Especial Carreiras

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Correio Braziliense

Eu, protagonista

Autogestão ajuda profissionais a assumirem o controle da carreira e vencerem as barreiras dos problemas externos


postado em 08/11/2018 05:00 / atualizado em 07/11/2018 23:11

Alan Teles venceu uma trajetória de vida difícil por meio da educação, e não parou de estudar mesmo depois de formado(foto: Vinicius Cardoso/Esp. CB/D.A. Press)
Alan Teles venceu uma trajetória de vida difícil por meio da educação, e não parou de estudar mesmo depois de formado (foto: Vinicius Cardoso/Esp. CB/D.A. Press)
Entre ser o protagonista da sua própria história ou deixar que outros decidam o rumo dela, a primeira escolha é mais empolgante, mas também exige mais esforço. A autogestão é palavra-chave nesse processo, significa gerir a própria carreira e se colocar em primeiro plano, sem deixar que bloqueios externos tracem sua trajetória profissional. E essa é uma característica cada vez mais essencial para quem deseja crescer profissionalmente.
 
A professora de MBAs da Fundação Getulio Vargas (FGV) Walnice de Almeida, mestre em psicologia organizacional e especialista em gestão de pessoas explica com precisão: “O conceito de autogestão da carreira fundamenta-se na postura proativa e ativa da pessoa no planejamento e administração da sua trajetória profissional”. De maneira simplificada, é não esperar o pão ficar pronto e, sim, pôr a mão na massa. Mas o mercado de trabalho pode complicar um pouco tudo isso; então é necessário traçar estratégias para começar a agir.
 
“Para isso, a pessoa precisa assumir uma atitude de protagonismo e autodisciplina diante da vida e das escolhas profissionais. Ou seja, é necessário ter uma definição e declaração clara de um propósito, que integre os talentos, necessidades e aspirações identificados pela pessoa. Conhecer os pontos fortes e fracos ajuda a descobrir o que a entusiasma, e isso amplia o seu autoconhecimento”, detalha Walnice.
 
Foi assim que Alan Teles, 36 anos, começou sua carreira. Motivado a usar a educação para quebrar barreiras sociais e ter uma vida melhor do que a que vivia — em Santa Cruz, um dos bairros mais pobres e violentos da cidade do Rio de Janeiro —, ele começou com uma pequena meta: ser o melhor aluno da sala.
“Venho de família pobre, meus pais não concluíram o ensino fundamental. Então, na virada da infância para a adolescência, talvez por adquirir certa consciência, comecei a entender a importância da educação para o meu desenvolvimento e tomei a decisão de querer estar entre os melhores da minha turma”, conta.

Contra a maré


Para escrever sua própria história, Alan precisou de determinação. Ingressou em uma escola militar por meio de concurso. “Uma das grandes possibilidades de acesso ao primeiro emprego aos jovens cariocas é por esse meio”, relata. Aos 21 anos, conquistou uma vaga para cursar física na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Mas, após o primeiro período, não se identificou com o curso e continuou se movimentando. “Vim para Brasília em 2005, quando fui direcionado a servir aqui como sargento da Aeronáutica”, lembra.
 
“Sempre fui determinado, focado, interessado pelos estudos. Colocando educação como prioridade, queria chegar aonde poucos haviam conseguido em Santa Cruz. Sucesso profissional exige algumas atitudes, como saber o que se quer, investir tempo na qualificação e superar limites e dificuldades pessoais.”
 
Sem se acomodar, voltou a estudar e passou novamente no vestibular, agora para cursar serviço social na Universidade de Brasília (UnB), em 2007. Primeiro da família a concluir uma graduação e mestrado em instituições públicas, ele ainda foi aprovado — e classificado em primeiro lugar — para o cargo de assistente social na Secretaria de Estado de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude do DF e, sete anos depois, aprovado para o cargo de assistente social da Secretaria de Saúde.
 
Hoje, Alan discorda do conceito de meritocracia e acredita que as políticas sociais têm grande impacto na carreira de qualquer pessoa, mas sabe também da importância do protagonismo. “A consciência da dura realidade não deve ser motivo para o desânimo. Pelo contrário, a resistência deve vir pela educação. A gente precisa se qualificar sempre, se atualizar e sair da zona de conforto.”
 
