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"Sou o crítico frustado que virou ator", diz Everaldo Pontes em entrevista ao Correio

"Tu é corajoso de perguntar isso, visse", é a primeira frase que Everaldo Pontes disse quando questionado sobre sua trajetória no teatro e no cinema. Aos 58 anos, o ator paraibano relembra momentos da carreira artística, a relação com os irmão e pais, e compartilha visões de vida com o Correio

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postado em 24/09/2014 15:30 / atualizado em 24/09/2014 15:32



“É melhor você fazer as perguntas, porque sou desarticulado”, começa. Ao longo da entrevista, a desarticulação não deu sinal de existência. “Minha história começou dentro de casa. Sou o caçula e meu irmãos faziam teatro. Desde que me conheço por gente lembro deles atuando.” Assim foram os primeiro passos do jovem Everaldo Pontes, que participou da primeira peça quando tinha entre 8 e 9 anos. Todos da família se envolveram, de alguma forma, com as artes cênicas.


Filho de Manuel Pontes e de Maria José Pontes, já falecidos, Everaldo contou com o apoio dos pais desde o início. “Nunca se opuseram a nada, eram muito abertos com a gente.” No fim das contas, só ele e a irmã Zezita Matos permaneceram no meio. Aos 15 anos, Pontes começou a evitar o teatro. “Nunca gostei muito do meio artístico, de uma forma geral. Trabalho com artistas, me dedico, produzo com eles, mas assim que acaba, saio dali. Gosto de me envolver com outras pessoas, namorar com gente de fora.” Ele conta que não lhe agrada as relações que crescem no próprio meio. “É ator com atriz, cineasta com diretor, diretor com cineasta. Prefiro ir embora disso.”



Ao mesmo tempo que fugia do teatro, cresceu o interesse por cinema e por rádio. Pontes, na faixa dos 19 anos, teria um programa na rádio universitária sobre rock. Mais tarde, dirigiria um documentário sobre a cena rockeira de João Pessoa, cidade onde reside até hoje. Simultaneamente, cresceu o sonho de ser crítico de cinema. Pontes começou a assistir a programas de televisão e de rádio que discutiam cinema, passou a ler tudo o que encontrava pela frente. Ao mesmo tempo que surgia uma geração paraibana fortemente envolvida com produção audiovisual, exportando curtas para todo Brasil e ganhando notoriedade em festivais de importância, o cinema brasileiro retomava a atividade. Foi quando Everaldo Pontes foi convidado para fazer parte de dois dos maiores papéis de sua carreira: a participação em Central do Brasil (1998, direção de Waltes Salles), e a premiada atuação na pele de Jerônimo, em São Jerônimo (1999, direção de Júlio Bressane).

O entusiasmo na fala quando o assunto é cinema é visível em Pontes. No entanto, ele conta que as pessoas o veem como um alguém solitário. Não no trabalho, mas na vida. “Sou meio autista”, conta, ainda que entre risos. Aos 58 anos, Pontes diz que se acostumou a ser só. “Não sei viver de outra maneira. Tenho muito essa característica. Sou solteiro e solitário, mas não tenho nem sinto solidão. Meu pai me ensinou a ser sozinho.” Ao longo da conversa, lembra de uma música que não soube especificar bem qual era. “Tem uma cantora folk americana que diz o seguinte em uma letra: Sou uma pessoa muito triste, o mundo é triste, mas posso levar alegria aos meus amigos. É como me sinto.” Pontes antagoniza suas próprias características — se auto declara triste, porém alegre, simpático, ainda que niilista. “Carrego em mim o descontentamento. No meu discurso, na estética, no olhar, tenho muito disso em mim.”

Críticas
Naturalmente, Pontes muda o tom introspectivo para dirigir críticas ao mundo. Seja na política, seja na própria sociedade, diz que se sente profundamente incomodado com o que lê em jornais e revistas. Até o rádio, meio de comunicação que julga mais importante, está “infectado” e que “toca qualquer coisa”. “Posso dizer que prefiro os livros, apesar de não ter lido muitos romances e literatura, de um modo geral. Gosto mais de publicações técnicas sobre cinema, teatro e música.” Quanto a música, Pontes diz que prefere montar a própria lista. “Minha época preferida é a da MPB da década de 1970 para trás. Confesso que não escuto a obra brasileira atual.”



Pontes se diz incapaz de se autodefinir como autor. Após pensar um pouco, revela que sempre preferiu o lado de quem analisa e pensa a produção audiovisual, do que o lado de quem produz. “Meu sonho sempre foi ser crítico de cinema, jornalista. Hoje em dia, me vejo como um nordestino, paraibano, um cidadão que gosta de teatro e cinema. Na verdade, sou um cinéfilo que gosta do palco. Tem muita gente que diz que o crítico é o ator frustrado, pois digo que eu sou o crítico frustado que virou ator.”

Ele se diz contente de ter participado de tantos projetos de cinema de autor, no qual enxerga o ator na coautoria da produção, ao mesmo tempo que lamenta a presença esmagadora de filmes norte-americanos nas salas de cinema. “Precisamos passar por uma reeducação nesse sentido, valorizar ainda mais a produção nacional.”

Sobre o futuro, Pontes diz que se vê saindo da função de ator e partindo, um dia, para a cadeira de diretor. Quanto às ambições que possui, responde prontamente. “Minha maior ambição, hoje, é ficar em casa e de olhar o mundo pela janela. Se for para sair, que seja para levar alegria a quem se encontrar comigo.”

Curiosidade

“Certa vez, estava em cartaz no Rio de Janeiro com a peça a Gaivota, uma adaptação de Tchekhov. Era minha fala e me deu um branco total. O texto era longo e eu fiquei uns 10 minutos sem dizer uma palavra. A plateia inquieta, aquele burburinho. Até que uma atriz pulou a cena. Aquele dia pensei que nunca mais subiria ao palco. Depois de algum tempo, o diretor me ligou e disse que me queria como ator de novo. Contou que aquele branco seria incorporado pela peça porque havia funcionado na proposta.”

Com informações de Mateus Vidigal
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