Devastado, país vive agora mais um drama: o das crianças que perderam seus pais

EUA, Holanda e França se mobilizam por adoções

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postado em 19/01/2010 08:02 / atualizado em 20/01/2010 16:59

Um caminho bifurcado e difícil espera pelas crianças sobreviventes do terremoto que arrasou o Haiti há uma semana. Em uma das pontas, está a possibilidade de ficar no país, que já tinha 380 mil órfãos antes do desastre (segundo a Unicef), e viver o horror da falta de comida, de água e de atendimento do Estado. Na outra, a chance de ir embora para um país desenvolvido, mas nem sempre para encontrar nele uma família de fato capaz de criar filhos. Desde a tragédia da última terça-feira, o número de pedidos de adoção de pequenos haitianos aumentou (1) — segundo os relatos de instituições de defesa da infância —, o que preocupa o Comitê dos Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas (ONU).


Ontem, em Genebra (Suíça), a instituição divulgou um comunicado advertindo sobre as ameaças de sequestros e abusos sexuais escondidas na aparente boa intenção de salvar meninos e meninas do país. Também alertou para a necessidade de garantir atendimento médico urgente e prioridade na alimentação dos pequenos. E a instituição não foi a única a levantar a questão sobre o destino das crianças do Haiti. Em países como Estados Unidos, França e Holanda, onde muitos casais já procuravam haitianos para adoção antes da tragédia, ações para acelerar os trâmites têm sido discutidas, mas não sem polêmica.

Representantes do governo holandês e de agências de adoção embarcaram ontem num avião para buscar 109 crianças cujos processos de adoção já corriam antes do terremoto. Desse total, 56 aguardavam a chegada dos documentos de viagem, e as demais já tinham pais adotivos definidos, mas ainda esperavam que um juiz haitiano aprovasse o processo. Elas serão colocadas em famílias provisórias até encontrarem um lar definitivo.

Patrick Mikkelsen, porta-voz do ministro da Justiça holandês, Ernest Hirsch Ballin, enfatizou que os haitianos seriam adotados por meio de duas agências respeitáveis. “Não pegamos simplesmente crianças nas ruas de modo a trazê-las para outro país”, ele disse. Ainda segundo Mikkelsen, o principal diplomata em serviço no Haiti se encontrou com o presidente do país, René Préval — o qual teria concordado que as crianças seguissem para a Holanda.

Resgate
Nos Estados Unidos, famílias têm pressionado as agências de adoção por mais urgência, dada a situação humanitária no Haiti. A queixa principal é com relação aos processos e documentos, que demoram meses para ficar prontos e podem ter sido perdidos no terremoto. O Departamento de Estado dos EUA, por sua vez, enfatizou que só pode viabilizar adoções que já tenham sido autorizadas pelo governo haitiano.

Ao canal CNN, a secretária de Estado, Hillary Clinton, disse: “Façamos tudo para achar e identificar as crianças adotáveis, para tentarmos emitir a documentação de modo que elas possam encontrar um novo lar”. O porta-voz a instituição, PJ Crowley, completou: “Claro que queremos poder trazer essas crianças para um lugar seguro, mas há questões com relação à condição delas no Haiti, e há um processo legal a que temos que obedecer”.

Na contramão da moderação do governo, a Arquidiocese de Miami, que reúne uma comunidade haitiana considerável, propôs usar um avião e levar centenas de crianças haitianas para a Flórida. Algo parecido já havia sido feito no começo dos anos 1960, quando aproximadamente 14 mil jovens cubanos foram transferidos para os Estados Unidos.

Passaporte
Na França, calcula-se que estejam sendo analisados entre 1,2 mil e 1,5 mil pedidos de adoção de haitianos. Lá, um grupo de famílias apresentou uma solicitação com mais de 12 mil assinaturas para exigir a repatriação urgente dos meninos e meninas. Mas o governo francês disse que, antes de organizar a transferência das crianças, a prioridade é distribuir ajuda ao povo haitiano. “Famílias adotivas cujos procedimentos no Haiti tenham sido completados podem ficar tranquilas: elas serão trazidas à França assim que possível”, garantiu o ministro das Relações Exteriores da França, Bernard Kouchner.

