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Correio Braziliense

Conheça mulheres brasilienses que brilham no cinema

Atrizes, diretoras e produtoras reforçam a presença das mulheres na sétima arte, em que Brasília é o grande cenário afetivo


postado em 21/04/2019 06:00 / atualizado em 22/04/2019 11:39

Maeve Jinkings:
Maeve Jinkings: "O cine Brasília Brasília traz um ambiente familiar e afetivo que é parte da minha formação humana" (foto: Janine Moraes/Divulgação)
Quando o assunto é audiovisual, há mulheres brasilienses que brilham. Enquanto Maeve Jinkings revela o aprendizado, contracenando com Fernanda Montenegro em A dona do pedaço, nova novela de Walcyr Carrasco; nascida em Taguatinga, Camila Márdila não deixa por menos, assumindo papéis de destaque em atrações globais e em redes como MTV, e trazendo láureas internacionais para a capital, em longas como Que horas ela volta?. No filme, Márdila cria ponte para a emancipação da mãe na ficção, outrora tolhida pela condição de empregada doméstica.

 

Albúm de família: Maeve, na 403 Norte, ao lado da irmã Isadora(foto: Arquivo Pessoal)
Albúm de família: Maeve, na 403 Norte, ao lado da irmã Isadora (foto: Arquivo Pessoal)
 

 

Camila Mardila, taguatinguense premiada no festival de Sundance:
Camila Mardila, taguatinguense premiada no festival de Sundance: "Brasília é a origem do meu repertório de afetos" (foto: Diego Bresani/Divulgação)


Superação de adversidades ligadas a gêneros unem fortes personagens de Márdila, assim como as de Maeve, que, em 2015, deu vida à aparentemente frágil Domingas, na novela A regra do jogo.  “O tema da violência doméstica, infelizmente, é tão popular quanto qualquer questão visceral para a sociedade”, destaca Maeve.

Sem tanta exposição, em função de trabalhar nos bastidores, a produtora de cinema Larissa Rolim tem a mesma relevância. Se mantém firme, mesmo nos momentos difíceis, efetivando longas como New Life S.A. e A repartição do tempo. Na fila dos projetos ainda estão os longas Xerifes do mar, de Cláudia Daibert; A volta de JC, de Jeann Cunha e O verão da lata, de Santiago Dellape e Davi Mattos (além de Saçurá, da mesma dupla de cineastas); tudo isso, em paralelo com a mais nova empreitada: a direção de produção do longa de Leo Bello Espaço infinito (da Machado Filmes), a todo vapor.
 
A produtora Larissa Rolim é enfática:
A produtora Larissa Rolim é enfática: "Cresci com o cenário da cidade" (foto: Nelma Fernanda/Divulgação)
 
  

Além de ser uma das representantes mulheres do cinema brasiliense, Dácia Ibiapina ajudou a formar diversos cineastas na capital. Também engajada com o cinema local, a produtora Daniela Marinho montou uma equipe de filmagem inteiramente formada por mulheres. Profissional igualmente atenta à reparação da desigualdade de gênero, Tânia Fontenele dirigiu Poeira e batom, que remonta a construção de Brasília pelo ponto de vista feminino.
 
Tânia Fontenele dirigiu documentário com depoimento de 50 pioneiras de Brasília(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Tânia Fontenele dirigiu documentário com depoimento de 50 pioneiras de Brasília (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
 

Cinema na veia 

Demarcando uma estreita relação de 12 anos desde que se apresentou, no Cine Brasília (EQS 106/107), no filme Falsa loura, a atriz brasiliense Maeve Jinkings tem relação intensa, em termos profissionais e pessoais com a capital: “O Cine Brasília me deu muito. É uma paixão mesmo: aquilo vibra pra mim. Na infância, até frequentei, mas descobri o Festival de Cinema, e ali foi um portal aberto para mim: veio outra Brasília também. Descobri um outro orgulho de ser candanga”, comenta a estrela de Boi neon e Amor, plástico e barulho.

