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Correio Braziliense

Pioneiras nas forças de segurança contam como venceram o preconceito

Três mulheres narram suas trajetórias, até conquistarem lugares de destaque na PM, na Polícia Civil e no Corpo de Bombeiros


postado em 21/04/2019 06:00

Quando a comandante da corporação Sheyla Sampaio entrou na PM, as mulheres só podiam chegar ao posto de capitão(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Quando a comandante da corporação Sheyla Sampaio entrou na PM, as mulheres só podiam chegar ao posto de capitão (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Até 1998, o quadro de oficiais do sexo feminino era segregado na Polícia Militar do Distrito Federal. As mulheres só podiam integrar a Companhia de PM Feminina e chegavam, no máximo, ao posto de capitão. Pouco mais de duas décadas depois, a corporação é hoje comandada por uma policial militar. A coronel Sheyla Soares Sampaio é a primeira a chegar ao posto máximo e está à frente de uma tropa de 10,8 mil profissionais, dos quais apenas 9% são mulheres.

Durante a trajetória de 27 anos na PMDF, Sheyla passou pelos mais diversos setores da instituição. Trabalhou em áreas burocráticas, como logística e finanças, responsáveis por contratos e licitações. Atuou nos recursos humanos, no Departamento de Saúde e na Corregedoria. Na área operacional, passou por batalhões no Guará, em Planaltina, na Asa Sul, no Recanto das Emas, e no Núcleo Bandeirante, além do Batalhão Escolar. A experiência fez com que ela conhecesse como poucos a rotina e os procedimentos da corporação.Tanto que a vivência e o respeito conquistados fizeram com que o governador Ibaneis Rocha escolhesse a coronel para o comando da Polícia Militar.

A brasiliense de 47 anos, filha de mãe paraibana e pai cearense, nasceu e cresceu no Cruzeiro Novo. Após o divórcio dos pais, quando Sheyla tinha 4 anos, foi a mãe que se encarregou da criação dos cinco filhos. Ela estudou em escolas particulares, como o La Salle, e, em 1989, passou no vestibular de educação física da Universidade de Brasília (UnB). No terceiro ano de curso, começou a namorar um jovem que fazia o curso de formação de oficiais. Sheyla interessou-se pelo universo da PM e resolveu fazer o concurso para a corporação. Foi aprovada e começou a capacitação em 1992. Como a formação era em regime de internato no primeiro ano, teve de deixar a UnB. A dedicação teve retorno: ela foi a primeira colocada nos três anos do curso de formação.

Se hoje as mulheres representam em torno de 9% dos integrantes da corporação, nos primeiros anos da carreira da oficial, a discrepância entre os sexos era maior. Quando passou a assumir cargos de chefia, Sheyla teve de se impor diante dos colegas. “O grande desafio era me manter diante de uma tropa predominantemente masculina e demonstrar capacidade para quebrar esse paradigma. Mas, verdade seja dita, sempre fui muito bem recebida pelos lugares onde passei”, conta.

Sheyla, entretanto, acredita ter perdido algumas promoções durante a carreira por ser mulher. “Isso não fica escrito em lugar nenhum, é claro. Mas eu sempre trabalhei muito e, ainda assim, fui preterida algumas vezes”, relembra. Para virar coronel, foram cinco promoções até que o nome dela constasse da lista. “Não guardo mágoa da instituição, mas é triste ver que um bom profissional, às vezes, não é devidamente reconhecido. O sistema dá brechas para isso”, acrescenta.

Atleta

Mãe de dois filhos, de 12 e 20 anos, a coronel dedica os momentos de folga à família e a uma de suas paixões: o triatlo. Atleta, ela não consegue mais treinar para competições, como antigamente. Mas malha diariamente, durante cerca de duas horas, para manter o preparo físico — e, principalmente, espairecer a mente antes da rotina de trabalho.

Em uma cidade com autoridades e parentes de poderosos em todos os cantos, a comandante-geral da Polícia Militar revela que o desafio dos integrantes da corporação é agir “sem omissões e também sem abusos”. “A corporação vem evoluindo muito, do ponto de vista de infraestrutura, de tecnologia, de viaturas e de equipamentos. O que queremos é consolidar a nossa credibilidade junto à sociedade, para mostrar que a nossa missão é proteger”, ressalta a comandante. “A gente trabalha para levar paz e tranquilidade às pessoas. É uma profissão que causa muito impacto na sociedade”, acrescenta.