Fábio de Andrade descobriu novos caminhos a partir do coaching e hoje ajuda outros profissionais(foto: Marilia Lima/CB/D.A Press)
Fábio de Andrade descobriu novos caminhos a partir do coaching e hoje ajuda outros profissionais (foto: Marilia Lima/CB/D.A Press)
 

Ajuda profissional


O processo da autogestão não é simples, mas pode contar com a ajuda de outras pessoas. Os coaches são profissionais cada vez mais requisitados no mercado justamente por isso. Fábio Andrade, 33, não só contou com esse auxílio como passou a oferecê-lo a outras pessoas. Ele foi mais um dos jovens que não sabia qual área seguir e teve até uma experiência como servidor público, antes de largar a estabilidade para ousar com a abertura da própria empresa. 
 
 
 
“Quando eu saí do ensino médio fiquei bastante perdido, porque eu não sabia quem eu era. E isso influía diretamente no que eu fazia. Eu ficava buscando carreiras sem saber o que fazia sentido para mim como pessoa e isso era um pouco desgastante”, conta. Depois do coaching, passou a ter clareza de onde queria chegar.
 
O empresário relata que sempre traçou metas muito bem definidas e, hoje, ajuda outras pessoas nesse processo. “A autogestão tem a ver com a autorresponsabilidade. Não podemos esperar que as coisas surjam, temos de fazer a autogestão do nosso conhecimento, saber o que temos a oferecer ao mercado, ver que somos responsáveis pelo nosso resultado”, aconselha. 
 
Débora Borges conseguiu abrir o próprio negócio após investir na carreira(foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)
Débora Borges conseguiu abrir o próprio negócio após investir na carreira (foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)

Crescimento pessoal


A metáfora não poderia ser mais explicativa: do mesmo jeito que não é possível ficar parado em uma esteira em movimento sem cair, não se pode ficar imóvel em um mundo de constante rotação. Com o mercado de trabalho seguindo esse fluxo e se movimentando cada vez mais, é certo que o profissional que deseja ter seu espaço precisa acompanhar esse ritmo e se desenvolver.
 
Mas como? Segundo Alexandre Slivnik, sócio-diretor do Institute for Business Excellence (Ibex) e do Instituto de Desenvolvimento Profissional (Idepro), a resposta está em uma via de mão dupla. “Para que as empresas se desenvolvam, é necessário que as pessoas se desenvolvam. Hoje, saber trabalhar em equipe, inovar, querer correr riscos e sair da zona de conforto são atributos essenciais para os profissionais evoluírem nas suas carreiras. Ao mesmo tempo, o negócio dos negócios são as pessoas. Sendo assim, é necessário que as empresas invistam no desenvolvimento pessoal dos funcionários”, explica Alexandre.

Débora Borges, 30 anos, viu isso de perto com a motivação do seu antigo chefe, Poli Halfeld.
Segundo ela, ele sempre se preocupou com o desenvolvimento dos funcionários em seu salão de beleza, o que a incentivou a abrir seu próprio negócio, que leva o nome dela. “Eu comecei a fazer unha com 14 anos, observando a minha mãe. Mas sempre quis aprofundar o que eu sabia, estudando em um horário e trabalhando em outro. Fiz vários cursos, cresci profissionalmente e, em junho deste ano, abri minha própria esmalteria, com uma sócia.”
 
Começando a carreira como manicure, Débora encontrou o caminho de especialização no trabalho de alongamento de unhas e pôde se tornar empreendedora, com ajuda do antigo chefe. “Sempre recebi muitos incentivos, tanto que meu espaço hoje é na sobreloja do salão dele”, contou.
 