 

Maeve encara o Festival de Brasília como uma das grandes escolas. “Ele me arrebatou profundamente e ajudou a definir meu lugar no mundo, como artista. Aí, se discute cinema com uma profundidade que, particularmente, não vi acontecer em nenhum outro festival”, avalia a atriz, nascida no Hospital de Base, e criada no Guará, e que, por força das circunstâncias com gravações de futura novela, viaja com frequência para o Rio. “Quando ia para a cidade, mantinha uma relação muito afetiva e familiar. Com meu amadurecimento como atriz, parece que demarquei outra relação com a cidade”, observa a moradora de Recife (Pernambuco).


Diretor da atriz no estrondoso sucesso que assinou (O som ao redor), Kleber Mendonça Filho ressalta as qualidades da artista: “É uma atriz incrivelmente sensível, sendo ainda dona de uma técnica incomum. Todo ator e atriz traz elementos pessoais para um trabalho, e Maeve é do tipo que traz ainda mais”. Um ganho forte, seguramente, alcança a politizada expressão do feminismo. Na novela A regra do jogo Maeve deu show ao interpretar Domingas. “Em todos os ofícios, percebo as mulheres se conectando em redes. Quando a gente escuta as mulheres ao redor, acessamos um lugar de reapropriação de si. É uma retomada”, analisa a atriz.

Presença solar

 

No primeiro filme, em longa-metragem, a atriz Camila Márdila foi projetada com enredo ambientado na cidade e chamado O outro lado do paraíso. “Era uma história sobre a construção da capital, em que uma família, na tentativa de uma vida melhor, morava em Taguatinga, que é minha cidade de fato”, lembra a atriz, hoje, aos 31 anos. O amor pela capital é algo nítido, na conversa com ela, que não segreda: “Brasília é a origem do meu repertório de afetos, é onde nasci e vivi até os 23 anos”.

Moradora de São Paulo, a atriz — que brilhou em produções televisivas recentes como Onde nascem os fortes e Feras — não perde de vista a ligação com a cidade, uma vez que a família dela segue em Brasília e as visitas são frequentes. “Durante festivais de teatro e de cinema também gosto de estar presente e acompanhar”, conta. 

Na trajetória no cinema, Márdila conquistou, ao lado da colega de cena Regina Casé, uma premiação inédita para uma candanga: o prêmio de melhor atriz no Festival de Sundance (EUA), com o longa Que horas ela volta.? “Acho que o reconhecimento para além das fronteiras é sempre uma maneira de ampliar o olhar dos outros sobre a cidade”, avalia, ao falar da expressão do prêmio. “Acredito estar, de alguma forma, contribuindo com a construção da identidade cultural brasiliense. Essa é a cidade que me formou, e isso certamente está e estará sempre presente no que eu fizer em qualquer lugar do mundo”, conclui a atriz de Cora Coralina — Todas as vidas.


Movida à disposição

 

“Larissa é fantástica: está entre as melhores, se não for a melhor produtora de cinema da cidade; falo com tranquilidade”, sacramenta o cineasta Santiago Dellape. “Tem uma trajetória invejável, pelo aspecto empreendedor, e soube prosperar: ela é pró-trabalhador da indústria do audiovisual, não admite destrato entre a equipe de filmagens e, acima de tudo, cria no set o clima de uma grande família. Ela dá muito valor à equipe”, conta o diretor.

Aos 34 anos, Larissa Rolim — “nascida e criada em Brasília, com muita honra” — afirma que produtor é sinônimo de solução no set. O aprendizado veio com a oportunidade de observar as pessoas vindo filmar em Brasília, em que capitalizou a oportunidade de receber equipes de fora e know-how. “Tive a oportunidade de crescer com o cenário da cidade. A minha relação com a cidade é 100%”.

Aspectos práticos da profissão advieram da lida com o mercado, ao ponto de a produtora estar escalada para capacitar futuros profissionais, em curso a ser viabilizado pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC). Cinco filmes engatilhados prometem dar dores de cabeça positivas para a empreendedora, ávida por soluções. “É engraçado, mas mulheres têm a capacidade de se unir, e resolver os problemas”, ao comentar as iniciativas locais do grupo MavDF — Movimento das Mulheres do Audiovisual do DF. “Naturalmente, a expressão das mulheres tem crescido até pelo volume de obras no mercado. A união das mulheres está se concretizando, e elas têm mostrado interesse em se capacitar. Precisamos conseguir ainda maior visibilidade, coisa que tem sido buscada”, conclui.