“O grande desafio era me manter diante de uma tropa predominantemente masculina e demonstrar capacidade para quebrar esse paradigma. Mas, verdade seja dita, sempre fui muito bem recebida pelos lugares onde passei”
Sheyla Soares Sampaio, comandante da PMDF


10.843 
Total de policiais militares no DF


1.067 
Número de policiais militares do sexo feminino



Total de coronéis do sexo feminino na PMDF

 
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)

A dama das investigações

A imagem do Mão Branca, um grupo de policiais que matava bandidos no Rio Grande do Norte, assustava Mabel de Faria na adolescência. À época, a família morava ao lado de um vizinho violento, que, com frequência, espancava a mulher. “Esse homem também era policial. Dá para imaginar a péssima visão que eu tinha da profissão, né?”. A menina que temia agentes do estado virou uma das mais respeitadas delegadas da Polícia Civil do Distrito Federal. Aos 54 anos e recém-aposentada, Mabel é referência para uma geração de investigadores, graças ao sucesso de suas apurações em crimes de repercussão, especialmente homicídios.

Mabel Alves de Faria Corrêa nasceu em Brasília e chegou à corporação como papiloscopista, em 1986. Ficou mais de 12 anos no cargo, terminou o curso de letras na Universidade de Brasília (UnB) e se formou em direito, sonhando com a ascensão na instituição. Pouco depois de ser aprovada em um concurso para oficial de Justiça, ela também passou na seleção de delegada, em 1999.

A primeira lotação foi a Coordenação de Repressão a Homicídios. Era a única mulher na unidade, sob o comando do experiente delegado Luiz Julião Ribeiro. “Na minha primeira inquisição, pedi para que o doutor Julião fizesse o trabalho para eu observar e aprender. Passava o dia lendo inquéritos, estudando, e as coisas foram acontecendo naturalmente”, detalha.

Em 2004, Mabel passou a atuar na Corregedoria da Polícia Civil do Distrito Federal. Investigou colegas criminosos e perigosos e prendeu um policial que a ameaçou durante um depoimento. Em 2008, ela voltou à área de homicídios e se consolidou como uma das principais investigadoras da corporação. Mabel ajudou a desvendar crimes polêmicos, como o do empresário Nenê Constantino, posteriormente condenado por mandar matar um líder comunitário. Investigou policiais militares e colegas, como Jorge Chaib, acusado de matar a mulher em 1999. O policial civil acabou absolvido pelo Tribunal do Júri.

O caso mais sensível da carreira foi o Crime da 113 Sul, em 2009. A morte do ex- ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) José Guilherme Villela; da mulher dele, a também advogada Maria Villela; e da funcionária da casa, Francisca Nascimento Silva, chocou Brasília. Mabel assumiu a apuração do triplo assassinato depois de trapalhadas e crimes cometidos durante o caso que desmoralizaram a corporação. Denunciada como mandante das mortes, Adriana Villela, filha do casal assassinado, ainda não foi julgada pelo Tribunal do Júri.

Um dos homicídios que marcaram a carreira da delegada não ganhou espaço nos jornais. Ela investigou a morte de uma jovem assassinada por um policial militar na região do Areal. “O PM fingiu que queria reatar o relacionamento, atraiu a vítima e atirou na cabeça dela. A jovem ficou agonizando por mais de 24 horas na chuva, até ser encontrada ainda com vida. Esse caso mexeu bastante comigo, especialmente quando a mãe da moça, uma pessoa muito simples, veio me agradecer pelo desfecho. O policial pegou 16 anos de cadeia”, conta.

Família

Além das reconhecidas técnicas investigatórias, Mabel atribui à sua postura profissional o respeito conquistado ao longo da carreira. “Sempre fui muito respeitada por ser também muito respeitosa. Consolidei a minha autoridade com trabalho, e não com autoritarismo”, afirma a delegada.

Na Polícia Civil, Mabel também constituiu família. O primeiro companheiro, pai de seus dois filhos, era da Polícia Civil, e o atual marido é escrivão aposentado da corporação. Eles chegaram a trabalhar na mesma delegacia, mas Mabel garante que o relacionamento não atrapalhava a rotina. “Na frente dos outros, ele só me chamava de senhora, de doutora Mabel, tanto que alguns colegas nem sabiam que a gente era casado”, ressalta. Oito meses depois de se aposentar, a delegada se adapta à vida longe da polícia. “Sempre tive uma sensação de pertencimento muito grande à instituição”.

