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Correio Braziliense

Na curadoria e em ateliês, mulheres mantêm mercado de artes plásticas forte

Há um time de mulheres que nunca deixa a cena esfriar, independentemente das dificuldades


postado em 21/04/2019 06:00 / atualizado em 18/04/2019 20:03

Leda Watson foi criadora do primeiro Núcleo de Gravadores de Brasília(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Leda Watson foi criadora do primeiro Núcleo de Gravadores de Brasília (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

O cenário das artes plásticas em Brasília teve altos e baixos. Se hoje uma das grandes preocupações dos profissionais da área é com a pouca quantidade de espaços, houve um tempo em que havia muitas galerias e salas de exposição. Mas também um tempo em que os nomes dos artistas locais circulavam menos fora da capital. Nessas idas e vindas, há um time de mulheres que nunca deixa a cena esfriar, independentemente das dificuldades.

Mercado e divulgação

Onice Moraes trocou Boa Esperança, no sul de Minas Gerais, por Brasília em 1973. Veio por motivos profissionais, havia passado em um concurso na Caixa, e por lá trabalhou durante mais de duas décadas. Quando se aposentou, não teve dúvida: abriu uma galeria. A Referência Galeria de Arte virou reduto dos artistas de Brasília — Onice representa 18 nomes da capital — e de fora.

Inaugurada em 1995, a galeria ocupou cinco espaços diferentes e hoje funciona na 202 Norte. “A gente percebeu, eu e meu marido, que Brasília não tinha galerias, que havia uma carência nessa área. Não é que não tinha nenhuma, mas poucas. E nós queríamos implementar um trabalho cultural na cidade. A gente frequentava as galerias, tanto aqui quanto fora. Nos motivou também a amizade com os artistas daqui”, conta.

“À medida que o tempo passou e a galeria foi se estabelecendo, virou um mercado bom”, diz a galerista. “É instável, mas existe e funciona”.

Além de movimentar o mercado, Onice encara o trabalho com a galeria como formação de público e de artistas. O artista João Angelini acredita que a persistência de Onice é um dos fatores de reconhecimento da produção brasiliense. “A Referência Galeria de Arte é um dos espaços com maior contribuição para a formação de artistas, público e mercado da cidade”, destaca Angelini.
 
Onice Moraes: espaço para exposição de artistas(foto: Helio Montferre/Esp. CB/D.A Press)
Onice Moraes: espaço para exposição de artistas (foto: Helio Montferre/Esp. CB/D.A Press)
 

Experiência

No mercado há quase duas décadas, a galerista Karla Osório passou por três espaços antes de abrir a GaKO, galeria que hoje representa 21 artistas, sendo cinco de Brasília. No início dos anos 2000, Karla abriu o Espaço Cultural Contemporâneo (Ecco), que funcionou no Venâncio 2000 até 2005, quando passou a ocupar uma antiga loja de carros ao lado do Brasília Shopping. Exposições de praticamente todos os nomes mais importantes das artes plásticas brasileiras ocuparam o local até 2013, quando o Ecco passou a funcionar no Shopping Iguatemi.

Artistas como Miguel Rio Branco, Cildo Meireles, Anna Bella Geiger e Vik Muniz estiveram em mostras organizadas pela galerista, o que permitiu ao público brasiliense conhecer o trabalho de brasileiros que frequentam, até hoje, as grandes bienais e exposições do mundo inteiro. Karla foi, aos poucos, se tornando também uma galerista e passou a representar artistas da cidade e de fora.

Na última SPArte, realizada no início de abril, dois artistas representados pela GaKO foram escolhidos pelo curador Paulo Herkenhoff para integrar o acervo do Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR). “Karla Osório, que havia conduzido o importantíssimo ECCO por anos, com mostras memoráveis, passou a atuar como galeria comercial e tem feito um trabalho muito importante”, lembra Angelini.

Formação de artistas

Leda Watson até tentou sair de Brasília algumas vezes, mas não conseguiu. Nascida no Rio de Janeiro, em 1933, estudou gravura nos anos 1960, na capital fluminense, antes de se mudar para Paris com o então marido diplomata.

Por lá, produziu muito, conseguiu ser representada por uma galeria da cidade, fez exposições e recebeu encomendas, mas resolveu voltar para o Brasil com o marido e se instalou em Brasília. Uma separação traumática fez Leda cambalear, mas foi na arte que ela se agarrou e com a qual conseguiu sobreviver. “Tentei três vezes voltar para o Rio, mas sempre acontecia alguma coisa que me fazia ficar”, conta.

Primeiro no departamento de artes da Universidade de Brasília (UnB) e, mais tarde, na própria casa, no Lago Sul, a artista montou um ateliê de gravura que formou mais de 400 gravadores na cidade. “Rompi recorde de ensino de gravura”, brinca.

Em 1977, ela fundou o primeiro Núcleo de Gravadores de Brasília, depois de dar um curso de extensão concorrido na UnB. “Foi a primeira coisa que criei. Trabalhávamos com a Secretaria de Cultura, éramos muito organizados, muito sérios, e eles nos chamavam muito. Vários outros gravadores se incorporaram”, conta. Mais tarde, passou a dar aulas em casa graças a uma prensa alemã comprada em Paris.

Nos anos 1980, Leda foi convidada pelo então governador José Ornellas  para criar o Museu de Arte de Brasília (MAB), inaugurado em 1985. Pouco tempo depois, passou em concurso para ser professora da rede pública do DF e acabou vinculada a Brasília para sempre.

