Teremos de nos adaptar a um mundo cada vez mais tecnológico”, analisa o estudante.

Artur Coelho, 14, está no 8º ano do ensino fundamental e reconhece que as máquinas certamente vão eliminar postos de trabalho, mas lembra que sempre existirá um ser humano construindo as novas tecnologias. “No futuro, será grande a demanda por aparelhos cada vez mais precisos. A tecnologia terá de ser melhor a cada dia. Portanto, acredito que isso que estamos fazendo agora é uma prévia daquilo que podemos produzir daqui a algumas décadas”, opina o adolescente.

É consenso entre os jovens que o conhecimento adquirido na escola não será esquecido. “Aqui, transformamos lixo eletrônico em algo novo. Usamos a nossa criatividade para reaproveitar uma coisa que já não tinha mais valor algum. Ou seja, essa capacidade de invenção será fundamental para o nosso futuro”, destaca Manuela Nunes, 11, do 6º ano do ensino fundamental.

Mente também deve ser trabalhada

Alunos da Escola Seb Dínatos, na Asa Sul, são estimulados ao debate, a idealizar e a formular projetos(foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
Alunos da Escola Seb Dínatos, na Asa Sul, são estimulados ao debate, a idealizar e a formular projetos (foto: Ed Alves/CB/D.A Press )

Trabalhar capacidades de relacionamento e autoconhecimento são tão imprescindíveis quanto a familiaridade com todo o aparato tecnológico disponível aos jovens. Psiquiatra e fundador do Programa Semente, Celso Lopes explica que as competências socioemocionais também devem ter um papel central na formação dos estudantes, afinal, “a escola precisa estar preocupada com qual bagagem de aprendizado vai prover aos alunos para que eles enfrentem o mundo que os espera”.

Para o especialista, quanto antes os professores ensinarem os alunos a lidarem com cenários de alegria e frustração, mais fácil será para que eles saibam administrar situações corriqueiras do cotidiano.

“Os professores têm de fazer o aluno trabalhar sua autogestão. Ou seja, a capacidade dele de determinação, persistência, assertividade e, principalmente, resiliência emocional. Ao mesmo tempo, o estudante precisa participar de trabalhos em grupo, para que ele apresente o seu ponto de vista aos demais e saiba dialogar, caso haja divergências de pensamentos. Isso vai estimular aspectos como iniciativa, empatia e convicção”, detalha Celso.

Tal dinâmica é introduzida aos alunos dos anos finais do ensino fundamental da Escola SEB Dínatos, na Asa Sul. Uma vez por semana, todos deixam a sala de aula convencional, com as carteiras em fileira, para trabalhar em uma classe onde têm de sentar em conjunto com os colegas. Ali, são estimulados a debater entre si, idealizar e a formular projetos e apresentar à turma.

Competências


“Nós trabalhamos com o que chamamos de life worth school (escola que valha a pena para a vida, em tradução livre). Ou seja, não queremos educar o aluno apenas para que eles façam provas, mas para que ele desenvolva competências que sirvam para toda a sua vida. A ideia é fazê-lo mais protagonista. Por isso, o professor deixa de ser o detentor do conhecimento e passa a ser um articulador do processo de aprendizagem”, diz o diretor geral do colégio, Daniel Rodrigues.

Para Julia Almeida, 12, essa bagagem vai ajudá-la daqui a uma década, quando ela espera estar em uma universidade ou trabalhando. “A cada aula, nós ouvimos os colegas e entendemos que todos são pessoas diferentes e com opiniões distintas. Quando sairmos da escola, também será assim. Por isso, acho que o compartilhamento de ideias é bom para que todos possamos evoluir juntos”, opina a estudante do 7º ano do ensino fundamental.

Colega de Julia, Lia Marques, 12, classifica a maneira de aprendizado como uma aula para a vida. “No futuro, qualquer que seja a profissão que escolhermos, teremos de tomar decisões ao lado de outras pessoas, e não sozinhos”, comenta.  A desenvoltura em sala é essencial para quebrar as barreiras da timidez e aumentar a confiança dos alunos. Para Gabriel Fagundes, 13, esse é o fator que mais deve ser trabalhado pelos jovens. “No futuro, estaremos nos comunicando o tempo inteiro. Quanto mais cedo aprendemos a nos socializar, melhor. Isso vai ser importante para criarmos mais intimidade com os outros e aproximarmos os vínculos de trabalho”, afirma.

O futuro do trabalho


Publicado no início deste ano, o estudo Projetando 2030: uma visão dividida do futuro, encomendado pela Dell Technologies à associação americana Instituto Para o Futuro, coletou a opinião de 3,8 mil líderes de negócios de médias e grandes corporações em 17 países, entre eles, o Brasil.  O levantamento apontou :

85% dos trabalhos que existirão em 2030 serão novos-

3 em cada 4  entrevistados acreditam que a maioria das funções de liderança será preenchida por nativos digitais

38% dos líderes estão lutando para mudar a cultura da força de trabalho

84%  das pessoas que participaram da pesquisa esperam que todos os seus funcionários sejam especialistas digitais

22% dos respondentes se perguntam se a força de trabalho está equipada com as habilidades necessárias para ter sucesso

50% dos ouvintes não imaginam como serão os próximos 10 a 15 anos, no respectivo setor

56% dos entrevistados disseram que as escolas devem ensinar crianças e adolescentes como aprender, e não o que aprender, a fim de desenvolver habilidades como raciocínio lógico e capacidade de autonomia desde o ensino básico Fonte: Dell Technologies