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Jean-Claude Bernardet encara o cinema como uma arte de resistência

O ator belga conversou com a reportagem do Correio Braziliense

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postado em 21/09/2014 08:05

Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press


Há 65 anos, o Brasil recebeu a visita de um belga, um tanto tímido que se refugiou no universo do cinema. Instrumento de aproximação com uma nova cultura, a sétima arte, mais do que lazer, tornou-se um modo de vida. Aos 78 anos, o crítico de cinema Jean-Claude Bernardet se transforma, seguindo curso natural de quem acredita que a pesquisa é como a arte: “Você tem que ter necessidade absoluta”. Fome de vida é o que não falta para esse estrangeiro naturalizado brasileiro. “A longevidade dos tempos atuais exige de pessoas que nasceram nos anos 1930, como é meu caso, uma necessidade de reinvenção”, observa o pesquisador, durante um dos intervalos do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.


Na alteração de rota, Jean-Claude (corroteirista de filmes de Tata Amaral e de produções como A noite do espantalho, de Sérgio Ricardo) assumiu o posto de ator, tendo até faturado o troféu Candango por atuação em FilmeFobia (2008). Entre os desafios atuais que toca, estão uma adaptação cinematográfica de Shakespeare e Periscópio, que tem na trama um olho mecânico como personagem, fato que remete à real condição de Bernardet, com graves limitações na visão.

Bernardet é um poço de interesse para qualquer cinéfilo — já que trabalhou ao lado de Glauber Rocha, Leon Hirszman e Joaquim Pedro de Andrade. Porém não gosta de falar de episódios vividos ao lado de grandes nomes do nosso cinema. “Tive convivência esporádica com eles. As pessoas tendem a vê-los como cineastas, mas eram pessoas. Pessoas com problemas como quaisquer outras. Todos nós somos seres humanos. Até entendo a questão de se quebrar algum verniz de mito. Mas não posso abrir, ou expor isso ou aquilo, até porque seria tratar de intimidades”, observa.


Abrasileirado
Quando cheguei ao Brasil, adolescente, minha vontade era de voltar para a França (onde vivia). Mas vi que não aconteceria. A família era muito pequena: meu pai não tinha dinheiro para pagar minha passagem, então percebi que não voltaria para lá tão cedo. Coisa que só aconteceu em 1973. Até os 21 anos, vivi aqui na colônia francesa. No jogo das culturas, acho que ganhei a brasileira, mas ela se impregna de maneira diferente da cultura original. Há essa ambiguidade. Na minha família, tínhamos um traço forte: íamos a muitos teatros, líamos bastante, frequentávamos muito cinema e ouvíamos música. Com o cinema foi o seguinte: rompi com a colônia francesa e fui estudar no Senai, onde tive contato com cineclubes. Mantive contato com o Paulo Emílio Salles Gomes (crítico de cinema e militante político). O cinema foi instrumento para resolver meu problema de imigrante: foi pelo cinema que me inseri na sociedade brasileira.

Nada teórico
Não sou um teórico: produzi poucos conceitos. Meu orientador disse que o conceito de narrador auxiliar que desenvolvi era novo. Ismail Xavier (pesquisador do cinema brasileiro) também não é um teórico de cinema: nós, brasileiros, somos analistas de obras. Não é modéstia (risos). Trabalhamos a partir de uma realidade existente: um tema, um período, um realizador que seja. Chegamos a reflexões mais gerais. Os franceses são produtores de teorias que até são exportadas. Até nos Estados Unidos elas têm muito peso, por meio da difusão de livros e de revistas como Positif e Cahiers du cinéma.

Bendita internet

Eu me relaciono com dificuldades, porque eu não enxergo. Conto com a mediação de uma secretária: peço para que procure determinadas coisas. Nas décadas passadas, sabia de cor muitos números de telefones. Essa memória foi assumida pelos próprios telefones, e não sei mais nenhum (risos). Me oponho a considerar isso uma decadência. Temos que nos adaptar, porque o mundo se transformou: a roda nem sempre existiu. O cérebro fica mais livre para aplicação em outras áreas. O conhecimento enciclopédico pode ser repassado para o Google. Não acredito que a internet seja uma traquitana a nos aporrinhar.

Festival de Brasília

Durante a ditadura (a cidade) foi um dos centros de discussão e de polêmica política. Com a redemocratização, o Festival de Brasília perdeu a função, tal como a imprensa nanica. Antes, forças políticas com ideologias diferentes se unificaram contra a ditadura — pelo inimigo em comum. Depois, houve um período em que o festival se tornou uma festa entre amigos, quando patinou muito. Este ano, ele tem uma cara nova, mais desenhada e clara: os filmes selecionados desagradaram aos produtores mais comerciais.
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