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Correio Braziliense

Muito além da sala de aula

Desenvolver projetos de tecnologia ou mexer na terra para restaurar sistema agroflorestal em área degradada do cerrado fazem parte da nova formação dos alunos do Distrito Federal


postado em 28/09/2019 06:20

Bruno Sousa, do 7º ano do ensino fundamental: ''Quando mexo com as mãos, trabalho também a cabeça''(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Bruno Sousa, do 7º ano do ensino fundamental: ''Quando mexo com as mãos, trabalho também a cabeça'' (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Experimentar, fazer e aprender. O mundo mudou e a forma de aprendizagem, também. Romper as arquiteturas curriculares tradicionais e adequá-las às ferramentas contemporâneas e tecnológicas sem deixar de trabalhar as habilidades socioemocionais é a missão central da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). A abordagem mão na massa se destaca entre as metodologias que visam a uma formação interdisciplinar, colaborativa, contextualizada no mundo e que permita o protagonismo do indivíduo.

 

A pedagogia deve fazer parte das perspectivas do aluno em idealizar, planejar, construir, testar e compartilhar. É o que explica o doutor em educação pela Universidade de São Paulo (USP) e consultor pedagógico do Senac Flávio Rodrigues Campos. “São seis grandes elementos que sustentam o planejamento de práticas pedagógicas maker: fabricação digital, programação, engenharia, robótica, pesquisa e colaboração. Eles se encontram ancorados pelas áreas dos saber. Por último, as ferramentas e conceitos se relacionam com a abordagem, dando suporte teórico-prático à organização pedagógica”, explica.

 

Em escolas onde é valorizada a linguagem maker, o aprendiz deixa de ser coadjuvante e passa a ser mais ativo dentro e fora de sala de aula. “Ao trabalhar abordagens relacionada à realidade daquela comunidade em que a criança e o adolescente estão inseridos, os projetos ajudam a desenvolver o sentimento de pertencimento, engajamento e amadurecimento”, completa Flávio.

 

No Centro Educacional Sigma de Águas Claras, alunos dos ensinos fundamental e médio têm a experiência de aprender fazendo em um ambiente de oficina chamado Sigmaker. As aulas, ofertadas no contraturno, possibilitaram o entendimento da aplicabilidade de diversos conceitos da física, matemática, biologia e geografia, por exemplo, o que acabou dando outro sentido à escola, afirma o professor de física e mediador das aulas, Daniel Peters. “O crescimento deles é sensacional. Um aluno que não sabia pegar uma chave de fenda agora fazendo todo o projeto, desde a pesquisa, parte de eletrônica até programação. Ele se torna um pesquisador, capaz de se autocriticar, reconhecer problemas e propor soluções.”

Alice, 11 anos, e letícia, 12, acreditam que o futuro já começou na sala de robótica (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Alice, 11 anos, e letícia, 12, acreditam que o futuro já começou na sala de robótica (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

 

Tudo isso, na visão de Daniel, contribui para o crescimento integral da criança e do jovem. “Focar no processo é acompanhar a evolução, desde a aplicabilidade do conteúdo, ao saber lidar com pontos de vista diferentes, trabalhar em equipe, entender que ele é parte essencial do projeto. São habilidades essenciais para o mercado de trabalho e para a atuação em sociedade”, diz.

 

Bruno Souza, estudante do 7º ano do ensino fundamental, concorda. “Quando mexo com as mãos, trabalho também a cabeça. Matérias da escola, eu consigo entender melhor, sem contar que me divirto mais, fico interessado e pesquiso.” Durante as experiências, ele já desenvolveu circuitos e programações. “Uso o Arduíno, que é a placa que tem como programar. Um projeto bem legal que eu fiz foi o Pacman hidráulico. Usei seringas com água para fazer o jogo. Foi superinteressante e, como eu quero ser programador, já aprendo desde cedo”, conta Bruno.

 

Entre as habilidades desenvolvidas no Sigmaker estão o trabalho em equipe, capacidade de resolver conflitos, visão ambiental e social, além da emancipação. Para isso, é necessário colocar a mão na massa, inclusive aprendendo a usar ferramentas básicas, como chave de fenda, martelos, soldas.

 

Alice, 11 anos, e letícia, 12, acreditam que o futuro já começou na sala de robótica (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Alice, 11 anos, e letícia, 12, acreditam que o futuro já começou na sala de robótica (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

 

Alice Vilela, estudante do 7º ano, de 11 anos, diz que já ouviu que o manuseio desses materiais não seria propício para meninas. Quanto a essa visão, ela deixa um recado: “As pessoas deveriam se atualizar. Cada vez mais mulheres trabalham em áreas da tecnologia, fazendo novas coisas. Para isso, mexer nas ferramentas é muito importante e nós, mulheres, sabemos disso”, diz a estudante do ensino fundamental.

 

Mexer com os aparelhos de corte de madeira também não é nenhum mistério para Letícia Bonifácio, 12. “Hoje eu mexo tranquilamente. Acho que estar em contato com todos esses equipamentos é importante para meu futuro. Até porque eu quero ser engenheira”, conta. Além das ferramentas, os alunos também têm acesso a recursos tecnológicos, como impressoras 3D, Arduino (plataforma de prototipagem eletrônica) e sistemas para programação.

 

“O contato permite que, na volta da rotina do conhecimento base, tudo fique mais visual, concreto. Os jovens ganham em assimilação das disciplinas, maturidade, visão tecnológica”, explica a professora de robótica maker Rosineide Cardoso, que encara o papel de professora como um desafio diário. “Temos que nos atualizar constantemente para nosso papel de mediador desse processo de aprendizagem, permitindo que eles sejam sujeitos ativos, interessados e completos.”