Jornal Correio Braziliense

Especial 1109

O 11 de setembro na embaixada dos Estados Unidos em Brasília

Relatos de uma brasileira e uma americana que viveram o atentado como funcionárias do governo americano

O cotidiano da embaixada dos Estados Unidos em Brasília foi interrompido por uma ligação inesperada naquela terça-feira. Do outro lado da linha, a notícia não era boa. Um avião tinha acabado de bater contra uma das Torres Gêmeas do World Trade Center. A assessora do departamento de imprensa, Marília de Araújo, ligou imediatamente a televisão e quem estava por perto correu para ver, entre elas a diplomata e adida cultural Charlotte Peterson. Ninguém entendeu o que tinha acontecido. Em poucos minutos, um segundo avião se chocou contra o outro prédio. Alguém comentou: "Isto é terrorismo". Aquelas três palavras ecoaram como uma sentença. Para aquela parte dos EUA que estava em território brasileiro tudo mudou depois do 11 de setembro. Dez anos depois, a brasileira e a americana estão novamente no mesmo lugar e permanecem esperançosas de um futuro melhor para os americanos e o resto do mundo.



No dia dos ataques que surpreenderam os Estados Unidos, o trabalho na representação diplomática mais antiga de Brasília parou. "Quando vimos aquelas imagens a sensação era de perplexidade. A gente não conseguia acreditar no que estava acontecendo", relembra Marília. Durante todo o dia, a televisão permaneceu ligada e informações chegavam de Washington. Para os profissionais do departamento de imprensa foi um longo dia, cheio de demandas em busca de explicações ainda desconhecidas e assim seriam nas próximas semanas .Grande parte dos americanos que estavam na embaixada começaram a ligar para parentes e amigos. Muitos foram para casa arrasados com o que tinha acontecido e não conseguiram voltar ao trabalho no dia seguinte. O sentimento era de consternação e de tristeza pela tragédia.

Para Charlotte, foram momentos de angústia. "Foi um choque total. Passamos horas assistindo aquela cena que foram repetidas constantemente, em especial, nos canais americanos. Liguei para os meus amigos e me senti muito mal por ser americana e não estar no meu país. Naquele dia não consegui dormir direito, aquelas imagens horríveis não saiam da minha cabeça", revela a diplomata aposentada. A tensão aumentou na embaixada no decorrer daquele 11 de setembro porque existiam rumores que o departamento de Estado, centro da diplomacia dos Estados Unidos, também seria um dos alvos terroristas. "Eu lembro de ter falado naquele dia: ;o mundo mudou;. E era verdade, ninguém estava mais seguro", conta Marília.

De fato, depois daquela terça-feira, a primeira diferença a ser notada foi na segurança. O trabalho de todas as representações diplomáticas do país precisou passar por mudanças. Os esquemas de segurança foram reforçados e os trâmites para conseguir um visto de viagem para os Estados Unidos ganharam mais restrições. Os pedidos diminuíram nos cinco anos depois do 11 de setembro, não apenas por causa dos trâmites imigratórios, como também por conta do clima de receio que se instalou nos aeroportos e nos principais pontos turísticos do país alvo do maior ataque terrorista do século 21. Apenas em 2006, a quantidade de pedidos de entrada para os EUA voltou a aumentar.

O 11 de setembro transformou a forma como os Estados Unidos não apenas interagiam com o resto do mundo, mas a imagem interna do país. "Para os americanos foi um momento de mudança de ideais. Nunca podíamos imaginar que dentro do nosso país algo como aquilo poderia acontecer. A gente nunca mais teve aquele sentimento de segurança total. E a próxima geração, das minhas filhas, não vai ter mais isso. Nós reconhecemos que somos iguais a outros países e por isso estamos mais unidos com o resto do mundo", afirma Charlotte que chegou a questionar a volta para o Washington anos depois e agora está mais uma vez no Brasil com um cargo provisório.

Para Marília, o 11 de setembro traz a lembrança de um momento difícil, além de lidar com aquela dura realidade de receber e traduzir boletins do governo sobre a tragédia, ela também sofreu uma grande perda familiar. "Meu pai tinha 86 anos e morreu menos de um mês depois. Então foi um ano muito complicado para mim", conta. Quase 12 meses depois do atentado, a assessora foi a Nova York, como costumava a fazer, e passou em frente ao local onde ficavam as Torres Gêmeas, agora batizado de Marco Zero. "Eu passei em frente ao buraco e nos quarteirões mais próximos ainda era possível sentir o cheiro de fumaça, foi muito triste, muito deprimente", conta a assessora que vai estar de novo na cidade no aniversário de dez anos de atentado.

Tanto para a brasileira quanto a americana acreditam as lições que permaneceram diante da tragédia foram valiosas. "É uma época para seguir para frente. É claro que estamos mais atentos, ficamos mais cientes e esperamos que isso nunca mais se repita", aponta Marília. "Eu vi um ressurgimento do patriotismo nos americanos que continua até hoje. E não importa qual é o ideal político da pessoa. Depois de ver milhares de pessoas sofrendo. Para mim, a experiência contribuiu para a minha atual filosofia de valorizar a família e os amigos. A vida é curta", conclui Charlotte.