Ruas íngremes não tiram a energia dos foliões em Olinda

%u201CIsso é mágico, é cultura%u201D, diz foliã que não resistiu a animação do frevo

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postado em 11/02/2013 20:09

Helder Tavares/DP/D.A Press


Olinda, em Pernambuco, foi ladeira, suor e serpentina na segunda-feira de carnaval. Em suas ruas íngremes, o folião pareceu pagar a promessa de toda a graça recebida nos quatro dias de alegria. Sobe, desce, dança, chacoalha as mãos para cima, bate no tambor, sopra o trompete, rebola no meio da multidão, cantarola...


É de toda essa intensidade que Maria Teresa Ferraz sente saudade. Dona Titeca, como é conhecida, é uma olindense que pulou carnaval em todos os anos da juventude. Hoje, as pernas não resistem às ladeiras. O jeito é fazer um charme em um bailinho de um dos hotéis de Recife, onde mora há 12 anos. Por lá, ela se anima com a ciranda, no ritmo de quem tem 90 verões. O tempo lhe deu propriedade para observar as transformações da festa durante as décadas.

“Na minha época, eram só frevo e maracatu, não tinha rock como agora”, compara, com o olhar preso às lembranças. Entre sorrisos, conta sobre as moças fantasiadas, os blocos nas ruas, o boneco gigante Homem-da-meia-noite. “Era tudo brincadeira sadia, engraçada”, pausa. “Tempo do lança-perfume”. Dona Titeca diz que o festejo do Rio de Janeiro é diferente e brinca sussurrando que o estado ficou com inveja do Galo da Madrugada. Um suspiro e... “Sinto falta da mocidade, do tempo que não volta naqueles carnavais”.

A 12 km de dona Titeca está o lugar de suas saudosas lembranças, onde o casal Lizandra Mendes, 38 anos, e Domingos Nascimento, 45, também constrói e acumula histórias da folia. Vestidos de Lampião e Maria Bonita, caminham de mãos dadas nas ruas de Olinda todos os anos desde o início do namoro, há uma década. “Isso é mágico, é cultura”, diz Lizandra. Diferente de dona Titeca, Domingos acredita que, apesar do tempo, o Carnaval está intacto e preserva as tradições. “O aumento da violência pode ter sido uma diferença, mas ainda me sinto seguro nessa cidade. Tem de criança a idoso entre os foliões, famílias inteiras vêm prestigiar”.

Desse último item, Eunice Basto, 84 anos, entende bem. Faz questão de levar os cinco filhos, dez netos e quatro bisnetos para apreciar a festa. Por 29 anos, aluga uma casa na cidade para que todos se divirtam juntos nessa época do ano. É o camarote dos Bastoreta, como carinhosamente apelidaram o encontro familiar. “É uma tradição, ai de quem não participar”, comenta a neta Patrícia Basto, 30 anos. A bancária conta que a avó chega na sexta-feira e só volta para casa na “ingrata quarta”, e anuncia que todos devem acompanhá-la.

Eunice, nesta segunda, observou, pela janela, os blocos passarem e arriscou alguns refrões. O olhar atento aos homens vestidos de bailarinas dá efeito em um sorriso discreto. “Aqui existe liberdade de ser o que quiser”, dá voz a um pensamento alto. “É o melhor carnaval do mundo”, explica ao perceber que é observada. A neta Priscila Basto, 24, interrompe na tentativa justa de ressaltar: “É uma festa barata, comparada com outros lugares do país. Acessível, é para todas as classes sociais”. Recebe a aprovação da avó.

O amor pela festa em terras pernambucanas é transmitido entre gerações. Faz, assim, todo sentido o tema da celebração em Olinda: “Pernambuco, imortal, imortal”.

A repórter viajou a convite da prefeitura do Recife
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