Especial Publicitário - Marca do Anunciante

A explosão do iê-iê-iê brasileiro incomodou a turma da bossa nova e da MPB

Os tropicalistas, contudo, trataram de reconhecer o talento dos colegas roqueiros

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 25/11/2013 08:00 / atualizado em 27/11/2013 17:59

Beti Niemeyer/Divulgação

O recente imbróglio envolvendo Roberto Carlos e Caetano Veloso, dois dos principais porta-vozes do movimento Procure Saber, remontou a um tempo em que a música popular brasileira era divida em “grupinhos”. A turma zona-sul da bossa nova, por exemplo, não se misturava com os roqueiros cabeludos da Tijuca. Quando a nascente MPB fervilhou nos festivais da canção e passou a disputar espaço com a Jovem Guarda nas emissoras de tevê, em meados dos anos 1960, sobraram provocações de ambos os lados.



Os antenados tropicalistas, entretanto, já percebiam naquela sonoridade um quê de inovação e se utilizaram desses artefatos na hora de construírem seu som. Os anos provaram que todos estavam certos: a saudável promiscuidade musical fez do Brasil uma referência mundial no assunto.

Editora Abril/Reprodução

Nascida no fim da década de 1950, a bossa nova acompanhou de soslaio a explosão da Jovem Guarda. Apesar de ambas serem populares, era impossível competir: o rock falava mais alto e com mais força à juventude. Atacada por todos os lados, a turma do iê-iê-iê se irritou. Termos pejorativos usados contra eles por DJs e críticos fizeram Erasmo Carlos esbravejar em uma entrevista. “Em primeiro lugar, se a bossa nova continuar esnobe e tão afastada do povo, vai pifar. Eles são sistematicamente contra nós, mas deviam era atiçar fogo numa panelinha que já está esfriando. Como é que têm coragem de nos acusar de cantar versões e músicas estrangeiras, se eles enfiaram o jazz na sua musiquinha nacional?”

Até Wanderléa entrou na briga. A musa da Jovem Guarda, em artigo para a revista Intervalo, mostrou que não era tão “ternurinha” assim, mas uma artista cheia de personalidade. “Os jovens têm energia a despender. Como querem que a gaste? Talvez, como antigamente — voltando de noitadas alegres e atirando tijolos em vidraças para se obrigarem a correr (…) Nós gastamos nossa energia, hoje, de modo muito mais racional e humano, sem destruir coisa alguma: cantamos e dançamos.” O trecho está no livro Jovem Guarda em ritmo de aventura, de Marcelo Fróes.

Arquivo O Cruzeiro/EM/D.A Press

Em meados da década de 1960, a MPB tradicionalista tomava forma, e, com ela, acirrava-se a disputa. A incendiária Elis Regina (que havia estreado em disco cantando baladinhas roqueiras, vejam só) era uma das críticas mais ferrenhas: “De volta ao Brasil, eu esperava encontrar o samba mais forte do que nunca. O que vi foi essa submúsica, essa barulheira que chamam de iê-iê-iê, arrastando milhares de adolescentes que começam a se interessar pela linguagem musical e são assim desencaminhados. Esse tal de iê-iê-iê é uma droga: deforma a mente da juventude. Veja as músicas que eles cantam: a maioria tem pouquíssimas notas e isso as torna fáceis de cantar e de guardar. As letras não contêm qualquer mensagem: falam de baile, palavras bonitinhas para o ouvido, coisa fúteis. Qualquer pessoa que se disponha pode fazer música assim, comentando a última briguinha com o namorado. Por que manter essa aberração?”, disse ela em entrevista.

