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Correio Braziliense

O avanço e pioneirismo das mulheres na área da saúde

Conheça a história de mulheres que venceram obstáculos e se destacaram na profissão


postado em 21/04/2019 06:00 / atualizado em 18/04/2019 19:37

Lúcia Willadino Braga, presidente da Rede Sarah, é referência internacional em recuperação de lesões cerebrais(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Lúcia Willadino Braga, presidente da Rede Sarah, é referência internacional em recuperação de lesões cerebrais (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

Lúcia Willadino Braga não consegue nem quer parar. Combina o conhecimento acumulado, atualidades, pesquisas científicas e a curiosidade para desenvolver metodologias. Volta e meia, depara-se com o que até então era desconhecido e trilha novos caminhos revolucionários. O vício pela constante movimentação fez dela psicóloga, neurocientista, pesquisadora, gestora, diretora, professora e musicista. Porém, mais simples que defini-la pelos títulos que acumula é falar do conceito que a guia: a conexão.

Unindo os múltiplos talentos, a curiosidade e a valorização do olhar humanizado, Lucinha — como gosta de ser chamada — foi peça fundamental para tornar o centro de reabilitação Sarah, inaugurado por Juscelino Kubitschek em 1960, referência mundial nas áreas de medicina e gestão pública. Atualmente, a Rede Sarah conta com nove unidades em todo o Brasil, atende 1,7 milhão de pacientes e tem no comando a mulher que entrou no hospital antes mesmo de se graduar e nunca mais saiu.
 

Em 1976, a então estudante da Universidade de Brasília (UnB) aproveitou o modelo inovador de Darcy Ribeiro — que possibilita se matricular em matérias de outros cursos — e aliou psicologia, música e neurologia para elaborar um projeto que propunha a reabilitação de crianças com lesões cerebrais a partir da composição de músicas e a manipulação dos parâmetros sonoros.

Pela pesquisa, ganhou uma bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), mas foi com o apoio do doutor Aloysio Campos da Paz que a menina-prodígio conseguiu espaço para desenvolvê-la. Lúcia cresceu no hospital e o hospital cresceu com ela.

“Não existe um hospital como o Sarah, capaz de misturar alta tecnologia, ciência, pesquisa ao humanismo, compaixão. É único o jeito que os profissionais trabalham com os pacientes e as famílias de todas as classes, pensando no contexto médico, social e pessoal”, garante o consultor norte-americano Marc Forman, que há quase quatro décadas vem ao Brasil para acompanhar a performance do hospital.

Nas mais de 50 visitas que fez, ele se aproximou da gestora, com quem desenvolveu inúmeras pesquisas. “Lucinha tem o dom de conectar tudo e todos, sempre, perfeitamente, incansavelmente. Tirando a minha esposa, diria que ela é a mulher mais fantástica que já conheci”, brinca.

A neurocientista é atualmente uma das maiores referências internacionais na área de recuperação de lesões cerebrais. Passou por 76 países e o currículo soma mais de 130 palestras realizadas. Dentre os destaques, estão os estudos sobre plasticidade neuronal e a importância da interação da família e do amor nos tratamentos. No fim da década de 1990, recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade de Reims, em Champagne, na França, sendo a primeira mulher brasileira a conquistar tal honraria.

Cidade escolhida
Nessa extensa e rica trajetória das conexões, decerto a que mereça maior destaque seja aquela que deu sequência a todos as outras: o vínculo com Brasília. Ainda criança, Lucinha, mudou-se para o Planalto Central a tempo de assistir à cerimônia de inauguração.

Desenvolveu-se junto à capital, nos mesmos parâmetros monumentais. Talvez, por isso, a pesquisadora considere impossível se desassociar da cidade do coração. “Eu tenho muito amor por Brasília, a ponto de nenhuma proposta de emprego com aqueles salários de jogador de futebol ser motivo para me fazer mudar de ideia. Minha vida é aqui: meu trabalho, meus amigos e, é claro, minha família”, justifica a presidente do Sarah.

A Universidade de Brasília, inclusive, tem papel importante para esta ligação com a cidade. Na instituição conheceu o marido, Pedro Braga Netto, 65, com quem é casada há 44 anos e teve três filhos. Juntos, estabeleceram desde cedo um olhar próprio do que guiaria o casal. “Criamos nossas próprias regras e a cumplicidade sempre foi algo absolutamente natural. Por isso, eu tenho uma relação maravilhosa com a pessoa que eu amo”, diz ele. Essa é, segundo Pedro, a razão pela qual ambos conseguiram se realizar no âmbito profissional e familiar. “O trabalho não é algo desassociado do restante da vida dela. É peça integrante. Quando se tem prazer, o tempo é ampliado. Além disso, ela consegue organizar tudo de uma maneira incrível.”

Lúcia parece conseguir multiplicar as horas do dia. Como se não bastasse a gestão de nove hospitais, palestras mundo afora e revisão de artigos para as mais renomadas revistas científicas, é agora professora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA). “Costumo dizer: se precisar de algo urgente, então peça para uma pessoa bem-ocupada, porque são elas que vão aceitando as tarefas”, brinca. Para ela, o importante é fazer tudo com amor, o sentimento que move, fortalece e é o elo entre todas as relações.


