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Correio Braziliense

O novo tempo da Geração Z

Educação empreendedora prepara alunos para encarar desafios desde cedo. Em sala de aula, elaboram projetos, reconhecem erros, aprendem com eles e buscam soluções


postado em 28/09/2019 06:08

No segundo horário, Eduardo, Marina, Laila, João Pedro e Tiago, do 9º ano: engajados com as propostas desde o 6º ano(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
No segundo horário, Eduardo, Marina, Laila, João Pedro e Tiago, do 9º ano: engajados com as propostas desde o 6º ano (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Aqueles nascidos entre 1995 e 2010, conhecidos como Geração Z, não chegaram a ver o mundo sem internet. De forma geral, essa geração é conhecida por ser questionadora, voltada para a ação e para lá de habituada com computadores, chats e todas as possibilidades das telas touch. Atentas a isso, escolas aproveitam o perfil dessa geração e incentivam o comportamento empreendedor nos alunos.

O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) destaca que o ensino deve começar cedo. Para ajudar as crianças a desenvolverem competências empreendedoras, os colégios devem propor atividades lúdicas que envolvam soluções criativas. A proposta é fugir dos conteúdos mais pragmáticos.

A prática fomenta o aprendizado sobre comunicação, finanças, gestão de pessoas e marketing. E, mais que isso, quem aprende ganha coragem para planejar, executar e aprimorar os próprios projetos.

A coordenadora pedagógica do ensino fundamental 2, do 6º ao 9º ano, do Colégio Marista, Bernadete Carvalho, defende o “jeito novo de aprender” adequado às novas possibilidades dessa geração. “A ideia é que o aluno seja o protagonista do próprio processo de aprendizagem. É questão de trabalhar o autoconhecimento, assim, ele terá expectativa de felicidade, ideia de família, de estudo e do que ele quer para o futuro”, explica.

Para ela, o ideal é que o ensino tenha orientação interdisciplinar. Assim, estimular o empreendedorismo é papel de todos os professores. No colégio, o modelo de educação empreendedora é estruturado em três pilares: noções de liderança, habilidades socioemocionais e conhecimento de ferramentas de trabalho e de estudo.

Projeto de vida


Os alunos do Marista têm contato com as premissas do empreendedorismo desde o 6º ano do ensino fundamental. O processo ocorre pouco a pouco. Nos anos iniciais, o Conexão XXI, nome dado à iniciativa, leva os estudantes a desenvolverem pensamento crítico, a pesquisarem, aprenderem sobre robótica e sobre educação financeira. Na última etapa do ensino fundamental, é chegada a hora de pensar no que podem criar e executar.

Laila Ollaik, 14, Marina Fukuda, 15, Eduardo Hirle, 15, João Pedro Pariz, 14 e Tiago Silveira, 14, são alunos do 9º ano e já provam da cultura do “Faça você mesmo”. Eles têm a importante função de administrar os negócios das turmas em que estão. “Cuidamos para que todas as partes da empresa estejam funcionando. Nós elaboramos o projeto, as outras equipes seguem aquela lógica e, então, vamos supervisionando e vendo como gerar melhorias”, pondera Laila.

O professor César Lorenzetti orienta o 9° ano no Conexão XXI. Ele explica que a dinâmica ocorre da seguinte forma: cada turma monta uma empresa e cada empresa tem grupos, que funcionam como departamentos. As equipes se dividem nas funções de marketing, financeiro, recursos humanos, administrativo e operacional.

“Eles elaboram todo um plano de negócios. Estudam o custo do projeto, estimam o retorno que trará, cuidam do fluxo de caixa”, diz César. Ao final do ano, os empreendedores mirins mostram o projeto completo.

João Pedro e Tiago são da mesma sala. A turma deles vem trabalhando, ao longo do semestre, em um aplicativo de tarefas para os alunos — mas a ideia sai do comum. Em vez de fazerem como obrigação os exercícios passados pelos professores, os alunos que acessarem a plataforma e fizerem as atividades extras podem ganhar recompensas pelo trabalho. Vira incentivo. “Ainda estamos pensando que tipo de recompensa será. Créditos na cantina, por exemplo”, eles contam.