“Sempre fui muito respeitada por ser também muito respeitosa. Consolidei a minha autoridade com trabalho, e não com autoritarismo”
Mabel de Faria, delegada aposentada

Protagonismo nas alturas

De um ângulo inusitado, Nilsa Antônia de Oliveira é uma profunda conhecedora de Brasília. Aos 38 anos, a major do Corpo de Bombeiros é a única piloto de aeronaves da corporação e roda o Distrito Federal pelos ares para salvar vidas. Com precisão e técnica, ela atua em operações estratégicas, como resgates em cachoeiras, atendimento a vítimas de acidentes de carro ou de paradas cardiorrespiratórias.

Goiana de Cabeceiras, Nilsa chegou a Brasília aos 11 anos. O pai trabalhava como pedreiro, e a mãe era dona de casa. Em busca de uma vida melhor, a família desembarcou em Planaltina. Nilsa começou a trabalhar aos 13 anos como professora de datilografia. Foi bolsista do CNPq e, aos 19 anos, conseguiu ser aprovada no vestibular de biologia da Universidade de Brasília (UnB). No ano seguinte, passou no concurso para soldado do Corpo de Bombeiros.

O curso de formação tinha uma rotina puxada, que começava às 6h. Ainda assim, sem expectativas de aprovação, a estudante fez a prova para virar oficial. Ficou como primeira suplente e, após uma desistência, teve a oportunidade de ingressar na carreira. Passou por diferentes áreas do Corpo de Bombeiros até 2013, quando a corporação anunciou a realização de um curso de formação de pilotos. “Estava em uma formatura e um colega perguntou brincando se eu me inscreveria. Comecei a pensar na ideia e resolvi entrar nessa”, conta.

A primeira etapa da empreitada é passar por uma prova teórica, certificada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Nilsa estudou sozinha e passou também pelo processo de seleção interna. “O curso é muito difícil, só 11 pessoas foram selecionadas e muitas desistiram”, relembra a major. Como piloto de aeronaves da corporação, Nilsa faz até cinco serviços de 24h por mês, além da rotina como oficial. A filha, Gabriela, de 11 anos, às vezes, reclama do dia a dia da oficial. “Mas, quando não estou trabalhando, me dedico integralmente a ela”, explica a militar.

A primeira pilotagem em uma ocorrência foi uma das operações mais arriscadas: o resgate em uma cachoeira do Buraco das Araras. “A gente utiliza a técnica McGuire, em que a vítima é retirada com o uso de cordas. É um resgate que exige muito do piloto”, explica a major.

A partir dali, ela ganhou confiança para controlar a aeronave enquanto os colegas lidavam com as vítimas a serem salvas. A tarefa exige concentração e sangue frio e, com a experiência, a oficial aprendeu que o melhor é focar no manche e evitar olhar para as pessoas atendidas durante a operação.

Emoção

Em alguns casos, entretanto, o envolvimento é inevitável. A major não esquece de uma ocorrência em especial: o salvamento de um garotinho de 4 anos que havia se afogado. “Depois de uma hora de reanimação, o menino voltou e conseguimos entregá-lo com vida no Hospital de Base”, conta. Nilsa relembra desse episódio com lágrimas nos olhos. Pede desculpas pela emoção e emenda: “Esse caso mexeu muito comigo, porque, pouco depois, soubemos que a criança morreu espancada pelo pai. O afogamento foi apenas a primeira omissão”.

Única mulher entre os pilotos do Corpo de Bombeiros, a major diz que o tratamento para militares do sexo feminino ainda é diferente. “É um desafio diário lutar contra essa realidade”, afirma a oficial. Nilsa é sempre respeitada pelos colegas de trabalho, mas vê o machismo em pequenas atitudes. Um exemplo: uma aeronave que apresentava problemas repetitivos foi apelidada pelos colegas de “Barbie”. O fato incomodou Nilsa, que relatou o desconforto aos outros militares. “Por que associar as falhas de uma máquina à figura da mulher? Por que acham que o sexo feminino é mais frágil? Isso está errado”, reclama.

Divorciada, Nilsa e o ex-marido têm a guarda compartilhada da filha, Gabriela. A major organiza o cronograma de trabalho e de folgas para estar livre nos dias da presença da filha. Ser oficial, mãe, piloto, mulher, tudo ao mesmo tempo, é um desafio. “Mas me orgulho dessa trajetória”, diz a goiana, que venceu em Brasília e conquistou o céu da capital.


5.674 
Total de bombeiros militares no DF


786  
Total de mulheres na corporação

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