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Correio Braziliense

Projeto Mulheres Inspiradoras transforma a educação em escolas públicas

Projeto reconhecido no exterior e aplicado na rede pública do DF ensina valores humanistas para os alunos


postado em 21/04/2019 06:00 / atualizado em 22/04/2019 15:17

"O olhar de uma professora tem uma potência muito grande", Gina Vieira Ponte, educadora (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Seu Moisés e dona Djanira apresentaram aos filhos um lugar sagrado: a escola. Ensinaram a cada um dos seis que esse espaço era digno de reverência. Quem sabia ler e escrever, na visão do vendedor ambulante, não precisava de mais nada. Era por essa habilidade, da qual a pobreza o privou, que ele admirava ainda mais a companheira, que trabalhava como empregada doméstica para ajudar no sustento da família.

Gina Vieira Ponte, 47 anos, a segunda filha do casal, foi quem mais levou a sério o ensinamento, acredita a caçula, Jannece Ponte, 40, hoje também professora, por influência da irmã. “Sempre víamos a Gina estudando, ela era incansável”, conta. Para cursar a Escola Normal — de formação de docentes para a educação infantil e o primeiro ciclo do ensino fundamental — Gina andava cerca de 10km, distância de casa, em Ceilândia Norte, até a instituição de ensino, na parte sul da região administrativa.

Assim que aprendeu a ler, ela alfabetizou os irmãos mais novos. “Foi marcante para eles, que já entraram na escola sabendo ler e escrever”, relata a primogênita, Gisele Vieira Ponte Sirqueira, 49, que também é professora. Gina incorporou os superpoderes atribuídos à educação — os quais dona Djanira reforçava a cada dia, com incentivos e lições firmes. A escola era, por isso, um lugar mágico para a ceilandense.

“Mas muito cedo eu vou percebendo o preconceito, o racismo, porque é importante dizer que, na escola pública de 50 anos atrás, em Brasília, estudava todo mundo. Não existia escola de pobre e escola de rico”, observa Gina. “Diante de um erro que eu cometia, a reação da professora era uma e, de uma menina em situação privilegiada, era outra. No meu caso, sempre tinha grito, sempre tinha castigo”, relembra.

Os 38 anos na rede pública — como estudante e, depois, professora — fizeram-na despertar para várias dessas mazelas. Em 2003, após anos de trabalho apenas com crianças, começou a dar aulas a adolescentes e percebeu que a escola, no formato tradicional, não os mobilizava. Veio então a necessidade de reforçar ainda mais a própria formação, com curso de nível superior e especializações. Buscou, no conhecimento, ferramentas para lidar com uma educação ainda muito atrelada à lógica da subalternidade e da obediência. Repensou processos e privilegiou a avaliação formativa dos alunos.

“O projeto Mulheres Inspiradoras materializa esses 38 anos de imersão na escola pública”, destaca. Reconhecida internacional e nacionalmente, a iniciativa nasceu em 2014, em uma das unidades de ensino fundamental de Ceilândia, a sua quebrada, como Gina define. O trabalho alcança 41 escolas do Distrito Federal, onde virou política pública no ano passado, além de colégios municipais de Campo Grande.

A professora nunca esteve sozinha nessa empreitada. Todas as mulheres representadas — negras, brancas, periféricas — estão ali. Assim como parceiros, professores e gestores que contribuíram para compartilhar esse conhecimento, resultado da busca pessoal pelo próprio lugar no mundo. “O projeto é fruto de uma vida inteira, que começa lá com minha mãe preta, que era contadora de histórias, com a minha bisavó, que era filha de um homem alforriado. Isso não começa cinco anos atrás.”

Identidade

“O cabelo crespo de uma mulher negra é a coroa de uma rainha que já nasce pronta.” Os versos de Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz, de Cristiane Sobral, mudaram a vida de Gina. “Foi a primeira vez que eu li alguma coisa sobre mulheres negras em que eu não fosse subalternizada”, diz. A dor do racismo deu lugar a uma bela metáfora, que a definia e a libertava para escancarar a convicção na própria raça. “É como se ali eu sentisse vontade de gritar minha negritude.”

Foi o Mulheres Inspiradoras que proporcionou esse encontro com uma autora também negra. Sensação semelhante ela só tinha vivenciado aos 8 anos, quando a professora Creusa Pereira dos Santos elogiou, pela primeira vez, as tranças que a mãe, Djanira, havia penteado em seus cabelos. “O olhar de uma professora tem uma potência muito grande”, atesta. Foi também a docente que a alfabetizou. “Ela me ajudou a ressignificar a percepção que eu tinha de mim mesma, me deu condições de me sentir capaz. Hoje, eu desconfio que eu já sabia ler, mas eu não acreditava”, relata.

