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Correio Braziliense

De olho no que o seu filho come

Cuidar da alimentação saudável das crianças e adolescentes é papel da comunidade escolar e da família


postado em 28/09/2019 06:12 / atualizado em 02/10/2019 16:51

Os irmãos Sophia e Bernardo almoçam na escola: refeição balanceada(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Os irmãos Sophia e Bernardo almoçam na escola: refeição balanceada (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Manter uma alimentação saudável no lanche escolar é uma tarefa desafiadora. Na pressa, os pais, muitas vezes, acabam orientando que os alunos comprem os lanches no colégio mesmo. Mas a tentação é grande em algumas cantinas — balas, biscoitos, salgados, refrigerantes. Mas também não adianta levar a merenda de casa se os pais não ficarem atentos à qualidade dos alimentos.
 
Os produtos ultraprocessados aumentam o risco de obesidade, diabetes e hipertensão. E como é de se esperar, a saúde — ou a falta dela — de uma pessoa adulta tem muito a ver com a infância. Estudos recentes alertam que 80% dos jovens obesos tornam-se adultos também obesos.

O nutricionista Victor Hugo Silvestre, especialista pela Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), aponta: “É preocupante. Não podemos romantizar a gordura corporal, o sobrepeso e esses demais problemas. A prevenção é muito mais efetiva do que ações remediativas.”

Por esse motivo, pensar a  alimentação saudável na infância é forma de prevenção e de cuidar da saúde. Como explica Kátia Matunaga, coordenadora pedagógica de Educação Infantil da Escola Viva, em São Paulo: “A infância é um tempo em que se produzem marcos alimentares, é um período definidor dos costumes que a criança e o adolescente levarão à frente.” Quem estuda também passa boa parte do dia no colégio, que é palco de contato com outras pessoas e de socialização. Assim, faz todo o sentido que a educação alimentar e nutricional aconteça no ambiente escolar.

“A alimentação não diz respeito, somente, ao valor nutricional ou àquilo que está no prato. É interessante que as escolas tratem como experiência e contemplem o ato de se alimentar e a questão afetiva”, afirma Kátia. 

Pegar na terra, participar da colheita e preparar a própria comidinha. Essa é a dinâmica proposta pelo Colégio Moraes Rêgo para os alunos do jardim 1 até o 5º ano do ensino fundamental. Os estudantes têm a chance de entender e participar do ciclo do alimento: da horta à cozinha. O objetivo da iniciativa é promover a introdução alimentar, a experimentação e o senso de participação. As crianças viram as responsáveis por aquilo que consomem.

Na escola, a professora Isabela Bittencourt cuida do momento da horta. Além de ensinar as premissas básicas da prática ambiental — da importância de respeitar as plantinhas, prover água e boa luminosidade a elas — ela também estimula a consciência de que é ali, na terra, que os alimentos são gerados e que existe uma variedade deles.

O projeto ocorre quinzenalmente. Após a colheita, os alunos lavam os alimentos, temperam e são estimulados a experimentar. “O retorno das crianças é incrível. Uma ou duas ainda resistem a provar, mas, de forma geral, todas participam com vontade. E muitos pais ficam surpresos com o filho que não comia salada, mas que passou a comer porque teve esse contato na escola”, pondera Isabella.

A professora de gastronomia infantil do Moraes Rêgo Alessandra Brant. explica que as crianças desenvolvem capacidades muito diferentes daquelas de dentro de sala de aula, mas que são complementares. Mais dinâmico, esse modelo de ensino consegue fazê-las relacionar conhecimentos de ciências e de biologia com o que fazem na horta, na cozinha e na mesa.

Os alunos também ganham técnica de culinária. “Ensinamos que eles podem realizar a gastronomia simples em casa. Mostramos também como usar equipamentos com segurança, ensinando a cortar frutinhas sem se machucar, por exemplo. Assim, criam mais autonomia na cozinha”, esclarece Alessandra.

Atenção dos pais

 
Elvira Araújo, 40, auditora fiscal, é superpreocupada com o que os filhos comem, mas sem neuras. Ela já fica mais tranquila sabendo que eles recebem uma orientação adequada na escola. Bernardo Araújo, 6, e Sophia Araújo, 3, almoçam todos os dias no colégio. Na refeição, a escola procura variar o tipo de proteína e sempre serve salada, verduras e legumes. Os alunos são supervisionados durante esse momento. “As acompanhantes checam o que as crianças comeram e o que deixaram no prato e conseguem me dar um feedback da alimentação delas”, conta Elvira.

Outro ponto interessante é que a dieta oferecida é pensada por uma nutricionista. Para Elvira, isso faz toda diferença. “As crianças passam por fases. Às vezes, não querem provar alguma comida. Depois, já querem comer. Acho que uma profissional consegue entender as necessidades e balancear”, ela acredita.

O lanche da manhã vem de casa. Elvira conta que a lancheira da prole leva um ou dois tipos de fruta e biscoito integral ou bolo caseiro, o mais natural possível. Para beber, suco de caixinha é raridade. A merenda dos meninos tem água e suco da fruta mesmo. E a mãe tenta adaptar ao gosto de cada um. Sophia, por exemplo, adora castanhas. Então, Elvira costuma oferecer esse snack como opção para comer na escola.

No colégio, todas as semanas, os alunos levam uma fruta para compartilhar com os colegas e fazem preparos diferentes - brincam com os cortes do alimento e o tipo de apresentação. A prática rende mudança no que a criança consome com a família e mais participação no cardápio em casa. Bernardo é prova disso. Ele não gosta muito de comer folhas, mas todas que experimentou foi porque teve contato na horta e na cozinha do colégio. Sophia começou a pedir para os pais que fizessem mandioca cozida — isso porque ela tinha experimentado na escola.

 Apesar dessas medidas, Elvira entende que o papel da educação alimentar parte, principalmente, dos pais. “A escola é parceira, mas não deve estar à frente de tudo.”