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Sem perder a ternura jamais: leia artigo de Ricardo Cravo Albin

O material fala sobre o período da Jovem Guarda

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postado em 24/11/2013 08:04

Rogério Santana/Divulgação

Entre 1956 e 1958, nos EUA, começava a despontar o fenômeno Elvis Presley, o Rei do Rock, levando ao delírio as plateias jovens norte-americanas. E, logo, de boa parte do mundo ocidental, a partir dos filmes que estrelou naqueles anos: Love me tender, Jailhouse rock, Loving you e King Creole, nos quais exibia fartamente seu rebolado quase-erótico para os padrões da época, e ainda sua voz e interpretação que muitos davam como de alma negra. A partir de 1959, outro fenômeno mundial, os Beatles, formava-se em Liverpool, Inglaterra, para estourar na década seguinte como uma referência até hoje cultuada. Os Beatles foram e sempre serão uma era no século 20.



Por aqui, não só absorvemos a identidade rebelde da música estrangeira in natura, mas simultaneamente se forjaram diversas versões dos novos tempos. O que se sentia é que a delicadeza hedonista e contemplativa da bossa nova ia sendo aos poucos atropelada por uma realidade hostil. Os Anos Dourados estavam encerrados, ou melhor, foram abortados abrupta e violentamente pelo golpe militar de 1964. E, em vez das reformas sociais e políticas com as quais tantos tinham a esperança de ver nascer um Brasil mais imponente e justo, o que se viu foi um nó cego que só prometia e assim foi! A perpetuação do atraso das elites dirigentes, considerando-se o problema social um problema apenas de polícia repressora.

Era preciso participar, resistir, lutar, mudar, diferenciar-se para permanecer contemporâneo, ganhar espaço… Ou, na síntese de uma das mais frequentes pichações nos muros da Paris ocupada: “Seja realista: peça o impossível!”. De um lado, crescia a música de protesto, com o engajamento explícito de vários de nossos artistas, buscando tanto deter o avanço do autoritarismo quanto resgatar o que consideravam raízes de nossa nacionalidade, ameaçada pelo imperialismo cultural, econômico e político. O nacionalismo era um elemento forte na época, com a disputa de versões antagônicas deste mesmo Brasil, a do regime militar e seus aliados versus parcelas da população que se colocavam dentro do campo da oposição (democrática ou socialista). Mas, de outro lado, havia extensos segmentos da classe média para os quais o viés político da contestação pouco significava e que acolheram calorosamente a tese mais atenuada do ser jovem num mundo dominado pelo antigo. E foi aí que floresceu a Jovem Guarda.

Era como assumir apenas parte do lema de Che Guevara: “…não perder a ternura jamais”. Foi assim que a música jovem acelerou-se, que a moda jovem adotou botinhas de salto alto (para homens!), calças pantalonas (idem!), cabelos compridos, se possível em desalinho, e, aos poucos, mais e mais colorido. E foi assim que diversas gírias que sintetizavam os conflitos de gerações (e até o namoro, que nem escondia o desejo sexual nem aceitava mais as proibições dos pais) emigraram da música jovem para o cotidiano, transformaram-se em estilo de vida, de um modo praticamente inédito no país. Aliás, nunca mais bisado. Se a bossa nova envolveu um setor influente da classe média, com seu refinamento estético e a visão ipanemense do mundo, a Jovem Guarda, o “quero que vá tudo pro inferno!”, foi um movimento imensamente mais amplo, com popularidade e poder de penetração muito mais intensos em segmentos da sociedade jovem de consumo.

Costuma-se situar no tempo a Jovem Guarda através do programa apresentado na TV Record de São Paulo, com esse nome, entre 1965 e 1968, estrelado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa. O programa representou a oportunidade de que precisavam muitos cantores e conjuntos para se popularizarem, muitos projetados para a celebridade depois que o fenomenal sucesso da dupla Roberto & Erasmo, Quero que vá tudo para o inferno (1966), alavancou o programa, dando-lhe a dimensão de movimento musical (e cultural, claro!).

Apesar de muitas vezes pouco considerada, talvez até por sua quase total ausência de formulação (diferente do tropicalismo e da bossa nova), a Jovem Guarda, por sua própria natureza, não teve fundações políticas, literárias ou puramente estéticas, tornou-se um momento inesquecível daquela geração, com influencia considerável no trajeto histórico da MPB.

Ricardo Cravo Albin é musicólogo, fundador e primeiro diretor do Museu da Imagem e do Som (MIS), no Rio de Janeiro, entre 1965 e 1971. É considerado um dos maiores estudiosos do país em música popular brasileira e suas pesquisas estão no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira (dicionariompb.com.br), com mais de 9 mil verbetes sobre o assunto.

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