Encontro e superação no cerrado 

Se tem uma coisa que Martha Margaretta Karin Engel de Souza não gostava quando criança era de passar perto de uma agulha. Mas isso nem de longe foi motivo para que a primeira filha nascida no Brasil da família de imigrantes alemães buscasse seu espaço para além da Colônia Uvá, no interior do Goiás.
Martha ensinou enfermagem às primeiras equipes que chegaram a Brasília(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Martha ensinou enfermagem às primeiras equipes que chegaram a Brasília (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

Ela queria poder trilhar seus caminhos. Para isso, formou-se enfermeira e encontrou nas terras vermelhas que abrigariam a nova capital federal a chance de construir a própria história.

“Nessa época, as mulheres tinham três opções: ser professora, enfermeira ou ficar em casa cuidando de filho e marido. Como eu vivia em uma colônia de alemães e mal falava o português corretamente, muito menos daria conta de ensinar”, conta Martha, hoje com 84 anos.

Em 1958, quando trabalhava no Hospital da Cruz Vermelha, em São Paulo, recebeu uma visita que completaria o vazio que ainda buscava preencher. Era o presidente Juscelino Kubitschek falando à equipe médica sobre a revolução que acontecia no meio do cerrado. “A vontade que eu tive era sair dali com o presidente. Era uma oportunidade de melhorar de vida, ficar mais perto dos meus pais e, o mais importante: fazer história.”

Com a ajuda da irmã mais velha e também enfermeira, Úrsula Engel, foi escolhida para treinar atendentes para trabalhar no Hospital Distrital (atual Hospital de Base). As duas e uma terceira enfermeira de Belo Horizonte, Agda Stemler, pousaram em Brasília em outubro de 1959 e abraçaram a missão de ensinar o bê-á-bá da enfermagem. “A gente convocava as pessoas pelo alto-falante. As aulas teóricas eram no chão mesmo.”

Martha socorreu milhares de pioneiros acidentados e ajudou nos partos dos primeiros filhos de Brasília. Encabeçou as primeiras campanhas de vacinação e, durante o período, doenças como poliomielite e sarampo foram erradicadas.

Perseverança
Aqui também se casou com o pediatra Luiz Alves de Souza e teve seus três filhos: Luiz, Walter e Rodrigo. O médico até tentou levá-la para Piauí. Não durou três meses no Nordeste para que, mesmo grávida, ela decidisse voltar. “Brasília sempre foi o meu lugar”, lembra, sorrindo.

O marido é quem foi atrás dela e, ao longo da vida, teve que aprender a deixar o jeitão cabra macho para ser companheiro. “Vi todo esse processo do meu pai. Um homem que se recusava a fazer compras no supermercado, anos depois, lavando a louça satisfeito. Minha mãe tem essa habilidade. Ela constrói, melhora e agrega. Se hoje estamos aqui, é porque fez tudo isso com amor e garra”, conta o filho mais velho, Luiz Engel.

Aos 84 anos, com um simples ‘posso te ajudar?’, Martha dá conforto e cura à alma dos filhos, seis netos, incontáveis amigos e qualquer um que transite pelas ruas de Brasília.

Renascimento na capital 

Enquanto a mente pensa alto, a base firme mantém o equilíbrio necessário para que ela alce voo. E foi na cidade-avião que a médica oftalmologista Danielle Couto Jampaulo enxergou o lugar perfeito para tornar realidade o maior desejo profissional. Em setembro de 2016, nasceu a Viva Oftalmologia.

A oftalmologista Danielle Couto Jampaulo construiu clínica de referência (foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)
A oftalmologista Danielle Couto Jampaulo construiu clínica de referência (foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)
Desde criança, sabia que queria ser médica. “Dizia que precisava ajudar as pessoas doentes”, conta a mãe, Jane Couto. Nascida no Rio de Janeiro, aos 18 anos, ingressou em medicina na Universidade Federal de Juiz de Fora (MG) e voltou para a Cidade Maravilhosa em 2007, onde fez residência e especialização em oftalmologia.

Mas quem conquistou a carioca foi a revolucionária Brasília. Em 2010, chegou à capital para fazer uma subespecialização em retina e vítreo. O que era para ser uma experiência de apenas 365 dias, acabou se tornando um projeto para a vida inteira. “É uma cidade fantástica, que também traduz todos os conceitos que eu imaginei para minha clínica. A Viva é a cara de Brasília: moderna, planejada e prática”, afirma a médica.

Não só pela capital federal o coração de Danielle bateu mais forte. Aqui, ela conheceu e se casou com Mário Jampaulo, também oftalmologista e sócio da empresa. Sob a gestão de Danielle, a clínica foi eleita referência nacional, sul-americana e latino-americana. A médica também recebeu, por duas vezes, o título de empresária do ano.

“É uma mulher talentosa, generosa e muito humana. Uma líder nata”, resume a gerente administrativa, Gabriela Dutra.

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