Para Alexandre Slivnik, esse desenvolvimento buscado e alcançado por Débora é a chave de um caminho profissional próspero. “Um profissional mais bem desenvolvido estará mais preparado para os desafios do mercado de trabalho, tanto para melhorar sua empregabilidade como para aumentar sua chance na busca de um eventual novo rumo.” (AR)

Plano de ação


Veja como traçar metas para a sua carreira

1. Detalhar o que fazer, como e quando, evitando o “boicote”. Se você não determinar um prazo, não poderá se cobrar. Assim, ao resolver “entrar em ação”, é possível que o tempo hábil para obter o resultado desejado já tenha se esgotado;

2. Incluir atividades que gerem fontes de renovação de energias e de equilíbrio pessoal para trabalhar o nível de estresse, que, quando alto, pode comprometer a produtividade;

3. Fazer uma agenda de trabalho e uma boa gestão do tempo. Essas atitudes ajudam a definir uma rotina efetiva;

4. Identificar os “ladrões do tempo”, ou seja, aquilo que faz você perder tempo excessivo de forma desnecessária;

5. Mapear as novas tendências do mercado de trabalho, as oportunidades, e submeter-se a novas experiências para alimentar o direito de sonhar e renovar, que são algumas das principais fontes de automotivação.

Fonte: Walnice de Almeida


Três perguntas para

Wilma Dal Col, diretora do ManpowerGroup, especialista em recursos humanos

O que você entende como autogestão?
É gerenciar a própria carreira, entender qual o meu propósito, o que é importante para mim, o que me traz realização e plenitude. É colocar a carreira na sua mão e fazer, por exemplo, um plano de ação a curto, médio e longo prazo, em formato de trilha, e não de trilho.

Como autogerir a carreira?
A pessoa precisa saber como alinhar a descoberta que fez sobre si mesma dentro do nível de realidade que a cerca. Se perguntar: que tipo de empresa me traz o que eu quero, mas me faz trazer recurso para dentro de casa também?

Quais as maiores dificuldades encontradas na autogestão?
Uma das principais é que as pessoas sentem um pouco de medo de serem protagonistas. O protagonista sempre vence o vilão, mas as pessoas acham que o vilão é a crise, a empresa, a área… Quando, na verdade, ele é a dificuldade que você está tendo de lidar com essas coisas.


Quizz


Você sabe gerir a sua carreira ou está na hora começar a promover mudanças?

A pedido do Correio, Almir Neves, especialista em treinamento, desenvolvimento e inovação pela Universidade de Harvard, preparou um questionário interativo que aborda quais são os principais itens que ajudam o profissional a se manter atento e a verificar como está o desenvolvimento da carreira. Para cada pergunta que a resposta seja “sim”, marque um ponto e veja o resultado no fim.

1. Você sabe claramente quais são suas forças e fraquezas (como comunicação, organização ou resiliência, por exemplo) como profissional?

2. Você tem uma resposta clara e estruturada para seu futuro daqui a cinco anos?

3. Você frequenta feiras, cursos de atualização e evento de networking dentro da sua área de atividade?

4. Você procura se manter atualizado em relação às novas tecnologias que impactam o dia a dia e a produtividade dentro das empresas?

5. Sobre sua imagem nas redes sociais, se alguém olhar seus perfis digitais vai encontrar uma imagem profissional?

6. E sobre sua imagem pessoal, você tem cuidado com a sua aparência e apresentação no dia a dia?

7. Você tem um mentor com quem pode falar sobre sua carreira e pedir sugestões em momentos de dúvidas?

8. Sobre seu equilíbrio entre vida pessoal e carreira, você procura manter uma vida social ativa e cuida de seus relacionamentos como cuida de sua carreira?

9. E da sua saúde física, você cuida pelo menos três vezes por semana?

10. Você cultiva uma segunda carreira, um hobby ou um plano B que pode servir de fonte de renda futura ou renda adicional?


Gabarito


0 a 6 — Atenção! 
Sua carreira ainda não é uma prioridade em sua vida, você precisa equilibrar melhor os fatores que ajudam a deslanchar seu potencial profissional.

7 a 8 — Muito bom!
Você já cuida de seu desenvolvimento profissional, continue no bom caminho e lembre-se de que 
uma carreira de sucesso demora realmente anos para ser alcançada.

9 a 10 — Parabéns!
Você é um profissional antenado e procura equilibrar vários aspectos importantes ao desenvolvimento profissional e pessoal. Que tal ajudar outras pessoas e ser um mentor para seus colegas?

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