Passeata contra a guitarra


Em 1967, ao lado de nomes como Jair Rodrigues, Edu Lobo, Geraldo Vandré e até Gilberto Gil, Elis marchou em São Paulo contra a guitarra elétrica. Pouco depois, a MPB iria aderir à sonoridade do instrumento símbolo do rock. “Houve um dia, bem no início da guerra babaca entre a linha dura da MPB e a Jovem Guarda, em que Gilberto Gil me disse que reconhecia os méritos de nosso movimento e de seu efeito avassalador na mudança de comportamento do jovens”, conta Erasmo na autobiografia Minha fama de mau. “Retribuí dizendo que a Tropicália viera para dar um passo além do nosso, com letras mais inteligentes e gente mais cabeluda e extravagante do que nós. Terminamos a conversa abraçados, desejando sucesso um ao outro.”

Para Nelson Motta, no livro Noites Tropicais, a rivalidade MPB versus Jovem Guarda era tudo o que a TV Record poderia querer. A emissora musical paulistana abrigava o principal festival da época e os mais importantes programas dos dois gêneros. “Aquilo gerava polêmica, debates e paixões, num tempo em que música popular era discutida nas ruas de São Paulo como se fosse futebol”, relembra o jornalista.

No mesmo festival que consagrou a MPB de Edu Lobo (Ponteio) e Chico Buarque (Roda viva) e deflagrou o tropicalismo de Caetano Veloso (Alegria, alegria) e Gilberto Gil (Domingo no parque), em 1967, o “roqueiro” Roberto Carlos classificaria como intérprete, sob vaias, o samba Maria, carnaval e cinzas. O Rei adentrara, enfim, o rol dos grandes.

“Hoje, quando você vê um encontro entre Roberto e Caetano na tevê cantando bossa nova, a história está sendo reescrita”, opina a historiadora Eleonora Zicari. Da mesma forma, quando Roberto, Caetano, Erasmo, Gil, Chico e companhia se juntam em torno do Procure Saber, a trajetória dos artistas ganham novo capítulo. Só que, neste caso, o descompasso no discurso do grupo e a possível ruptura entre Caetano e Roberto via jornal soam bem menos gloriosos do que as discussões estéticas que pautaram a MPB de outrora.

Eles também entraram na onda do iê-iê-iê


Elis Regina
Continental/Divulgação

O álbum de estreia da gaúcha, Viva a brotolândia (1961), entrou com os dois pés na música jovem e abusou das versões de canções estrangeiras. Elis tinha apenas 16 anos na época. Em 1965, ela venceu o Festival da Excelsior com Arrastão e se tornou ícone da MPB.

Jorge Ben

O criador de Mas que nada gostava tanto de rock que tinha o apelido de Babulina, em alusão à música Bop-A-Lena. Ben participou de programas da Jovem Guarda, gravou disco acompanhado do The Fevers e trocou o violão acústico por um amplificado. Os puristas implicaram; ele nem se importou.

Raul Seixas
Continental/Divulgação

Com capa inspirada nos álbuns da época, sobretudo dos Beatles, o baiano estreou em disco com o conjunto Raulzito e os Panteras, em 1968, em que assinava a maior parte das canções. Raul é autor de Doce, doce amor, sucesso de Jerry Adriani, e produziu discos dele e também de Leno e Lilian.

Tim Maia

Também Babulina (pelo mesmo motivo de Ben), o maior soulman brasileiro era tijucano e amigo de infância de Erasmo Carlos. Com Roberto, em 1957, integrou o grupo The Sputniks. Roberto o gravaria alguns anos depois. Tim produziu disco de Eduardo Araújo.

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.
 
PEDRO
PEDRO - 25 de Novembro às 15:53
1) O nome da música de Jorge Ben (Jor) é MAS, QUE NADA, não Mais que Nada. 2) O apelido de Babulina, dado a Jorge Ben, vem da música Bop a Lena (pronúncia aproximada: %u201Cbapalina%u201D), cantada por Ronnie Self, um roqueiro branco americano, que fez sucesso nos fins dos anos 50/início dos 60. Não
 
Thiago
Thiago - 25 de Novembro às 11:36
Lixo apoiado pela ditadura para alienar a população.