Haitianos lutam para sobreviver e se reerguer em meio ao trágico rescaldo do tremor

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postado em 31/01/2010 10:24 / atualizado em 31/01/2010 10:35

Renato Alves (texto) e Breno Fortes (fotos) Enviados Especiais
Breno Fortes/CB/D.A Press
Porto Príncipe - Em meio ao amontoado de escombros, de gente perdida, de feridos, os haitianos dão lições de dignidade e de luta incansável pela vida. Quem sobreviveu ao terremoto de 12 de janeiro sem perder perna, braço ou um órgão interno acorda cedo. Veste e calça o que encontra limpo. Banho não toma, por não encontrar água. De carona ou andando, vai ao aeroporto, à base militar, ao hotel mais próximo que continua em pé. Procura um lugar onde concentram-se jornalistas, militares, socorristas, médicos. Sabe que apenas estrangeiros podem ajudar. Mas o haitiano não senta na calçada e pede esmola. Antes de tudo, quer trabalho, uma maneira de conseguir dinheiro e trocar por água e comida. Quem tem forças mas não estudo - a maioria -, se oferece para carregar caixas ou limpar os poucos prédios ainda habitados na capital, Porto Príncipe. Quem tem moto ou carro em condições de rodar e sabe onde encontrar gasolina faz serviço de taxista. Quem fala uma língua além do crioulo vira intérprete e guia. Crianças e adolescentes fazem de tudo. Todos, claro, aceitam as doações das organizações internacionais e dos militares de diversos países acantonados na destruída Porto Príncipe. Se a distribuição é feita de forma ordenada, comportam-se ordeiramente. Esperam a vez de receber o mantimento, em fila, com sorriso e gratidão escancarados. Mas, quando tratados como bichos, recebendo sacos de grãos jogados de caminhões ou helicópteros, agem como tal. No Haiti, pouquíssimos chegam à universidade. Quase ninguém termina o curso superior. E a maioria dessa minoria deixa o país após conquistar o diploma - migra para a vizinha República Dominicana, para os Estados Unidos ou para onde puder, pois dificilmente encontrará serviço na terra natal. Gregory Oretus, 29 anos, faz parte dessa elite. Ele, contudo, decidiu seguir o caminho inverso dos colegas do curso de direito. Continuou em Porto Príncipe. Trabalhava em um escritório conceituado e vivia em uma casa confortável - para o padrão local - até a tarde do fatídico dia 12. O terremoto destruiu o escritório de Gregory. Também pôs abaixo a casa que ele, solteiro, dividia com três primos, a mulher e os dois filhos pequenos de um deles. Gregory agora bate ponto em frente a um dos portões do único aeroporto de Porto Príncipe. Ele e o primo Jean-Herold Baguidy, 28 anos, madrugam à procura de clientes. Assim como centenas de outros compatriotas, abordam qualquer carro que entra ou sai da base. "Posso ajudar o senhor? Falo inglês", apresenta-se o gentil Gregory. Jean-Herold fala apenas crioulo, por isso trabalha como motorista. Mas também faz de tudo para ser cortês. O carro, de fabricação japonesa, pertence a um vizinho da dupla, outro desabrigado. Do que Gregory e Jean-Herold conseguem arrecadar, parte vai para a gasolina escassa e hiperinflacionada e o restante acaba dividido entre os três. Clientes militares Um dos locais de maior concentração de haitianos à procura de emprego é a avenida de acesso ao Campo Charlie, o complexo militar das forças de paz da Organização das Nações Unidas (ONU), que abriga mais de 2 mil militares brasileiros, peruanos e nepaleses. Basta um estrangeiro não fardado pôr o pé fora dos muros altos da base para surgirem dezenas de novos guias, intérpretes e motoristas. Ninguém pede água ou comida, mesmo sem comer há dias, mesmo sem consumir água potável desde o terremoto, mesmo sabendo que o cliente em potencial carrega ao menos uma barra de cereal e uma garrafinha de água mineral na mochila. Também por saber que os moradores e frequentadores do Campo Charlie costumam carregar dólares, um grupo de haitianos retomou a tradicional feira de artesanatos e quinquilharias, já no segundo sábado pós-terremoto. "Mas hoje tem metade do que costumava vir. Certamente, muitos perderam suas casa, seus bens, suas famílias", observa o capitão de fragata Ítalo Gama Franco Monsores, da Marinha, há sete meses no Haiti. Sumido também estava, desde o dia 12, o barbeiro da base brasileira, um haitiano. O barbeiro faz parte do grupo de cerca de 100 haitianos contratados para serviços no Campo Charlie. São cozinheiros, faxineiros, jardineiros. Gente paga pela ONU para realizar trabalhos que tomariam tempo e energia de militares treinados para garantir a segurança das violentas ruas de Porto Príncipe, além de construir creches, asilos, escolas e rodovias. Mas, dentro da base, brasileiros e haitianos só se diferenciam pelos uniformes. Eles comem juntos a mesma comida, usam os mesmos banheiros, têm acesso aos mesmos serviços de saúde. Xodó haitiano