1 - Emergência nacional
Uma das instituições que relataram aumento no número de pedidos de adoção foi o Joint Council on International Children’s Services (JCICS), sediado nos Estados Unidos. Antigamente, o JCICS recebia 10 pedidos mensais de adoção de crianças. Nos últimos três dias, acolheu 150. “Trazer crianças para os Estados Unidos numa época em que o Haiti vive uma emergência nacional pode significar portas abertas para a fraude, o abuso e o tráfico”, comentou a direção da entidade, em nota.


Entrevista Mirlande Hyppolite Manigat
“Meu povo sofre e está muito furioso”

» Rodrigo Craveiro

A haitiana que auxiliou o marido a administrar o Haiti agora amarga a visão de um país destroçado pela dor e pela destruição. Mirlande Hyppolite Manigat, 69 anos, foi a primeira mulher do país a ocupar uma cadeira no Senado. Entre fevereiro e junho de 1988, foi primeira-dama, no governo de Leslie François Manigat. Também é cotada para assumir a candidatura à presidência pelo oposicionista Partido Democrata Nacional Progressista (RDNP, pela sigla em francês), nas eleições de novembro. Em entrevista exclusiva ao Correio, por telefone, de Porto Príncipe, Mirlande falou sobre a devastação na capital haitiana e reclamou da falta de estratégia na mobilização internacional. A secretária-geral do RDNP e professora de direito constitucional da Universidade de Quisqueya contou à reportagem que o tremor do último dia 12 matou dois de seus sobrinhos.

Como a senhora pode descrever a situação em Porto Príncipe?
A situação é espantosa. Realmente, as equipes de socorro estão fazendo varreduras pelas ruas e checando os prédios derrubados. O pior é que dentro desses edifícios há pessoas vivas e muitos mortos. Não existe possibilidade de resgatar os vivos, tampouco de retirar os mortos. Há uma atmosfera absolutamente perniciosa dentro das ruas de Porto Príncipe, porque não há possibilidade (de remoção dos escombros).

Do ponto de vista humanitário, a ajuda começou a chegar?
A situação é a seguinte: há uma grande mobilização internacional a favor do Haiti. No entanto, as pessoas que estão sofrendo não recebem a ajuda de que precisam, como água, medicamentos e alimentação. Meu povo sofre e está muito furioso.

Por que esses mantimentos não alcançam a população?
É uma questão de estratégia. O governo não toma sua responsabilidade com eficiência. A ajuda chega ao aeroporto e aos centros de distribuição… Mas, olhe só: há três horas estou percorrendo as ruas de Porto Príncipe e não encontrei nenhum veículo de ajuda humanitária internacional. A Universidade de Quisqueya se transformou em um verdadeiro hospital. Temos pessoas que perderam suas casas e seus entes queridos. Não há ajuda internacional. Eu faço um chamado para que a ajuda que chega ao Haiti realmente possa ser distribuída às pessoas que precisam.

Falta uma coordenação para o repasse desses donativos?
Sim, falta uma organização por parte do Estado. O Estado não existe. O Palácio Nacional e os prédios do Parlamento, do Ministério dos Assuntos Internacionais etc. caíram. O presidente está vivo, os ministros estão vivos. Eles poderiam se encontrar em qualquer lugar e organizar o recebimento da ajuda internacional.

O que mais faz falta para o Haiti hoje?
O que mais faz falta são máquinas muito poderosas para tirar os sobreviventes dos escombros, para recuperar os mortos. Segundo as últimas estatísticas, há agora mais de 200 mil mortes. Você pode imaginar o que isso representa em termos de saúde pública. Além disso, precisamos de água potável, de remédios, de alimentos. Não existe mais um supermercado aberto, nenhum lugar onde as pessoas podem abastecer.

O desespero da população haitiana pode provocar episódios de violência?
Com certeza, já começaram, já. Há dois riscos: a insegurança física e a insegurança policial. Os especialistas temem que, de um dia para o outro, se possa desatar epidemias. Em relação ao segundo risco, a Polícia Nacional haitiana é ausente. De noite não há luz em nenhuma parte da capital. As pessoas podem fazer praticamente o que tiverem vontade. Essa é uma tragédia monumental, não sei como o país vai sair disso. Mas eu tenho fé e determinação de que nos salvaremos.

Ouça entrevista com a ex-primeira-dama do Haiti
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