Serão necessários 10 anos de ajuda internacional para reconstruir o Haiti

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postado em 26/01/2010 08:18 / atualizado em 26/01/2010 08:21

Serão necessários pelo menos 10 anos de ajuda internacional para reconstruir o Haiti. O prognóstico foi dado pelo primeiro-ministro do Canadá, Stephen Harper, na conferência realizada ontem em Montreal para estabelecer uma estratégia coordenada a longo prazo. Diante de altos representantes de quase 20 países e organizações internacionais que têm se mobilizado para ajudar o país devastado, o primeiro-ministro haitiano, Jean Max Bellerive, no entanto, fez questão de assegurar que seu governo tem condições de assumir a frente do projeto de reconstrução. “O Estado haitiano trabalha em condições precárias, mas está capacitado para cumprir com a liderança que a população espera dele”, garantiu. Um encontro internacional de doadores foi marcado para março, na sede das Nações Unidas, em Nova York, a convite dos Estados Unidos.


Breno Fortes/CB/D.A Press
Em seu pronunciamento, o chanceler brasileiro, Celso Amorim, ressaltou a disposição do Brasil (1) em doar cerca de US$ 230 milhões — que inclui os US$ 15 milhões “emergenciais”, que serão repassados à Organização das Nações Unidas (ONU), e o pacote de R$ 375 milhões (aproximadamente US$ 210 milhões) proposto ao Congresso. Outra decisão tomada pelo governo brasileiro foi a de enviar para o país caribenho representantes dos Ministérios da Defesa, das Relações Exteriores, da Saúde e da Integração Nacional, que formarão um grupo, sob a coordenação do embaixador Igor Kipman, para melhorar a comunicação com as autoridades haitianas. Quem acompanha a equipe é o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Jorge Félix, que chega hoje a Porto Príncipe para uma breve visita.

Apesar de destacar que seu governo pode liderar a reconstrução do país, Bellerive afirmou que será necessário um “apoio maciço” da comunidade internacional para garantir a reconstrução. Amorim, por sua vez, reforçou as considerações do premiê, destacando que a ajuda “deve responder aos anseios do povo haitiano e de seu governo”. “Não estamos aqui para substituir as autoridades legítimas do Haiti. Nossa tarefa é contribuir para que o governo do Haiti possa exercer, em sua plenitude e no mais breve prazo, a responsabilidade de definir as prioridades de seu povo e a melhor maneira de canalizar a ajuda internacional”, disse. Ele ainda afirmou que o “desejo de cooperar” não pode se “desvirtuar por obra de ações unilaterais alheias ao trabalho da ONU”, em uma aparente alfinetada à centralização de algumas tarefas por parte de Washington.

Após tantas críticas recebidas nas duas últimas semanas sobre a atuação de seu governo, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, destacou no encontro que é preciso “dotar o governo haitiano da capacidade para liderar” os esforços de reconstrução. .

Abertura de mercado

Amorim também defendeu que a ajuda vá além da doação de recursos e mantimentos e do apoio para a restauração das cidades. “A reconstrução do Haiti passa também pela abertura de mercados para os produtos haitianos, em condições vantajosas”, sugeriu, acrescentando que, no Brasil, estão “avançadas” as discussões com empresários para reduzir tarifas para importações do país devastado. O ministro ainda disse que o governo está “pronto” para conseguir mais apoio internacional, usando a sua rede de contatos no “Oriente Médio, na Ásia e mesmo na África”. Ontem, o Reino da Arábia Saudita anunciou a doação de US$ 50 milhões, por meio do Fundo das Nações Unidas.

Era esperado que os países e organizações presentes discutissem o perdão da dívida internacional do Haiti, estimada em um US$ 1 bilhão, mas, aparentemente, não houve decisão neste sentido. Hillary chegou a afirmar que a discussão sobre isentar o país dessa dívida é “uma importante peça do quebra-cabeça”, mas não informou a posição de seu governo. Antes da reunião, Amorim chegou a afirmar que o Brasil perdoará a dívida do Haiti, “se for necessário”. O Banco Mundial e o Clube de Paris, que reúne países credores, já decidiram abrir mão de cerca de US$ 100 milhões devidos pelo Haiti.


1 - Mais 900 militares
A Comissão Representativa do Congresso Nacional aprovou ontem o envio imediato de mais 900 militares brasileiros ao Haiti. O projeto que passou prevê também a formação de uma reserva de 400 soldados, que poderá ser enviada ao país se o governo achar necessário. Atualmente, cerca de 1,3 mil militares brasileiros estão no Haiti. Durante reunião do gabinete de crise do Governo Federal ontem, o Ministério da Defesa afirmou que a Força Aérea Brasileira já realizou, até agora, 45 voos, com transporte de 798 passageiros e cerca de 399 toneladas de material. Já foram feitos também quatro voos de rodízio de substituição da tropa brasileira.

» A triste estatística da tragédia

Autoridades haitianas divulgaram ontem um balanço em que, embora estimando em 150 mil o número de mortes causadas pelo terremoto de 12 de janeiro, reconhecem ser quase impossível obter uma estatística exata, confiável. A ministra das Comunicações, Marie-Laurence Jocelyn Lassegue, reconheceu, em entrevista à agência de notícias AFP, ser “difícil” obter um número exato, e sustentou que, com os corpos que ainda não foram retirados dos escombros, a quantidade de óbitos pode chegar a 200 mil.

Socorristas franceses que haviam anunciado domingo ter detectado movimentos sob os escombros de um edifício de Porto Príncipe encerraram as buscas durante a madrugada de ontem. “Encerramos as operações, o radar não está detectando mais nada. Avistamos apenas um cadáver cheio de vermes”, declarou o comandante Samuel Bernès, da Segurança Civil, às 23h de domingo (2h de segunda-feira, horário de Brasília).

No sábado, um homem de 25 anos, Wismond Exantus, foi resgatado dos escombros de Porto Príncipe depois de passar 11 dias soterrado. No total, 133 pessoas foram resgatadas com vida dos escombros. Calcula-se que o tremor tenha deixado pelo menos 194 mil feridos e 1 milhão de desabrigados. As equipes com material leve começaram a deixar o país, mas as que vieram com equipamentos pesados passaram a trabalhar na remoção dos escombros.

Os saques estão se multiplicando na capital, sem que a polícia, que perdeu muitos homens na catástrofe, possa fazer algo a respeito. Para piorar, muitos criminosos que estavam presos aproveitaram o terremoto para fugir. Cerca de 4 mil detentos conseguiram fugir da maior penitenciária de Porto Príncipe, que fica em Cité Soleil, o bairro mais pobre e mais perigoso da capital.

A distribuição de alimentos, água, medicamentos e barracas continua. Quase 800 mil pessoas estão alojadas em 500 acampamentos, e cerca de 30 hospitais estão funcionando. Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), com sede em Genebra, são necessárias 100 mil barracas suplementares para alojar, ao menos temporariamente, meio milhão de desabrigados. Pelo menos 235 mil pessoas já deixaram Porto Príncipe rumo às regiões rurais, menos afetadas pelo terremoto, informou ontem a ONU, destacando que a contagem não inclui os haitianos que foram por conta própria para as casas de parentes ou amigos.
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