Agora, inspirada pelo sorriso do filho, Luís Guilherme, 8, e com o apoio incondicional do marido, Edson Santos, 51, busca honrar a memória dos pais e celebra a escola pública como espaço para fortalecimento da democracia. “Eu tenho muito clareza de que, para eu estar aqui, meu pai e minha mãe se sacrificaram. Muitas mulheres negras se sacrificaram. Então, eu estou a serviço dessas pessoas”, afirma. Outro objetivo central é contribuir para gerar representação diferente do que é ser professor. “Esse lugar que eu ocupo é muito importante. Eu desejo deixar como legado que outros profissionais da educação não percam isso de vista.”
41 
Número de escolas no DF que adotam o projeto Mulheres Inspiradoras

 

Garantia de direitos

"Eu me considero um produto de Brasília. A minha história também é a da cidade", Débora Diniz, pesquisadora e antropóloga (foto: Arquivo Pessoal)
A pesquisadora e antropóloga Débora Diniz é um dos nomes de referência no mundo quando o assunto é a luta pelos direitos das mulheres. Há 20 anos, ela criou a Anis — Instituto de Bioética, Diretos Humanos e Gênero, organização voltada para a pesquisa e assessoramento de estudos relacionados aos direitos fundamentais das mulheres. Em 2014, trouxe à tona o debate sobre a descriminalização do aborto de fetos anencéfalos. Dois anos depois, foi citada na lista dos 100 pensadores globais pela revista Foreign Policy e, no ano seguinte, ganhou o Prêmio Jabuti pelo livro Zika: Do sertão nordestino à ameaça global.

Momentos esses que ela vivenciou em Brasília, cidade que foi forçada a deixar no ano passado após sofrer ameaças de morte devido à militância relacionada às questões de gênero. “Tivemos que deixar o país. Não estava nos nossos planos de maneira alguma. Foi integralmente uma saída de todas as nossas coisas. Foi uma coisa muito violenta. Mas eu não podia colocar em dúvida a integridade das outras pessoas”, afirma.

Dos 49 anos, 35 foram em Brasília. Natural de Maceió, Débora viveu no Rio de Janeiro e em Recife antes de chegar à capital federal, aos 14 anos. Cresceu na Asa Norte e estudou na Asa Sul, em uma adolescência vivenciada na W3, ao som da Legião Urbana, nas sessões do Cine Karim (112/113 Sul) e em busca de livros em uma importante livraria localizada no Conic. “As lembranças da minha adolescência em Brasília são as mesmas dessa geração, com uma vida que existia intensa nas quadras.”

Débora Diniz costuma dizer que sua trajetória se confunde com a da cidade e, principalmente, com a da Universidade de Brasília (UnB). Toda a vida acadêmica da pesquisadora foi galgada lá. Na universidade, gradou-se em ciências sociais, fez mestrado e doutorado em antropologia, viajou para o Japão com uma bolsa de estudos e depois se tornou professora da Faculdade de Direito. “Eu me considero um produto de Brasília. A minha história também é a da cidade”, afirma. “É a vida com a universidade que me deu uma visão muito particular do que é a vida em Brasília”, completa.

Apesar de ter crescido no Plano Piloto, a alagoana aponta que a experiência na UnB foi o que lhe permitiu vivenciar as diferentes características da vida candanga. “Consegui conhecer a vida de mulheres na cadeia, na Colmeia. Esse mundo também voltou para perto de mim. Foi a UnB que me permitiu ter egressas do sistema socioeducativo trabalhando comigo. Até onde eu sei, foi a primeira vez que o CNPq teve estudantes socioeducativas trabalhando com pesquisadores. E isso é a cara da UnB, um espaço que reconhece os sistemas de segregação e busca formas de reparar, de dar igualdade. Isso tudo faz parte da minha trajetória acadêmica em Brasília.”

Futuro

O distanciamento forçado da capital federal não faz com que Débora Diniz se afastasse da cidade. Pelo contrário, ela deseja um futuro muito melhor para o quadradinho, que se aproxime da missão quando a cidade foi criada. “Que seja uma verdadeira cidade, com um projeto original mais igualitário, o que nós vivemos cada vez mais é uma divisão geográfica social. Que Brasília seja capaz de viver o seu projeto com maior liberdade, com maior encontro entre as comunidades, não apenas no DF, mas no país inteiro. E que ela seja exemplo de uma cidade que foi planejada e desenhada para uma boa vida.”


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