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Correio Braziliense

À espera de um novo tempo

No ano que vem, escolas de todo o país começam a implementação gradual da Base Nacional Comum Curricular, que levará em conta a individualidade do aluno


postado em 28/09/2019 06:13 / atualizado em 27/09/2019 12:18

Centro Educacional São Francisco, em São Sebastião, protagoniza o projeto Selfie Pedagógico, com esportes, acrobacias e rodas de diálogo(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Centro Educacional São Francisco, em São Sebastião, protagoniza o projeto Selfie Pedagógico, com esportes, acrobacias e rodas de diálogo (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
O início do ano letivo em 2020 promete ser revolucionário. Após o desafio de consolidar a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), é hora de fazer valer as mudanças. Nesse contexto, é fundamental o papel de liderança dos gestores, de engajamento e formação dos professores, assim como de acompanhamento e colaboração dos pais. O planejamento formal do Ministério da Educação (MEC) prevê que em 2021 a implementação da base nos ensinos infantil e médio esteja concluída. Para o Enem, essas mudanças são esperadas entre 2023 e 2024.

“Estamos em uma das maiores fases de transição da educação brasileira. Sabemos o que não queremos mais, mas o novo ainda não está concluído”, explica Juliana Diniz, diretora regional de escolas do grupo Somos Educação. Para ela, os esforços até a implementação completa das novas diretrizes devem estar centrados na formação dos professores e na elaboração e aplicação gradual dos currículos escolares. Essa implementação, no entanto, não é uma tarefa simples. As escolas precisam compreender a mudança de concepção de educação que prioriza a formação do aluno de forma integral, ou seja, de mente e coração. Isso exige responsabilidade e atuação da comunidade acadêmica para garantir que as escolhas reflitam a necessidade educativa contemporânea.

Ensino integral

Prevista pelo artigo 210 da Constituição Federal de 1988, a BNCC dispõe, na forma de lei, sobre a necessidade de promover ensino integral ao estudante, de maneira a alcançar as dimensões cognitivas, sociais, emocionais, mentais, físicas e culturais do ser humano. É por meio do desenvolvimento de competências gerais, trabalhadas ao longo dos anos de educação básica, que a base passa a ter o compromisso para além da formação conteudista.

Para auxiliar na interpretação do documento, com explicações dos termos que mais geram incerteza, a Somos Educação criou uma plataforma gratuita que conta, ainda, com espaço para elaboração de currículos. As diretrizes que remodelam a forma de ensino precisam ser entendidas não só pelos educadores, mas pelos pais. “É superimportante que as famílias estejam engajadas nesse processo de compreensão. Tanto para que percebam a intencionalidade das atividades que priorizam o desenvolvimento do indivíduo na sua integralidade, quanto para desenvolver uma capacidade crítica e analítica em relação às escolas dos filhos”, diz Juliana. 

Portanto, para ela, estar por dentro do novo modelo ajuda no momento da escolha da escola do filho. “As escolas que incorporam essa nova educação e demonstram outros indicadores para além das aprovações no vestibular já têm um diferencial. Destaco a necessidade de valorização das competências socioemocionais e de projetos que garantam a autonomia dos alunos.”

Ferramenta de apoio

A plataforma BNCC na Prática é um serviço que permite montar matrizes curriculares e planejamentos alinhados à diretriz, que foi homologada em dezembro de 2017. Parte da iniciativa, o Glossário Digital BNCC é uma novidade que veio para explicar os termos que mais geram incerteza nos educadores nessa reta final da implementação. O objetivo do material é servir como ferramenta de apoio à formação dos educadores brasileiros, além de instrumento de pais, alunos e sociedade para melhor conhecimento da base. Site https://www.bnccpratica.com.br

Protagonismo


Na mesma direção da necessidade de colocar o estudante como centro da aprendizagem, um projeto do Centro Educacional São Francisco, em São Sebastião, já é aplicado há quatro anos de forma a estimular a participação ativa de toda a comunidade escolar e dar mais autonomia ao aluno.

O Selfie Pedagógico oferece a possibilidade de escolher e propor atividades diversas de cunho educativo, como esportes, acrobacias, danças, práticas de laboratório, rodas de diálogo, culinária, teatro, cinema e aulas de reforço. A cada bimestre, são apresentadas aproximadamente 25 propostas, com 12 encontros cada.

Com o intuito de complementar o aprendizado teórico aprendido em sala de aula, a estudante do 3º ano Sa mara Cristina Marinho, 17 anos, escolheu a atividade de experimentos de química e biologia neste bimestre. “Estar aqui é uma escolha. Por isso os alunos participam mais e, consequentemente, aprendem mais. Só acrescenta esse olhar fora da caixinha”, conta. 

A aluna do 3º ano Jeimilly dos Santos, 18, encontrou na prática de circo uma nova forma de olhar para si mesma. “Foi uma coisa nova para mim. Aprendo a cada dia a explorar meu corpo, canalizar meus sentimentos, me conhecer melhor, a me desafiar e evoluir”. Por ser uma atividade que requer parceria, Jeimilly conta que passou a confiar mais no próximo. “Meu relacionamento com as outras pessoas melhorou muito e isso refletiu para além do ambiente escolar. Todo mundo tinha que ter oportunidades como essa”, ressalta.

Fazer com que a criança e o adolescente se conectem e encontrem aptidão nas atividades são estímulos também para o educador. “Nos sentimos motivados para planejar, propor. É desafiador, precisamos estar sempre nos atualizando e trazendo novas propostas de forma integral”, afirma o professor de educação física e mentor da aula de circo do colégio, Eduardo Marucci. “Em uma aula, é possível trabalhar disciplina, cooperação, força, condicionamento físico, arte e o lúdico. Aqui o aluno não perde ponto, ganha aplausos e sorriso”. Para a supervisora pedagógica do CED São Francisco, Mariana Lima, ainda existem lacunas no remodelamento da educação básica, em especial no ensino médio, que precisam ser discutidas com mais profundidade. “Quando se exige a garantia do direito à aprendizagem, tendo como critério de avaliação os modelos padrões, há um medo de que a pressão por resultados interfira na autonomia de cada escola. Precisamos  de instrumentos de trabalho e de formação dos professores, que precisam ser cada vez mais multidisciplinares”, opina.

Outra incerteza está no campo dos itinerários formativos, a parte flexível do currículo que engloba 1,2 mil horas (40% do ensino médio) e que deve permitir aos estudantes aprofundar os conhecimentos nas áreas de preferência. “A falta de precisão pode contribuir para tirar o dever do estado com a qualidade do ensino e responsabilizar a instituição. Para que isso não ocorra, são necessários monitoramento e assistência eficientes”, completa Mariana. 

De acordo com o novo ensino médio, a carga horária será distribuída entre itinerários formativos e a Formação Geral Básica (FGB) com 1,8 mil horas, que será comum aos estudantes e engloba as quatro áreas do conhecimento — linguagens e suas tecnologias; matemática e suas tecnologias; ciências da natureza e suas tecnologias; ciências humanas e sociais aplicadas.