Naná Vasconcelos fala ao Correio sobre homenagem no carnaval de Recife

Músico falou também sobre a a música pernambucana e a importância da percussão na vida dele

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postado em 07/02/2013 08:25 / atualizado em 07/02/2013 09:27

João Rogério Filho/Divulgação

Há 12 anos, o percussionista Naná Vasconcelos abre o carnaval de Recife com um show apoteótico: 10 nações de maracatu, com cerca de 500 batuqueiros, anunciam a chegada da folia na capital pernambucana. A apresentação chama a atenção pela técnica e pelo virtuosismo. Neste ano, a festa tem um gosto diferente. Com o fotógrafo Alcir Lacerda, Naná é o homenageado do carnaval de 2013. “Chorei muito quando recebi a notícia”, conta o instrumentista.


Amanhã, às 19h, ele conduz as nações e os caboclos de lança da Rua da Moeda ao Marco Zero (ambos no Recife Antigo), onde une a música popular e erudita, e som brasileiro e português. No palco, Naná tem a companhia de convidados: o cantor Milton Nascimento e a cantora portuguesa Carminho. Democrático, o repertório vai do Hino dos Batutas de São José e Vassourinhas a Estrela é lua nova, do maestro Heitor Villa-Lobos.

Além da abertura, Naná e o grupo Batucafro tocam no domingo e na terça-feira de carnaval, no Pátio São Pedro e no Polo da Bomba do Hemetério, respectivamente. A exposição em Homenagem a Naná Vasconcelos — com vídeos, fotos e depoimentos — completa o tributo ao músico, que é um dos responsáveis pela sobrevivência do maracatu no Brasil. “Quando começamos esse espetáculo, há 12 anos, não tinha mulher que tocava alfaia, hoje tem muitas. Vem gente de todo país, e de outros lugares do mundo participar da abertura tocando seu instrumento”, observa Naná.

O menino de Recife

Nascido em 1944, em Recife, Juvenal de Holanda Vasconcelos tornou-se Naná cedo. O apelido veio de garoto, assim como o talento para a música. Aos 12 anos, tocava bateria na banda do pai, que fazia shows em prostíbulos. As apresentações eram com a autorização do Juizado de Menores, mas só aconteceram até a morte do patricarca. Dali, o percussionista decidiu ganhar o Brasil e o mundo.

No fim da década de 1960, Naná se mudou para o Rio de Janeiro e trabalhou com Milton Nascimento, Gilberto Gil e Gal Costa. Anos depois, foi convidado pelo saxofonista argentino Gato Barbieri para juntar-se a seu grupo. Naná topou. Fez turnês nos Estados Unidos e na Europa, onde morou por um tempo. Depois de três décadas vivendo no exterior, o músico voltou para a casa. “A espinha dorsal da cultura pernambucana e brasileira é a África, que é o que meu trabalho representa”, diz.

Mestres da rua


O caboclo de lança é personagem do maracatu rural ou baque solto e um dos principais símbolos do carnaval pernambucano. A roupa do caboclo é destaque na festa e tem uma série de significados. O chapéu de palha, por exemplo, é ornado com fitas coloridas, em que predomina a cor do guia (amarelo é Oxum; vermelho, Xangô). A gola, item principal da indumentária, é coberta por lantejoulas. No rosto, óculos escuros e um cravo branco preso nos lábios. Até hoje, não se sabe o porquê da flor. Do segredo do cravo, só é conhecido um detalhe: ele precisa ser confiado a uma mãe de santo.


CINCO PERGUNTAS//NANÁ VASCONCELOS


Como chegou ao senhor o convite para o ser o homenageado do carnaval de Recife?
O prefeito de Recife, Geraldo Júlio, me convidou porque queria saber como é essa abertura do carnaval que faço com os maracatus, há 12 anos. Fui explicar que sou eu quem organiza essas nações de maracatus, quando ele perguntou se eu aceitava ser o homenageado. Chorei muito. Fiquei muito feliz. Por ser homenageado vivo. Porque, normalmente, essas coisas acontecem depois da morte. Já recebi tributos fora do país várias vezes, mas em casa a emoção é diferente. Dizem que santo de casa não faz milagre. Mas nesse caso fez sim.

Como será essa noite tão especial?
A abertura do carnaval que faço com 10 nações de maracatu é única. As nações concorrem entre si e isso é bom porque assim elas procuram fazer o melhor. Mesmo depois de 12 anos, ainda é preciso organizar quem fica do lado de quem. O maracatu correu risco de desaparecer. Ele só era tocado pelas pessoas das comunidades. Hoje, tem o pessoal da classe média, universitários, mulheres e crianças tocando. É muito mais democrático.

Como Pernambuco consegue manter e superar essa diversidade cultural?
A cultura pernambucana é rica porque não sabe se vender, não tem visão de mercado. Então, ainda é popular. Aqui (Recife), você pode parar na esquina, se sentar e ver o carnaval passar. O mercado acabou com o carnaval do Rio de Janeiro. Não existe mais o carnaval de rua. No Rio, as pessoas estão tentando recriar esses blocos…Em Salvador (BA), só se tiver abadá. Circula mais dinheiro nos camarotes da Bahia do que em todo carnaval do Recife.

A impressão é de que o senhor toca com a alma…
Eu toco de corpo e alma. Há alguns anos, estive na UTI de um hospital. Quando saí de lá, fui com a seguinte energia: toda vez que toco, é como se fosse a última vez. Tocar o melhor de mim, no sentido de aperfeiçoar a qualidade do que faço. É difícil guiar um show de percussão que não tenha a ideia de que quem toca mais alto ou de quem toca mais rápido. Quero fazer música com percussão. Acredito que a percussão tem o poder da imagem. Pelo som, eu posso levar você para qualquer cenário do meu país.

O que o senhor pode adiantar sobre o novo álbum?

Meu novo CD se chama Quatro elementos e deve ser lançado depois do carnaval. Não levei convidados especiais para esse trabalho, porque esse disco é um conceito muito pessoal. Sou um Brasil que o Brasil não conhece. Não faço parte do que está acontecendo. A espinha dorsal da cultura pernambucana e brasileira é a África, que é o quê meu trabalho representa.

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