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Bossanovista Roberto Menescal curtia o som de Roberto Carlos

Figura fundamental da música brasileira no século 20, o cantor não podia contar a ninguém do gosto musical

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postado em 25/11/2013 08:01

Cadu Dias/Divulgação

Rio de Janeiro — Mais do que uma rivalidade estética entre a sua bossa nova e a Jovem Guarda de Roberto, Erasmo e Wanderléa, Roberto Menescal acredita que a geografia do Rio de Janeiro tenha sido um fator fundamental para que houvesse uma divisão entre os dois estilos. Havia novidade e juventude em ambos os movimentos, mas os públicos eram outros. O violonista Menescal curtia o som de Roberto, mas tinha que guardar para si. Nessa entrevista ao Correio, o autor de O barquinho relembra o dia em que recebeu a difícil missão de dizer ao novato Roberto Carlos que ele parasse de imitar João Gilberto e detalha os bastidores do disco que Nara Leão gravou só com canções da principal dupla jovemguardista. E admite: “A bossa nova ficou meio que em segundo plano com a chegada da Jovem Guarda.”



Como era a atmosfera daquele momento em que conviviam bossa nova e Jovem Guarda?

Na época, a cidade do Rio de Janeiro era partilhada. Hoje, é tudo ligado. Você pega o túnel Rebouças, saindo da Zona Sul, e, se o trânsito estiver bom, em 15 minutos você está na Zona Norte. Mas, antes, para ir de Copacabana para a Tijuca era quase como ir ao Acre. Por exemplo, quando a gente ia à praia, as meninas da nossa turma comentavam: “Ih, chegaram as tijucanas”. Era pelo andar, pela roupa, tudo. As bossas eram diferentes. A Zona Norte não tinha praia, mas tinha os bares da noite, as motos-lambretas. Então, eles tinham uma característica visual muito forte. Eles venderam não só a música, mas a atitude, o comportamento, o vestuário.

Roberto Carlos tentou participar da bossa nova.

Quando a gente começou, ali por 1957, tinha um famoso produtor, o Carlos Imperial, que era safo pra burro e falou assim: “Vou trazer o Roberto Carlos, que é um cantor legal, para cantar bossa nova”. E trouxe. Ele cantava muito legalzinho. Tinha uma música chamada Brotinho sem juízo. E ele cantava, mas Roberto tem uma coisa meio fanha (imitando): “Aaí, bicho, como é que é?” Então, ficava igual ao João Gilberto. E o pessoal falava: “Pô, esse cara imitando o João Gilberto e o João fazendo sucesso aí”. Me escolheram para dar o toque nele, claro.

E como foi?

A gente fez um show num clube e ficaram insistindo. Chamei ele num canto, sentamos num degrau da escadaria e falei: “Cara, tá rolando isso e aquilo”. E ele: “Pô, mas eu não imito, rapaz. Tenho a voz parecida. O que eu vou fazer?” E eu: “Pediram para eu falar com você”. E ele perguntou: “Mas você acha?” “Eu também acho”, respondi. “Na verdade, eu não iria falar com você, mas o pessoal me elegeu”. Ele perguntou o que deveria fazer e eu o aconselhei a tentar mudar o jeito de cantar ou partir para outra. Roberto ficou triste, mas agradeceu a franqueza. Ele sumiu. Quando voltou, já estava nas tardes de domingo da televisão com a onda do rock. Eu comecei a ver e fui gostando muito dele.

E o pessoal da bossa nova, os seus colegas?

Eles achavam ridículas essas musiquinhas. E eu ficava na moita, sem dizer que gostava... Aquelas roupas de rock, casacos de couro com muito metal, muito adereço. E nós nem pensávamos em roupa. Comecei a gostar deles, mas não podia falar para a turma. “Como é que você gosta do Roberto Carlos, Martinha, ‘você é o tijolinho que falta na minha construção’?” Aí a imprensa aproveita essa dissidência e provocava um, provocava outro. Ronaldo Bôscoli dizia: “Essas letras eu faço 100 por dia”. Aí juntou o Erasmo, Roberto e Imperial e foram fazer uma matéria para a Manchete. “Nós estamos muito preocupados com a bossa nova, que não nos quer”. Aí eu pensei: somos muito babacas mesmo. Eles estavam pouco se importando com a gente. Eu lembro que fiz um show com a Cláudia, e estavam na plateia Gal, Bethânia, Caetano... Era 1966. Acabou e todo mundo foi dançar. E o que tocou? “Meu calhambeque, bibi”. Todo mundo dançando e eu sentado na cadeira. Eu não podia, o pessoal ia ver. Mas eu estava doido pra dançar.

As letras românticas eram uma característica comum.

Eles vinham pelo caminho de Elvis Presley, mas esse discurso queridinho não era um elemento do rock. Se formos falar em termos de letras, o rock não era a inspiração deles. Pode ser que essa coisa mais doce seja uma coisa da época. Realmente era um clima muito romântico. Você vê “o amor, o sorriso e a flor”, tinha muita poesia e delicadeza. Não é que eles tenham pegado isso da bossa nova, mas a bossa entrou nesse clima da época e eles também. Só que as músicas foram muito diferentes.

Você dirigiu o disco em que Nara Leão gravou apenas Roberto e Erasmo.

Nara se separou do Ronaldo Bôscoli e disse que ia largar a bossa nova. Foi aí que ela descobriu o samba, outros ritmos, e começou a ir na contramão das coisas. De repente, ela disse para mim: “Eu tô com vontade de gravar um disco inteiro com músicas do Roberto e do Erasmo, o que você acha?”. Eu disse que ia ser algo importante para a gente se juntar. Porque, na verdade, todo mundo se adorava e ficava essa bobagem. Ela fez um disco que se chama E que tudo mais vá pro inferno (1978), com a levada um pouco mais bossa do que rock. Acabou a rivalidade.

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