Conhecimento nas telas

 

A documentarista Dácia Ibiapina lembra que ficou encantada quando chegou a Brasília em 1989. A cidade, onde a piauiense de Teresina passaria a morar, era completamente diferente daquela de onde partiu. Formada em engenharia civil, Dácia se tornou assídua dos cineclubes durante a graduação e optou pelo cinema como carreira.
 
 

Escolheu se tornar mestre na capital, onde habitavam grandes inspirações. Aqui está a UnB, fundada por Darcy Ribeiro. Também os conterrâneos Clodo, Climério e Clésio Ferreira. “E tinha Vladimir Carvalho. Ele foi uma referência na minha vida e na minha formação”.

Completado o mestrado, em 1991, ela retornou para Brasília dois anos depois, após ser aprovada como docente do então curso de cinema. “Eu fui professora de quase todos os cineastas brasilienses dos anos 1990 para cá”, conta aos risos. Hoje, aos 61 anos, está aposentada das salas de aula, mas não abre mão de contar histórias nas telas, sobretudo de mulheres.

“Por ser mulher, tenho mais inclinação para construir personagens femininas. Nos meus documentários, sempre têm muitas mulheres, mesmo quando o protagonista é homem”, observa.

A cidade não passa despercebida por Dárcia: dirigiu filmes como o Entorno da beleza e O chiclete e a rosa, nos quais acompanha figuras das cidades do DF. E a capital não a despercebe: seu último filme, Carneiro de ouro, conquistou prêmio pelo júri popular do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Em uma das aventuras, “fui filmar o Vladimir filmando (risos)”. O resultado é o média-metragem Vladimir Carvalho, conterrâneo velho de guerra, de 2004. “A Dácia é uma batalhadora incansável e muito participante, não só em defesa dos documentários, como das questões políticas e do cinema brasileiro em geral. É uma companheira da luta cinematográfica em Brasília”, elogia o autor de Rock Brasília — Era de ouro.


O passado revisitado

 

Pela primeira vez a história da construção de Brasília foi contada pelo ponto de vista das mulheres quando Poeira e batom estreou. A cineasta Tânia Fontenele, 56 anos, iniciou o documentário em 2009, porque sentia que a participação feminina nos primeiros anos estava sendo relegada. Nascida em Brasília, ela mesma é filha de uma pioneira. “Uma professora”, destaca.

“Eu percebia que em todos os aniversários da capital sempre se falava dos homens. Raramente se ouvia depoimentos de mulheres. Brasília estava perto de completar 50 anos quando eu me perguntei: ‘Onde estão as mulheres nessa história?’”, lembra.

Assim começou a pesquisa com 50 mulheres, que já estavam com idade avançada na época do filme. Podia ser a última oportunidade de elas serem ouvidas — e foram. “Esses depoimentos estão ficando muito raros”, lamenta.

A pesquisadora do cinema local Berê Bahia comenta a relevância do trabalho da cineasta. “O trabalho da Tânia com as mulheres, sobretudo com as pioneiras da cidade, é fundamental. Criamos uma afinidade ao pensar, decifrar e interpretar Brasília através do audiovisual”.

Memória e equilíbrio

 

Defensora da memória do cinema brasiliense, a produtora Daniela Marinho, 34 anos, produziu pesquisas voltadas para o resgate da cinematografia local. Os filmes da minha vida: exibição e sala de cinema em Brasília de 1960 a 1965 foi a tese que defendeu no mestrado na UnB. Fora da academia, ela se engajou em reparar a desigualdade de gênero nos sets.
 
Dácia Ibiapina só motiva elogios de profissionais como Vladimir Carvalho:
Dácia Ibiapina só motiva elogios de profissionais como Vladimir Carvalho: "Ela é uma batalhadora incansável (foto: Arquivo Pessoal)
 

O filme Na barriga da baleia, produzido pela brasiliense, contou com equipe inteiramente sem homens. “Não é por exclusão, mas, sim, por equalização”, explica Daniela, que vê necessidade em contar temas femininos pelo ponto de vista das mulheres. Hoje ela é presidente da Associação Brasiliense de Cinema e acredita que a cidade é inspiradora. “Acho que Brasília tem muitos espaços para ser ocupados, e isso me inspira a criar”, diz a cineasta.
 
*Estagiário sob a supervisão de José Carlos Vieira 

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