Artigo: CNN se aproveita do caos para voltar ao topo

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postado em 17/01/2010 08:30 / atualizado em 20/01/2010 17:50

“Eu nunca vi nada assim e duvido que verei de novo”. Assim o experiente fotojornalista Damon Winter, do New York Times, descreveu as cenas de horror que registrou em Porto Príncipe desde a última quarta-feira, entre elas a remoção de centenas de cadáveres para uma cova coletiva. “Você tem que suspender as próprias emoções e guardá-las para quando tiver tempo e condições de externá-las. Por enquanto, não temos água, comida nem tempo para lidar com emoções”. Nas primeiras 24 horas após o abalo sísmico, foram as fotografias de amadores e profissionais que começaram a dimensionar a tragédia para o resto do mundo – algumas emissoras, no Brasil e lá fora, exibiram as fotos em slideshows. Mas, com a chegada das primeiras e chocantes imagens do correspondente Ivan Watson caminhando entre crianças mortas e adultos feridos, a CNN passou a dar as cartas no noticiário. E não mais as largou.

cnn.com/Reprodução da Internet - 15/01/2010


Acossada internamente pelo crescimento da concorrente Fox News, que avança graças à linha editorial de oposição ao governo Obama e à contratação de nomes como a ex-candidata a vice-presidente Sarah Palin, a CNN voltou ao topo da relevância mundial com a cobertura do terremoto. Favorecida pela proximidade geográfica dos EUA com o Haiti, as estrelas da emissora logo desembarcaram em massa no cenário da tragédia. E se aproveitaram da ausência de autoridades constituídas para documentar bem de perto o drama do povo haitiano, às vezes chegando ao ponto de gravar com gritos de desespero de crianças soterradas. Muitas vezes havia mais jornalistas em um resgate do que integrantes de equipes especializadas no procedimento.

Uma das maiores estrelas da CNN, o âncora Anderson Cooper chegou a Porto Príncipe na quinta-feira e assumiu o comando da cobertura. “As lentes das câmeras são pequenas demais para capturar o que realmente está acontecendo aqui”, escreveu no Twitter. Na tevê, foi mais contundente: “Aconteceram muitas mortes estúpidas somente porque a ajuda não chegou na hora certa”, criticou. “Sem antibiótico nem outros medicamentos, uma perna quebrada pode te levar à morte aqui no Haiti”, comentou na noite de sexta-feira em conversa com Larry King, outro ícone do canal. No canto da tela, a frase: “Onde está a ajuda?”.

Médico e correspondente da emissora, Sanjay Gupta ganhou o mundo ao aparecer fazendo curativo em bebê que sofrera grave ferimento na cabeça. Virou notícia e foi criticado por gravar o atendimento. “Sou um repórter, mas antes de tudo sou médico”, justificou. A CNN também transformou em celebridade o radialista haitiano Carel Pedre, um dos primeiros a relatar ao mundo os danos causados pelo terremoto, direto de Porto Príncipe. Logo nos primeiros dias, Pedre emergiu como uma voz crítica quanto à reação tímida do presidente René Preval (“pare de se vitimizar, senhor presidente!”) e decretou: “Se alguém não assumir o comando logo para orientar o nosso povo, vai ser tarde demais e triste demais”.


“O desenvolvimento da tecnologia transformou todos nós em testemunhas das grandes tragédias. Mas apenas os jornalistas realmente intrépidos (no meio do caos) conseguem encontrar o local certo para apontar as lentes”, afirmou o repórter Steve Coll, da New Yorker, no artigo Terremotos e Jornalismo. Ao contrário de outras grandes catástrofes naturais recentes, como o terremoto no Irã e o tsunami na Ásia, desta vez as lentes da tevê ocidental chegaram a tempo de registrar, em detalhes e em diversos ângulos, cenas aterradoras – mas nenhuma emissora conseguiu. Com maior poder de fogo do que a concorrência e sem correr (grandes) riscos como no Iraque e Afeganistão, coube à CNN mostrar como ficou o Haiti após o terremoto: sons de desespero, imagens da morte.


» Carlos Marcelo é editor executivo do Correio Braziliense

 

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