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Correio Braziliense

A professora que chegou a Brasília antes mesmo de a cidade ser inaugurada

Pioneira da educação, Nelzira Moreira relembra momentos da carreira


postado em 21/04/2019 06:00 / atualizado em 22/04/2019 15:43

A professora relembra momentos marcantes da trajetória(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
A professora relembra momentos marcantes da trajetória (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

A história de Nelzira Moreira em Brasília começou com a chegada dela em um dos caminhões FeNeMê — como eram conhecidos os veículos da Fábrica Nacional de Motores (FNM). A pioneira de 79 anos mudou-se, em 1957, para uma cidade que praticamente não existia. A futura capital federal ainda estava tomada pela terra, por tratores e pelas casas de madeira onde moravam famílias de retirantes e de funcionários públicos recém-transferidos.

O primeiro marido dela, Donato, mudou-se para o Planalto Central para trabalhar no escritório da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap). À época, o casal se mudou para a Vila Operária, atual Candangolândia. As visitas à Cidade Livre — hoje, Núcleo Bandeirante, onde Nelzira mora — eram apenas para compras. A região, em seguida, tornou-se um dos locais de trabalho da professora.

Mesmo com a formação normalista no município de Silvânia (GO), onde nasceu, Nelzira estudou contabilidade onde atualmente fica o Fórum do Núcleo Bandeirante. As condições do espaço não deixaram a memória da pioneira até hoje: “Quando chovia, o córrego enchia e tudo ficava alagado. Para fugirmos da chuva, o diretor nos levava para outro local e dava continuidade às aulas”, conta.

Graças aos conhecimentos acumulados, Nelzira passou a dar aula em dois colégios: um deles na antiga invasão do IAPI, o outro, na Vila Operária. Quem frequentava algumas das escolas do início de Brasília estudava em montinhos de tijolos e, por vezes, dividia espaço com bichos, como sapos e cobras. Naquele tempo, Nelzira lecionou para alunos de 9 a 40 anos: crianças e adolescentes que vieram com os pais para a cidade; funcionários de órgãos públicos que continuavam os estudos; e adultos que ainda não sabiam ler ou escrever.
 
 
Tanques com areia molhada e seca eram alguns dos materiais dispostos na sala de aula para ilustrar as diferenças entre rios, oceanos e ilhas, por exemplo. “Era bem diferente de hoje, claro. Eu levava cartolinas e, nas aulas, tirava os conteúdos da cabeça dos estudantes. Não apenas derramava informações”, relata Nelzira. “Eles absorviam tudo o que você passava ou cobrava. Tinham prazer e entusiasmo em ler e escrever. Ficavam felizes ao saber as frases, separar sílabas, fazer contas, falar a tabuada de cor e salteado. Principalmente os adultos”, relembra.

Caminhos

O reconhecimento do trabalho de Nelzira veio ao longo de muito tempo. “Um dia desses, um senhor me ligou. Disse que fui professora da filha dele que, hoje, é juíza. Só não peguei o contato deles”, lamenta a professora. “Mas eu fazia o melhor possível para que as pessoas fossem felizes”, completa.

(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
A carreira na educação se interrompeu pouco tempo depois do nascimento das filhas — Irandiaia, 58, e Ádanis, 56. À época, a mais velha acompanhava a mãe em alguns dias de trabalho. “Ficávamos sentadas no cantinho, vendo ela dar aula. A caminhada até a escola não era muito longa. Lembro-me do chão de terra, da cerca, das plantinhas. O colégio era como uma sala grande. Tinha cadeirinhas, carteiras. Era tudo muito simples”, conta a servidora pública Irandiaia Glaicy Bruno.

Anos depois, Nelzira dedicou-se à área da saúde. Formou-se em enfermagem pela Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), mas aproveitou para cursar pedagogia. Passou por hospitais públicos e postos de saúde do Distrito Federal e aposentou-se como auxiliar de enfermagem pela Secretaria de Saúde. Mesmo assim, o envolvimento com o ensino não desapareceu. 

Depois da aposentadoria, comprou um terreno para montar um maternal. No entanto, com a morte do segundo marido, desistiu do sonho e vendeu o lote. “Ela teria se dado bem se tivesse seguido na carreira, pois gosta de cuidar dos outros. Estava sempre junto e sempre foi exigente e rígida, mas organizada e responsável. Herdei isso tudo dela”, confessa Irandiaia.

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