Um mês depois, o medo persiste no Haiti

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postado em 12/02/2010 09:33 / atualizado em 12/02/2010 12:48

Trambleman. A palavra "terremoto", no idioma crioulo, ainda ecoa por muitas bocas de Porto Príncipe, pronunciada com um misto de medo e luto. O dia de hoje será especialmente doloroso: adeptos do vodu e do catolicismo tomarão as ruas, as igrejas e os cemitérios para louvar a chance de estarem vivos e lembrar seus mortos. Desde as 16h53 (18h53 em Brasília) daquele 12 de janeiro de 2010, pouca coisa mudou na capital haitiana. Pelo menos 217 mil de seus 3 milhões de habitantes morreram sob as construções destruídas pelo tremor de magnitude 7 na escala Richter.


"Tudo continua quase o mesmo. As pessoas ainda dormem do lado de fora de suas casas e o temor de novas réplicas aterroriza todo mundo", contou ao Correio, por e-mail, o empresário Thierry Bijou, 33 anos. "Ainda há necessidade de mais água e comida. Ainda temos corpos sob os escombros", acrescentou. Um trágico recente incidente dá o tom do desespero da população. Na última terça-feira, sete haitianos morreram ao tentarem saquear comida de dentro das ruínas do Caribbean Supermarket, em Delmas, um bairro de classe média.

Bijou compara o que ele e seu povo viveram no último mês ao "inferno na Terra". "No meio de toda essa loucura, você pode ver e sentir a compaixão, o amor entre os haitianos. Eles se ajudam, abrem suas casas para estranhos que perderam tudo. Distribuem comida e água, ainda que não tenham certeza de onde as encontrarão", comenta o empresário.

Regine Saint Clair, 23 anos, tenta retomar a rotina no escritório de contabilidade, mas encontra dificuldades. "Tudo está muito ruim e continua na mesma. Você não pode mais dormir em sua casa e o odor nas ruas é medonho", relata à reportagem, por meio da internet. Ela acredita que muitos soterrados morreram nos últimos dias. "Em alguns lugares, você não sentia o odor nauseabundo dos corpos, que piorou muito na madrugada de hoje (ontem), com a chuva", acrescenta. A contabilista critica a ajuda humanitária e comenta que não houve progresso até o momento. "Algumas pessoas receberam tendas, mas nem todas. Não temos comida suficiente e a água é encontrada mais facilmente", diz Regine.

Chuva

A tempestade - que começou às 4h (hora local) - não apenas espalhou o cheiro da morte, como destruiu várias tendas de campos de desabrigados. Alguns sobreviventes acordaram com os lençóis encharcados, enquanto outros deitavam-se sobre poças d'água em Centre-Ville, a principal praça de Porto Príncipe. Segundo a agência de notícias France-Presse, 1,2 milhão de haitianos perderam suas casas (cerca de 40% da população da capital) e mais de 50 mil famílias foram contempladas com material de emergência. "A coordenação da ajuda melhorou com o restabelecimento das comunicações viárias e telefônicas e os esforços empreendidos pelas organizações humanitárias", afirmou o presidente do Haiti, René Préval. As entidades se apressam em distribuir sacas de arroz de 25kg, lonas e barracas. O mandatário cobrou a melhora na logística do repasse das doações e fez um alerta. "A temporada de chuva vai começar, e temos de nos esforçar para auxiliar as pessoas que ainda estão nas ruas", declarou Préval.

O engenheiro agrônomo Jean-Petit Marseille, presidente do Rotaract Club de Porto Príncipe, lembra que a maior parte da população vive em tendas erguidas de forma precária, com pedaços de tecido e papelão. "A chuva desta madrugada causou grande pânico, raiva e amargura. Os haitianos estão ansiosos e desesperados por não terem acesso às estratégias do governo que possam aliviar o sofrimento a curto prazo e, a longo prazo, reduzir o efeito de outro terremoto", explica à reportagem.
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