As aulas no ateliê, em casa, nunca cessaram, assim como a produção de gravuras. Leda é uma das gravadoras da cidade que mais produz. Aos 86 anos, trabalha em um lote de 11 gravuras e em um livro. 

400 
Número de gravadores na cidade formados por Leda Watson

Uma missão educadora

Marília Panitz: consolidação da cena cultural brasiliense(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Marília Panitz: consolidação da cena cultural brasiliense (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Também na área de curadoria e, sobretudo, de arte-educação, Marília Panitz é um nome citado pela maior parte dos artistas da cidade, de todas as gerações, quando se trata de dar projeção à produção da cidade. “Marília Panitz, além de uma teórica e curadora incrível, desempenhou um dos papéis mais importantes para a formação dos artistas e, portanto, das artes da cidade: é professora”, diz João Angelini, que hoje tem obras no Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR).

Gaúcha de São Leopoldo, Marília, 60, se considera uma brasiliense. Chegou à capital no início da década de 1970, aos 12 anos, porque o pai vinha transferido do Banco do Brasil de Porto Alegre. Menina, filha de sindicalista, começou a militar em movimentos estudantis e a ler sobre  ensino e educação, área pela qual acabou fascinada. “Naquela época, eu queria trabalhar com arte e educação”, conta.

Assim que se formou em artes na Universidade de Brasília (UnB), Marília começou a trabalhar com arte-educação, primeiro na escolinha de arte da própria universidade e, mais tarde, no Centro de Realização Criadora, o Cresça, fundado por Ailema Bianchetti e, durante muitos anos, uma referência no ensino da arte na cidade. Daí, foi natural o ingresso na rede pública como professora, experiência que levou Marília a trabalhar na formação dos professores. Ela deu aulas na Faculdade Dulcina, na Fundação Educacional e na UnB. Também esteve à frente do Museu Vivo da Memória Candanga entre 1990 e 1996 e foi uma das formuladoras do Prêmio Brasília de Artes Visuais, em 1997.

O primeiro projeto educativo, Marília formulou para uma exposição da coleção Roberto Marinho no Itamaraty, em 1993. Foi uma iniciativa pioneira, que depois geraria frutos. “Não existia algo semelhante, na época, que efetivamente possibilitava fazer esses projetos (de peso), então a gente ia meio que aprendendo sozinho. 

A prática da curadoria veio depois, com a exposição Gentil reversão, experiência na qual a troca de e-mails entre Marília e os artistas Ana Miguel, Gê Orthof, Elder Rocha, Chico Amaral e Ralph Gehre rendeu, em 2001, uma das primeiras exposições de artistas da cidade no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

No mesmo ano, Marília começou a trabalhar como curadora do Rumos Visuais, projeto do Itaú Cultural que mapeia a produção nacional. Assim, muitos artistas de Brasília ganharam o Brasil em exposições itinerantes programadas para apresentar a arte brasileira em várias cidades.

Hoje, Marília também é uma das curadoras do Pipa e, no ano passado, ganhou o prêmio Vera Brant de curadoria. “Meu trabalho sempre foi o de visitar ateliê e, por outro lado, dar aula. Então, comecei a trabalhar esses aspectos. Meu pressuposto era de que a arte é fato social”, explica.
 
 

Narrativa

Para Rogério Carvalho, um dos idealizadores do Prêmio Vera Brant, o papel de Cinara Barbosa (leia ao lado) e Marília no cenário brasiliense foi fundamental. “As duas são as grandes responsáveis pelo reforço ao processo artístico. Foi por meio das ações de acompanhamento crítico implementadas pelas duas que Brasília teve reforço significativo nos resultados. Os artistas desenvolvem mais facilmente uma narrativa. A poética é mais identificada e, consequentemente, as obras são mais potentes”, garante. “O olhar delicado e competente das duas, em destaque, e incluo, nesse caso, a Graça Ramos, faz com que alcancemos uma relação igualitária com o cenário artístico do resto do país.”

Ralph Gehre lembra que Marília tem sido incansável em exportar nomes de artistas da capital. “Para mim, ela é fundamental pelo trabalho que faz articulando a produção de Brasília nas outras praças, nas outras cidades. Ela atua no Brasil inteiro e é super-reconhecida. E isso é muito importante. São os curadores que transitam uma noção apurada sobre os artistas locais, então ela nos apresenta, nos representa e cava espaço”, repara.

Em busca de mercados

Cinara Barbosa, 47, nasceu no Ceará e cresceu no Rio, onde se formou em jornalismo, mas é Brasília que ela considera um divisor de águas na carreira dedicada à produção e pesquisa na área da cultura. Primeiro, Cinara passou a fazer parte da equipe do Elefante Centro Cultural, um dos espaços mais alternativos da cidade, com agenda aberta para exposições, residências, cursos e interações entre público e artistas. No ano passado, ela organizou o BSB Plano das Artes, uma semana durante a qual 20 artistas abriram seus ateliês à visitação do público. Este ano, ela repete a experiência com uma segunda edição para a qual foram convidados 18 espaços.

As atividades de Cinara renderam, este ano, o prêmio Vera Brant e a participação na equipe de curadores do Prêmio Pipa, um dos mais importantes em artes plásticas no país. Para ela, um dos maiores problemas da área em Brasília está relacionado aos espaços.

“Hoje, com certeza, minha maior preocupação é com os aparelhos artísticos”, diz. “É fundamental o apoio da Secretaria de Cultura, e é importante ter espaços para exposição. Temos um capital simbólico importante na cidade e, hoje, um dos meus grandes temores é não perder o que foi conquistado e continuar conquistando: o apoio, a liberdade e os espaços”.

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