Equipes conseguem salvar cinco pessoas dos escombros quase 120 horas após o tremor

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postado em 18/01/2010 08:18

Foram quase cinco dias na mais completa escuridão. Alguns deles provavelmente escutaram o último suspiro dos outros e, provavelmente, acreditaram que o fim era apenas uma questão de horas. Para a menina Ariel (7 anos), os haitianos Lamy (34) e Nadine Cardozo (63), a norte-americana Maria (50) e o dinamarquês Jen Kristensen - membro da Missão de Estabilização da ONU no Haiti (Minustah) -, o alívio veio pelas mãos de socorristas norte-americanos e espanhóis. O terremoto de magnitude 7 que atingiu o Haiti provocou uma carnificina provavelmente sem precedentes na América Latina, mas também milagres. A medicina considera muito pouco provável que alguém consiga sobreviver 72 horas depois do soterramento. Nadine contrariou essa regra: às 6h de ontem (9h) de Brasília, uma equipe da organização Bombeiros Unidos sem Fronteiras (Busf) retirou-a com vida do que restou do Hotel Montana, um dos mais luxuosos de Porto Príncipe. "Nossa equipe resgatou a senhora Nadine, proprietária do Hotel Montana, que se encontra em perfeitas condições. Ela foi enviada à República Dominicana para obter sua recuperação total", contou ao Correio, por telefone, Enrique Fernández, porta-voz dos Busf. "Foram 13 horas de trabalho. Quando foi resgatada, Nadine se identificou e nos agradeceu por termos a retirado com vida", acrescentou. A entidade, baseada em Madri, mantém oito socorristas, três cães farejadores e cinco médicos na capital haitiana. De acordo com Enrique, a equipe trabalha agora nos escombros da Universidade Central de Porto Príncipe - para ele, um dos poucos locais nos quais se poderiam encontrar sobreviventes. Em meio ao concreto do Caribbean Market, os escombros do que já foi um prédio de três andares, Ariel, Lamy e Maria contaram com a sorte para resistir. Ao redor deles, havia quantidade suficiente de comida para mantê-los hidratados. As equipes de resgate remexeram o local por 12 horas, guiadas por murmúrios vindos do fundo. O salvamento só foi possível graças à tecnologia: os bombeiros começaram a focar no supermercado na sexta-feira, após alguém enviar uma mensagem de texto, por meio do celular, afirmando que estava no interior do estabelecimento, próximo a estantes de frutas, carnes e congelados. Segundo a rede de TV CNN, um dos momentos mais comoventes foi a retirada de Maria. O capitão Joe Zahralban, líder da equipe da Flórida, reconheceu a irmã da sobrevivente no local e disse: "Parabéns, sua irmã está viva". A moça não resistiu à emoção e, de joelhos, agradeceu aos bombeiros. Drama Até o fechamento desta edição, a luta era para alcançar a tempo outras pessoas que estavam soterradas no mesmo supermercado. A estimativa dos Estados Unidos é de que mais de 200 mil pessoas morreram durante a catástrofe. Muitas outras tentam escapar do pior. Em entrevista ao Correio, o haitiano Carl Legagneur revelou que o amigo Adolpho Prato, 29, enviou uma mensagem de texto por celular para primos no sábado, debaixo dos escombros do supermercado. "Creio que ele esteja vivo, mas mal, porque estaria sangrando muito%u201D, afirmou. "Ele é um cara muito gentil, uma boa pessoa, por favor, me ajudem a salvá-lo". Nathalie Mathieu, 24, estudou com Adolpho 12 anos atrás e demonstrou preocupação. "No último texto, ele disse que o celular estava quase sem bateria, que sangrava muito e que estaria perto dos freezers", disse à reportagem. Na sede da ONU, o dinamarquês Jen Kristensen foi trazido de volta ao mundo em bom estado de saúde. "Acabaram de resgatá-lo sem um arranhão", comemorou um alto funcionário da Minustah (1), que pediu para não ser identificado, em entrevista à agência France-Presse. Milagres como esse devem se tornar cada vez mais raros. Até o fechamento desta edição, cerca de 70 pessoas haviam sido retiradas com vida dos escombros. 1 - Achado o corpo de mais um brasileiro O Exército brasileiro revelou ontem ter recuperado o corpo do major Francisco Adolfo Vianna Martins Filho, membro da Minustah. Com isso, sobe para 17 o número de brasileiros mortos no terremoto de 12 de janeiro: 15 militares; a médica sanitarista Zilda Arns - coordenadora da Pastoral da Criança -; e o diplomata Luiz Carlos da Costa, número dois na missão da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti. Síndrome do esmagamento é ameaça Para alguns soterrados, o resgate nem sempre é sinal de salvação. Mesmo fora dos escombros, existe a chance de morrerem, vítimas da chamada síndrome do esmagamento, que pode ser letal. Quem garante é o norte-americano Kim Solez, professor do Departamento de Medicina Laboratorial e Patologia da Universidade de Alberta (Canadá) e uma das maiores autoridades em patologia renal do mundo. Em entrevista ao Correio, por e-mail, ele explica que o esmagamento de braços e pernas em sobreviventes de terremotos - lesões relativamente comuns - pode provocar falência renal irreversível. Segundo Solez, o fenômeno ocorre por meio de três mecanismos: o músculo lesionado libera a substância tóxica mioglobina, que se dirige até os rins; a perda do fluido do terceiro espaço (qualquer cavidade do corpo) nos membros danificados resulta em queda no volume sanguíneo; e choque (redução abrupta da pressão arterial). "Juntos, esses fatores causam danos que podem desativar a função renal", comenta Solez. "A situação só pode ser revertida se o paciente se submeter a uma hemodiálise por períodos que variam de uma semana a mais de um mês, dependendo da gravidade da lesão e da rapidez da recuperação". Solez confirma que a pessoa retirada dos escombros pode sofrer morte imediata. "Quando o membro ferido é descomprimido, ele libera potássio e toxinas. A lesão induz à falência renal e à alta concentração de potássio no sangue. Por isso, os rins falham e ocorre a 'inundação' do organismo com substâncias provenientes dos membros lesionados", explica o cientista, especialista em ferimentos decorrentes de terremotos. Enrique Fernández, porta-voz dos Bombeiros Unidos Sem Fronteiras, fala (em espanhol) sobre o trabalho de resgate nas ruínas de Porto Príncipe
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