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Correio Braziliense

Quando a "recuperação" transforma o meio ambiente

Com a enxada e os instrumentos de capinagem nas mãos, estudantes iniciam um projeto de restauração do sistema agroflorestal


postado em 28/09/2019 06:21

Projeto do Colégio Marista, para alunos do ensino médio, recupera área degradada: a teoria em prática (foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press )
Projeto do Colégio Marista, para alunos do ensino médio, recupera área degradada: a teoria em prática (foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press )


Recuperação é uma das palavras mais temidas para qualquer aluno quando inserida no contexto escolar. Não nesse caso. Com a enxada e os instrumentos de capinagem nas mãos, estudantes iniciam um projeto de restauração do sistema agroflorestal em uma área degradada do cerrado brasiliense. A proposta trouxe mais do que a nova cara de um termo, mas a forma de encarar o processo de aprendizagem. São eles que semeiam o próprio conhecimento.

A atividade — realizada por alunos do ensino médio do Colégio Marista de Brasília, na Chácara Manacá, área rural às margens da BR-060 — é uma oportunidade de o jovem colocar em prática o que aprende na teoria e que trabalha a autonomia e desenvolvimento de diferentes habilidades. “Há uma intencionalidade em cada etapa do projeto, que tem como pano de fundo o protagonismo do jovem. É um aprendizado empírico, em que ele vivencia o conceito na prática”, afirma Matheus Kaiser, coordenador pedagógico do ensino médio do Marista.

O primeiro passo é o trabalho de recuperação do solo, que exigiu bastante pesquisa da estudante do 3º ano, Tais Galante, 17 anos. “O professor disponibiliza o material teórico para nós pesquisarmos, planejarmos e executarmos. Estudamos qual tipo de planta vai ajudar na fixação do nitrogênio e quais outras espécies mais oportunas a serem colocadas ao lado, a fim de favorecer o crescimento equilibrado do ecossistema”, detalha.

O interesse de Tais aumentou ao conseguir visualizar a aplicabilidade de conceitos. “É um conhecimento aplicado de cuidado com o solo, perigos da erosão, mudanças climáticas, botânica, matéria orgânica. Dá muito mais vontade de saber e o conteúdo fica verdadeiramente fixado.”

Para o projeto agroflorestal, foram preparados 25 canteiros para o plantio de mais de 150 espécies nativas do bioma cerrado, incluindo os ipês. Além disso, o local também será uma área de cultivo de diversos alimentos, como mamão, graviola, jaca, café, pitanga, acerola, banana, amora, mandioca, abacate, manga, milho, alface, cebolinha, salsa, beterraba, espinafre, abóbora, pimenta-de-cheiro, tomate, rabanete e alecrim. As produções serão destinadas às instituições carentes assistidas pelo Marista.

“Um pedaço de mim” 

Antes da doação de alimentos, a missão é fazer um resgate das espécies nativas, atraindo a fauna para a região. “Ao visualizar uma imagem de satélite, notamos que o perímetro da chácara é o mais verdinho, os lotes ao redor estão todos descampados. Atraindo aves para o local, a ideia é que elas disseminem essas sementes para a redondeza, ajuda na restauração do ecossistema”, diz o professor de biologia e mediador da atividade, Yuri Vieira. O projeto tem dez anos de planejamento, mas a ideia é que seja perene e que comece a fazer parte do currículo de outras etapas do ensino.

Durante o processo, o aluno é protagonista de todo o processo de aprendizagem que trabalha diferentes áreas do conhecimento, como botânica, biologia, geografia, química, além de desenvolver habilidades de trabalho em grupo, autonomia, responsabilidade social e ambiental. “O projeto é nosso. Os acertos, como também os erros, são aprendizagem. O professor auxilia com os materiais necessários, mas a escolha é dos alunos e isso dá muito mais responsabilidade e, consequentemente, vontade de fazer parte. O que estamos fazendo aqui tem um pedaço de mim e isso é muito legal de saber”, afirma Eduarda Drewin, 16, estudante do 1º ano.

O resultado é gradativo, mas a consolidação integral do projeto está prevista  para daqui a 10 anos. Não poder acompanhar todas as etapas, para Vitor Rodrigues, de 16 anos, aluno do 1º ano, não é um problema. “Eu sou parte dessa construção e ela é parte de mim. Faz muito bem estar em contato com a nossa essência, com a natureza, saindo do estresse da rotina, sem deixar o conhecimento de lado”.

Para Taís, Eduarda e Vitor, estar em contato com a natureza e poder fazer algo com muito mais valor do que uma nota é como receber a semente que desperta a curiosidade, o interesse, a empatia, o sentimento de pertencimento e cidadania. Valores que vão além do conteúdo e que precisam acompanhá-los a cada novo terreno explorado para ajudá-los a crescer e a frutificar. (BL)