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Correio Braziliense

Primeira brasileira a vencer a corrida São Silvestre é de Brasília

Crítica, consciente e campeã. Carmem de Oliveira fez história e é a inspiração para gerações de esportistas mulheres da cidade


postado em 21/04/2019 06:00 / atualizado em 20/04/2019 14:45

Carmem de Oliveira chega a Brasília, logo depois da vitória na São Silvestre de 1995: a primeira brasileira a conquistar a tradicional prova inspirou jovens a investirem no atletismo (foto: Eraldo Peres/CB/D.A Press)
Carmem de Oliveira chega a Brasília, logo depois da vitória na São Silvestre de 1995: a primeira brasileira a conquistar a tradicional prova inspirou jovens a investirem no atletismo (foto: Eraldo Peres/CB/D.A Press)

 

O Brasil tem a fama de não reconhecer seus heróis e heroínas enquanto eles ainda estão vivos. A capital do país, infelizmente, segue bem a regra, e muitos vencedores que levaram o nome da cidade para o mundo inteiro não recebem as devidas considerações. Por exemplo: sabe quem foi a primeira brasileira a ganhar a tradicional corrida de São Silvestre, em 1995? É a mesma pessoa que manteve, por muito tempo, o recorde sul-americano da maratona — ainda detém os melhores tempos femininos nas provas de rua dos 10km e dos 15km, mesmo tendo se aposentado em 1999. Ela participou dos Jogos Olímpicos de Barcelona (1992) e de Atlanta (1996) e também inspirou uma geração de atletas no Distrito Federal e no Brasil. Carmem Sousa de Oliveira Furtado, ou simplesmente Carmem de Oliveira, não se perturba com a falta de reconhecimento. “É uma das consequências de ser uma mulher e uma atleta com opinião”, aponta, crítica e contestadora.


Carmem sempre foi assim. Mesmo quando começou no atletismo, em 1983, descoberta pelo técnico João Sena. Aos 15 anos, ela já era mãe, estudava à noite e corria atrás dos objetivos. O treinador a viu depois de um quinto lugar em uma corrida de rua em Sobradinho, local onde morava — aliás, mora até hoje. “O Sena vendia um sonho de vida para os atletas. E eu pensava: ‘Vou deixar essa pobreza extrema com o atletismo’”, lembra. Com a experiência de hoje, ela sabe como foram difíceis aqueles primeiros momentos, na pista do estádio Augustinho Lima e nas ladeiras de Sobradinho. “A minha carreira foi fruto do acaso, sem qualquer projeto político. Cresci por causa de um treinador abnegado”, explica, certa de que o trabalho de João Sena a inspirou muito a partir dali.

Ela teve outras inspirações. Joaquim Cruz, ceilandense campeão olímpico em Los Angeles (1984), ainda é um deles. No esporte, porém, a ex-corredora nunca pôde se espelhar muito em outras mulheres. “Tinha mais mídia, mais espaço para os homens. Sempre foi assim. É algo histórico, cultural”, argumenta. Nunca teve um ego muito grande e, por isso mesmo, também nunca notou se ela mesma serviu de inspiração para outras pessoas. “Eu não consigo me ver como inspiração”, diz, sem falsa modéstia. “Lembro de uma atleta que me citou, uma vez, porque dei um conselho financeiro para quem estava iniciando. Em uma entrevista, eu falei: ‘Viva esse momento ao máximo, adquira bens, porque isso vai passar rápido’. Ela disse que prestou atenção nisso e esse conselho a ajudou muito”.

“Topetuda”

 

A atleta de Sobradinho critica o fato de os esportistas ficarem muito ligados aos feitos em campo e nas pistas e não participar da vida política, seja na sua federação, seja no país. E, no caso feminino, a situação era e ainda é pior. “Era sempre alguém decidindo por nós, mulheres”, analisa. Topetuda, como ela mesmo se define, exigiu direitos e participação. Depois de se aposentar das pistas, viu que tinha responsabilidade de tomar conta da modalidade e, por isso, assumiu como presidente da Federação de Atletismo do Distrito Federal em 2007. Brigou na Confederação Brasileira de Atletismo por mais espaço e uma melhor divisão de ganhos; questionou orçamentos e atitudes; exigiu mais participação e que a voz dos atletas fosse ouvida. 

Hoje, a ex-candidata a deputada distrital segue apaixonada pela cidade — mais especificamente, Sobradinho. Mesmo tendo a oportunidade de viver em outros lugares (chegou a treinar no exterior), escolheu seu “ninho” para morar. “Meu mundo é minha família, é meu lugar. Para onde mais eu iria?”, pergunta, de forma retórica. Em casa, ela sempre será reconhecida.

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