Ciente da necessidade dos alunos de terem suporte psicológico, a turma de Marina e Eduardo teve a ideia de levar psicólogos para a escola. Eles explicam que o aluno precisa lidar rotineiramente com frustrações no ambiente escolar, o que faz parte, mas é preciso cuidar da saúde da mente. Por isso, a turma entende que o acompanhamento de um profissional seria fundamental nessa jornada.

Laila conta que a turma dela tem se articulado para desenvolver um site em que os alunos possam fazer perguntas, anonimamente, sobre o conteúdo explicado em sala ou tarefas, e uma curadoria de alunos deve tirar as dúvidas pela plataforma mesmo, na hora. O objetivo é agilizar o entendimento e a troca de ideias durante o estudo quando o aluno percebe que algo não está claro.

E a vivência no projeto extrapola a sala de aula. Os estudantes entendem como projeto de vida. “Nós aprendemos coisas que podem não estar no nosso currículo, mas que são maiores que isso. Que é essa capacidade de se comercializar, de entender o mercado. Em uma entrevista de emprego, não tem prova, você precisa falar sobre si mesmo”, acredita João Pedro.

Errar também faz parte do processo. César afirma que questiona as turmas, mas sem apresentar a eles uma solução imediata. Dessa forma, os mais novos aprendem a tomar decisões e a lidar com as consequências — inclusive o que vier de negativo. “Essa é outra característica dessa geração. Por serem muito rápidos, quando erram, eles já percebem e buscam alternativas”, pondera.

É sobre tomar riscos


No colégio Sigma, também já existem ações que promovem o empreendedorismo na vida dos alunos. Lá, os estudantes podem participar do Sigma Múndi, que é um projeto de extensão voltado para simulações de debates nos moldes da Organização das Nações Unidas, a ONU. O Sigma Múndi é realizado há 18 anos. O professor Paulo Macedo orienta os alunos participantes e explica que, de início, não existia uma vertente, no projeto, voltada para o empreendedorismo. “Foram alguns ex-alunos que propuseram. Seria um modelo mais voltado para aqueles com afinidade com marketing, administração, publicidade. Então, criamos uma comissão com essa ideia.”

O objetivo é que os estudantes exponham ideias e estudem a possibilidade de levá-las à frente. É preciso pensar rápido e dar tudo de si. “E essa geração surpreende nesse aspecto. Eles são proativos, basta uma pesquisa na internet e eles já veem que é possível, sim, empreender”, ele acredita.

Prova de que empreender também é lidar com pressão, quem participa do CEO’s do Sigma Múndi - que é o comitê voltado para empreendedorismo — pode ser até demitido se não apresentar um desempenho à altura.

Pode parecer superexigente, mas o propósito da demissão é fazer com que os alunos melhorem as capacidades. Uma vez demitidos, eles iniciam uma série de treinamentos e têm a chance de voltar a competir pelo prêmio dos CEO’s. “Isso mostra que o aluno pode se reerguer e se dedicar de vez”, avalia Paulo.

Resultados


A estudante do 3º ano do ensino médio do Sigma, Bruna Jin Ya, 17, participou do Sigma Múndi quando estava no 1º ano e, agora, no 3º, quando ganhou o prêmio dos CEO’s como a melhor colocada. “Da primeira vez que participei, eu não fui tão bem. Neste ano, já deu para perceber minha evolução. Consegui me organizar, negociar e me comunicar melhor”, ela avalia.

Ela garante que a experiência foi de muito aprendizado. Bruna acredita que saber um pouco sobre o tema já permite que ela entre com vantagem no mercado de trabalho. “O feedback que eu recebi dos orientadores me ajudou nisso. Eles me estimulavam a melhorar e a fazer diferente, a apresentar meu produto melhor e fui aprendendo”, revela.

E ela colhe frutos disso. No mês passado, Bruna iniciou um negócio on-line de venda de canetas e produtinhos de papelaria. E ela afirma que a experiência no projeto influenciou muito a decisão. O interesse é tanto que ela pretende cursar administração ou ciências contábeis na universidade. “Os meus pais são comerciantes, então sempre tive eles como exemplo. Mas eles sempre me deixaram muito à vontade, confiam muito no meu estudo e não me pressionam para que eu escolha esse caminho, faço por mim mesma”, ela afirma.