Em meio ao caos, haitianos tentam retomar a vida uma semana após terremoto

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postado em 20/01/2010 08:05 / atualizado em 20/01/2010 16:51

Porto Príncipe – Uma semana após o terremoto que arrasou o país e deixou cerca de 200 mil mortos — até ontem, o governo haitiano confirmava 75 mil —, os 3 milhões de moradores da capital do Haiti tentam retomar a vida. Mas a insegurança, o desespero e o cheiro da morte estão por toda parte. Não existe cidade. Sobram fome e sede. O tão propagado reforço norte-americano não se traduz em benefícios à população. Os militares dos Estados Unidos controlam o aeroporto, mas não são vistos nas ruas, diferentemente das forças de outras nações. Essas, no entanto, estão em menor número e com equipamentos insuficientes para minimizar o impacto da catástrofe. Praças, campos de futebol, qualquer lugar plano e sem construção por perto virou acampamento de desabrigados.


O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou o envio de 10 mil homens e mulheres de suas Forças Armadas ao Haiti. Até o momento, desembarcaram no país 2 mil militares. Cerca de 5 mil estariam em um porta-aviões — que exige um batalhão para o seu funcionamento — e em outras embarcações, à espera de ordens. São principalmente médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde. Em Porto Príncipe, o Correio presenciou uma concentração de militares dos EUA apenas no aeroporto e perto de prédios como a embaixada.

Por outro lado, os norte-americanos passaram a dar ouvidos aos brasileiros à frente da Missão de Estabilização da Organização das Nações Unidas no Haiti (Minustah). A pedido dos oficiais brasileiros, os militares dos EUA mudaram a tática de entrega de suprimentos aos sobreviventes do terremoto. Suspenderam o lançamento de caixas com comida, bebida e remédio dos helicópteros. Agora, entregam donativos em pontos previamente escolhidos pelos brasileiros, que mobilizam os moradores e organizam as filas.

Assédio dos moradores
Na ausência de organização e de um grande contingente de militares, torna-se impossível entregar os donativos. “Não dá para parar e dar nada aleatoriamente, fora de um local seguro, porque rapidamente juntam 2 mil pessoas e acabam até estragando o material”, ressaltou o capitão Ítalo Gama Franco Monsores, da Aeronáutica. Ele comandou missões de ajuda humanitária pós-terremoto. A reportagem atestou a declaração do militar por mais de uma vez. Jornalistas e membros das forças de paz são cercados por moradores famintos assim que descem dos carros. Mas sem violência.

Os haitianos pedem de tudo, até máscaras cirúrgicas usadas para que se sinta menos o odor dos corpos em avançado estado de decomposição sob os escombros. Morador de Citté Soleil, a maior favela de Porto Príncipe, Fábio Júnior, 15 anos, contou que não fazia uma refeição havia cinco dias. “E quem mais não come há cinco dias ou mais?”, perguntou, em francês, o adolescente a cinco jovens ao seu redor. Todos levantaram a mão. Fábio Júnior tem esse nome por ser filho de cidadão nascido em Portugal. “Se o Brasil e os outros países não ajudarem, vão todos morrer de fome e de doenças”, apelou.

Para matar a sede, moradores quebraram os canos da rede que abastecia as casas e lojas, agora em ruínas. Munidos de baldes, eles se aglomeram ao redor das fontes que jorram do encanamento danificado. A água não é tratada. Mas os moradores do Haiti estão acostumados a essa condição: não há rede de esgoto no país, que também vive sem iluminação pública. A mesma água é vendida por ambulantes, nas ruas, em saquinhos plásticos. Nas ruas, também são encontradas canas já cortadas, tomadas por moscas. Cada pedaço sai a US$ 1.

Escombros inexplorados
Assim como não se vê nas ruas os militares norte-americanos, também não há equipes de resgate suficientes. Elas trabalham concentradas em prédios onde se tem certeza de que havia muita gente no momento do terremoto, como o hotel que abrigava os funcionários da ONU ou supermercados. Milhares de casas e lojas em ruínas não receberam a visita dos socorristas. O mau cheiro que tomou conta de avenidas inteiras, como a Boullevard JJ Dessalines, importante centro comercial de Porto Príncipe, evidencia o horror da tragédia. Há uma grande quantidade de corpos sob concreto, ferro e madeira. A maioria dos moradores desistiu de revirar os escombros em busca de sobreviventes. Alguns são vistos sobre o resto dos prédios, apenas à procura do que pode ser aproveitado em outra construção. No entanto, não há mais mortos expostos nas ruas, cena comum até dois dias atrás.

Militares brasileiros ajudaram no recolhimento dos corpos. Com a ajuda de tratores, agora constroem um imenso cemitério. Ele terá valas que cabem até 20 cadáveres. Os enterros coletivos já começaram. “Mas, antes, todos os corpos são fotografados, para uma posterior identificação por parte da ONU”, destacou o major Rafaele De Nardi, das Forças Armadas brasileiras.

Orgulhoso, o militar contou que, um dia após terremoto, o Exército do Brasil conseguiu inaugurar um orfanato que a instituição construiu em Koescofe, localidade distante uma hora e meia de carro da capital Porto Príncipe. O prédio abriga 33 crianças haitianas. “Agora, elas têm dignidade”, comentou o major. Em meio ao caos, até os moradores das localidades mais pobres de Porto Príncipe tentam retomar a vida. A reportagem viu homens e mulheres cortando os cabelos em salões de beleza improvisados ao ar livre. Grupos levantando muros de casas que sofreram pequenos danos. Marceneiros consertando móveis. Crianças correndo, brincando em meio às ruas tomadas por lixo e pelo mau cheiro dos cadáveres dentro dos prédios que vieram abaixo. Todos com fome e sede, mas com esperança.

ONU: PAÍS ESTÁ MAIS SEGURO
Edmond Mulet, chefe interino da Minustah, a missão de estabilização do Haiti comandada pela ONU, apontou ontem melhora nas condições de segurança no país. Mulet afirmou que a situação não é de caos e violência generalizada. “A ajuda humanitária está aumentando e a coordenação dessa ajuda com o governo também está melhor”, disse.
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