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Correio Braziliense

Aprendendo a gastar conscientemente

Quem disse que dinheiro não é assunto de criança? Deve ser discutido nas escolas, com atividades lúdicas e inserido em qualquer disciplina


postado em 28/09/2019 06:26 / atualizado em 27/09/2019 15:30

Sophia e Guilherme, ambos com 9 anos: engajaram-se na proposta de educação financeira da escola (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press )
Sophia e Guilherme, ambos com 9 anos: engajaram-se na proposta de educação financeira da escola (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press )


Poupar, gastar com controle, investir. O brasileiro parece encontrar dificuldade nessa lógica. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) aponta que, no país, 64,1% das famílias estão endividadas. E a equação é a seguinte: a falta de reserva financeira aumenta o risco de endividamento. O aprendizado financeiro é essencial. Então, para formar crianças e, no futuro, adultos bem esclarecidos, por que não ensinar a gerir o dinheiro ainda na infância?

A boa notícia - mesmo que a medida seja desafiadora — é que escolas públicas e privadas terão até 2020 para incorporar o tema da educação financeira à proposta pedagógica, como prevê a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O início precoce do aprendizado sobre finanças aparece ao lado de outros assuntos — também obrigatórios até o ano que vem — como educação alimentar, ambiental e educação para o trânsito.

Segundo o educador financeiro Jônatas Bueno, ensinar a lidar com dinheiro é mais que explicar sobre juros, multiplicar e dividir. É, principalmente, preparar o comportamento frente a questões financeiras. Os alunos devem aprender o que é o dinheiro, o que é salário, o que são despesas, dívidas e a lidar com hábitos consumistas.

“Educadas sobre o tema, as crianças criam noção de que o dinheiro pode levar à realização de sonhos e objetivos. Abandonam a ideia de que os pais são caixas eletrônicos e eternos provedores”, acrescenta Jônatas.

Na prática 

A tática é que não precisa ser uma disciplina separada das outras, tampouco estar integrada, somente, ao conteúdo teórico passado em sala. A própria BNCC propõe que o tema seja trabalhado de forma interdisciplinar.

Sophia de Sousa, 9, e Guilherme Pereira, 9, são alunos engajados na proposta de educação financeira infantil da escola. Estudantes do Colégio Objetivo, os dois provam que estão por dentro do tema. Eles têm aula de educação financeira toda semana. Fazem atividades com cédulas de mentirinha e são incentivados a poupar para abastecer o cofrinho e, posteriormente, gastar com consciência.

Durante as férias, por exemplo, os alunos economizaram para conseguir vales na cantina. Assim, eles poderiam trocar por bebidas e comidas. A prática inteligente serviu para eles entenderem o sentido de recompensa e rendeu até um lanche coletivo com todos os estudantes no período de volta às aulas.

Mais recentemente, Sophia e Guilherme praticaram a capacidade de fazer o melhor uso do dinheiro com um outro método, que simula uma feirinha. Na escola, o projeto voltado às turmas de 4º ano do ensino fundamental propõe que os alunos se reúnam em banquinhas, cada uma com um produto - um livro que leram, brinquedos, frutas e verduras - definam valores para os produtos e, então, simulem transações.

Karoline Cardeal, gerente de projetos da escola, afirma que o objetivo desse esquema mais dinâmico é promover a conscientização financeira e introduzir noções de planejamento, mas de forma a manter as crianças interessadas. Sophia e Guilherme aprovam o método e são unânimes em dizer que é mais agradável que ficar em sala fazendo tarefas. “É divertido. Aprendemos brincando, e brincar é o que mais gostamos de fazer”, conta Guilherme.

“Eu sempre quis brincar de vender com as minhas amigas. Isso fez com que eu ficasse mais interessada, até em casa mesmo. Meu pai chega para mim com dinheiro, só que são cédulas de verdade, e me pede para calcular valores e explicar sobre o sistema monetário”, diz Sophia.

Para integrar de vez 

“A hiperinflação certamente deixou um legado psicológico para o brasileiro. Há pouco mais de 20 anos, o cenário econômico conspirava para o brasileiro gastar rápido. Então, fomos muito prejudicados culturalmente”, constata Jônatas. Mas é importante mostrar aos pequenos que eles podem, sim, ter expectativa e construir sonhos.

É essencial estimular, nas crianças e adolescentes, uma visão positiva dos recursos geridos. Construir uma perspectiva que abomina o dinheiro pode ter efeitos negativos e traumáticos. “Em vez de bloquear o caminho para alcançar algo, simplesmente falar que não têm dinheiro, os pais deveriam falar ‘vamos poupar para conseguir comprar isso’ e explicar para o filho o que pode ser feito para alcançar o objeto de desejo e do que devem abrir mão”, acrescenta o educador financeiro.