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Correio Braziliense

Pelo fim do preconceito

A escola inclusiva deve ser lugar de tolerância e aceitação. Alunos, professores e toda comunidade cada vez mais se empenham na luta por um novo olhar para o ser humano e suas diferenças


postado em 28/09/2019 06:15 / atualizado em 27/09/2019 15:53

Ângela Calil, orientadora pedagógica: formação livre de amarras (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Ângela Calil, orientadora pedagógica: formação livre de amarras (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Pedro Arthur Viana não gosta de ficar de fora. E nem precisa. Dentro e fora de sala de aula, o menino de 9 anos usa a criatividade e o apoio dos amigos, professores e familiares para estar sempre integrado. Quando bebê, ele teve paralisia infantil, o que afetou a parte motora. A deficiência, assim como a diversidade de gostos, crenças, gênero, cores e culturas, para ele, não precisa ser uma barreira social e educacional. “Dá para fazer tudo junto, mesmo sendo diferente.”

Conviver com as diferenças e saber respeitá-las são pontos centrais para traçar caminhos que visam à inclusão, à democracia e ao empoderamento do indivíduo e da sociedade, diretrizes que estão previstas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e devem ser desenvolvidas dentro do contexto escolar para a formação integral do ser humano. No Colégio Claretiano - Centro Educacional Stella Maris, em Taguatinga, Pedro se desenvolve dentro de uma filosofia agregadora e de valorização das diversidades.

“Eu me sinto parte da escola e posso participar do meu jeito. É claro que eu preciso de ajuda dos meus amigos, assim como eles precisam da minha. Então é uma colaboração”, garante Pedro. Por estar em uma cadeira de rodas, pegar uma borracha no chão acaba sendo trabalhoso. Mas ele tem bons amigos. É a Lívia Lôpo, 8, quem geralmente se encarrega de pegar. “Eu também levo a mochila quando ele precisa e ele sempre me ajuda quando eu tenho dificuldade nas matérias. O Pedro é muito inteligente”, elogia a menina, colega de sala e aluna do 3º ano do ensino fundamental.

Assim como Lívia, a irmã gêmea dela, Luísa, também é amiga de Pedro. Mesmo com todas as semelhanças, o menino não tem dificuldade em distingui-las. “Tem gente que por fora é mais parecido um com o outro, como é o caso da Lívia e da Luísa. Mas cada um é único e diferente e isso é bom. Se todo mundo se respeitar e colaborar, é melhor ainda”, ensina. Em momentos de conflito, Pedro tenta “apaziguar”, como ele mesmo conta. “Mas prefiro chamar a orientadora para não pegar mal para mim”, revela o garoto.

A autoestima e determinação de Pedro são o resultado de um trabalho conjunto entre a família e a escola, garante o pai, Erasmo Viana, 38. “Queremos que ele seja o mais independente possível, dentro das limitações dele. Queria uma escola que ele entrasse, se adaptasse e pudesse desenvolver isso. Além de fazerem todas as adaptações necessárias, o que mais conta são os valores. O sucesso das nossas crianças depende da formação que vai além do conteúdo”, opina.

Pedaço da sociedade


Todas as pessoas, com deficiência ou não, têm direito à escolarização. Acolher todos os tipos de aluno e proporcionar aprendizagem em consonância com a individualidade de cada um é a filosofia de uma escola inclusiva. “Buscamos uma formação livre de preconceitos e que valorize as diferenças. Conhecemos o aluno na sua individualidade, as potencialidades e limitações, e assim adequamos a proposta dentro da realidade do aluno para que ele possa estar integrado a todas as atividades”, explica a orientadora educacional e pedagógica do Claretiano, Ângela Calil.

Desde a educação infantil no colégio, o estudante do 1º ano do ensino médio Alex Sandro Pêra, 16, encontra na escola um espaço saudável para o desenvolvimento. “Não vivemos em uma sociedade perfeita, e o preconceito é algo que acontece. A escola é um pedaço dessa sociedade, mas um ambiente mais controlado para que consigamos nos fortalecer para lidar com o mundo lá fora. Quando a gente aprende a ser mais tolerante e acolhedor, tudo ao nosso redor geralmente também fica.”, diz.

Alex tem uma deficiência motora, o que nunca o impediu de participar de todas as atividades. Foi inclusive o gosto pelo futebol um dos motivos que acabaram aproximando Alex e o amigo, Gabriel Linneker, 16. “Eu sou novato e tive uma adaptação difícil. O Alex foi o primeiro a vir falar comigo, puxou papo e hoje a gente é brother. É importante saber abraçar as pessoas que chegam, pensar no próximo. Assim construímos uma sociedade melhor e mais justa”, reflete Gabriel.

Entre os pensamentos que dividem, Alex e Gabriel garantem: é fundamental deixar o preconceito de lado e se permitir relacionar com o diferente. Compartilhar é aprender. 
 
 

Fique por dentro


O combate ao bullying é coisa séria. Pensando nisso, a Promotoria de Justiça de Defesa da Educação (Proeduc) do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios recomendou à Secretaria de Educação (Seedf) que adote medidas para coibir a prática nas escolas públicas e privadas. 

» As instituições públicas deverão elaborar relatórios bimestrais com as ocorrências de bullying. Caberá à secretaria capacitar os professores e equipe pedagógica para combater e prevenir qualquer tipo de violência nas escolas, além de criar mecanismos que promovam a inclusão das diversidades, o envolvimento da família e da comunidade para solucionar conflitos no ambiente educacional.

» O Governo do Distrito Federal (GDF) promove o Educação para a Paz, uma macropolítica que traçou uma revisão no regimento escolar em maio de 2019 com foco no combate a todos os tipos de violência nas escolas, incluindo o bullying. Para efetivar o trabalho, foram nomeados 412 orientadores escolares, possibilitando que todas as instituições 
públicas contem com o profissional.
 
» Atualmente, os casos de bullying são apurados e acompanhados pelas unidades escolares e os levantamentos não são repassados para a secretaria. “Na construção de políticas públicas de qualquer natureza, são necessários dados estatísticos. A formalização dos casos em relatórios indica mais um elemento de fortalecimento ao enfrentamento a esta problemática”, diz o relatório preparado pela Seedf, em resposta à recomendação. 

» Nas escolas privadas, a secretaria e o Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe) têm o compromisso de divulgar recomendações para coibir a intimidação sistemática e promover a cultura da paz. No Distrito Federal, o tema é disciplinado pela Lei Distrital nº 4.837/12. Nacionalmente, as Leis Federais nº 13.185/2015 e nº 13.663/2018 tratam do assunto.

Com informações do MPDFT

A estratégia

Trajetórias de Sucesso Escolar envolvem quatro etapas:

Diagnóstico
Identificação dos dados sobre atraso escolar; da legislação; dos recursos da escola; dos equipamentos, ações e recursos da comunidade

Planejamento 
Elaboração de plano de ação e de proposta pedagógica participativa, flexível e adaptada aos estudantes em distorção idade-série

Desenvolvimento 
Execução, acompanhamento e avaliação da proposta

Adesão
Engajamento das escolas, dos parceiros, dos estudantes, das famílias e da comunidade escolar. A metodologia estimula e orienta as redes e as escolas para a construção de currículos específicos, com caráter de terminalidade e que envolvam a participação de professores(as) e estudantes na sua elaboração. Acesse: http://trajetoriaescolar.org.br

Fonte: Unicef