Breno Fortes/CB/D.A Press
Alguns haitianos acabaram adotados pelos militares brasileiros. Um deles, Anaty Foubert, 14 anos, tornou-se o xodó da base. Por onde passa, é saudado por praças e oficiais, que não escondem o ciúme do menino. Se ele usa o boné ou camiseta de uma unidade, integrantes de outra logo chamam a sua atenção: "Já está nos traindo, né, Ângelo?" "Ângelo é o meu apelido, foi minha mãe quem deu. Ela fala que sou o anjo dela", explica o garoto, em um português fluente, aprendido com anos de prática. O carinho, Ângelo retribui com extrema educação e dedicação. Sempre se oferece como intérprete, sem nada cobrar. Não entra em uma sala sem pedir licença. Dá bom-dia, boa-tarde, boa-noite, a todos. Pede bênção aos militares mais velhos. O que não faltam são pretendentes a pai do haitiano órfão de pai. Um deles é um capitão do Exército. Ao saber que o menino seria personagem de uma reportagem, o militar procurou a equipe do jornal com os olhos cheios d%u2019água. "Eu queria ajudar muito mais esse e outros meninos daqui. Eles valem ouro", desmanchou-se o oficial. O primeiro contato de Ângelo com brasileiros ocorreu há cinco anos, quando a primeira turma do exército desembarcou em Porto Príncipe para a missão de paz. A mãe do garoto foi contratada como cozinheira e, como não tinha com quem deixar o filho, o levava para o trabalho. Logo, o menino de sorriso fácil cativou a tropa. Assim como ele, outras crianças que frequentam o interior ou os arredores do Campo Charlie acabaram aprendendo português com os militares brasileiros. Alguns dos meninos saem cedo de casa para as aulas informais em uma escola sem teto, paredes, quadro, lápis e caderno. Fardado, o professor, geralmente um sentinela com não mais de 20 anos, soletra em voz alta as letras ou dita as sílabas da palavra que o aluno tem interesse em saber. Só que o estudante está do outro lado do muro alto, sob o sol forte, muitas vezes sem comer ou beber, apenas interessado na língua dos novos amigos. Doações organizadas
Breno Fortes/CB/D.A Press
Após o terremoto, aumentou o número de crianças do outro lado do muro. A maioria, interessada em aprender a língua dos estrangeiros, para oferecer o serviço de guia e pedir água e comida. Mas doações fora das operações preparadas pelos militares são proibidas. Eles temem que a meia dúzia de meninos gritando "mon grangou" ("Estou com fome") se transforme em milhares de haitianos famintos assim que se espalhar por Porto Príncipe que estão jogando garrafas de água e pacotes de suprimentos sobre o muro do Campo Charlie, onde há montanhas de comida e bebida prontas para serem entregues. As Forças Armadas brasileiras saem diariamente em comboios para ajuda humanitária. Costumam ir aos bairros mais miseráveis, antes dominados por milícias. Ao acompanhar o trabalho de distribuição de comida e água dos brasileiros, nota-se o respeito e a admiração dos haitianos. Antes de tudo, os brasileiros separam as doações em pequenos sacos plásticos e organizam filas. Uma a uma, as vítimas do terremoto recebem na mão sua comida pronta e uma garrafa d%u2019água. Feridos e idosos são carregados pelos militares e têm preferência. Não há empurra-empurra. Muito diferente da desastrada estratégia norte-americana de jogar sacos de grãos dos seus helicópteros para multidões de famintos que sequer têm água para cozinhar. Um combustível para tumultos, agressões e uma grande oportunidade para gangues, que roubam a comida dos mais fracos para revendê-la nas feiras. As cenas da selvageria provocada pela falta de planejamento e insensibilidade levaram oficiais norte-americanos a procurar colegas brasileiros para distribuições conjuntas. Os militares dos Estados Unidos entraram com a logística, seu enorme contingente e suas caminhonetes gigantes, enquanto os brasileiros fazem as relações públicas com os líderes comunitários e organizam as filas para uma operação digna.
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Fabrício
Fabrício - 31 de Janeiro às 15:13
Parabéns pela matéria. É bom ver essa outra realidade de um Brasil solidário e que faz a diferença. A midia em geral só foca na tragédia, mas vocês foram feras demais. Show! Me emocionei.