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Historiadora analisa a relação entre a Jovem Guarda e a MPB da época

Eleonora Zicari Costa de Brito é doutora em história pela Universidade de Brasília e pesquisadora na área de história e música

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Fenômeno musical que sacudiu o país nos anos 1960, a Jovem Guarda foi vista ora como responsável por conectar a juventude da época com posturas bastante transgressoras, ora como um movimento que domesticou essa mesma juventude. Revolucionária ou conservadora, a depender do ponto de vista, essa experiência representou um importante canal de expressão dos anseios juvenis, e ajudou a configurar o universo imaginário de boa parte da juventude brasileira.


Transmitido pela TV Record, o programa Jovem Guarda foi o maior sucesso televisivo do ano de 1966. Numa década em que a música invadiu a programação da televisão, a atração dividia espaço com outros musicais produzidos pela própria Record, como O fino da bossa, comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues, representantes da nascente MPB. Isso ajuda a explicar o incentivo da emissora a batalhas travadas entre representantes da MPB e da Jovem Guarda com seu rock no estilo iê-iê-iê. Acirrar os “conflitos” entre essas vertentes musicais divulgadas pela Record era um dos meios de garantir os altos índices de audiência dos programas e promover a adesão apaixonada dos fãs. Além disso, o avanço comercial alcançado pela Jovem Guarda fez de sua música uma fórmula de sucesso.

A imagem comumente veiculada de que existia um isolamento da Jovem Guarda frente a outros redutos musicais pode ser contrariada por algumas evidencias. Um exemplo disso é a reportagem publicada em dezembro de 1968 na revista Realidade, em que Gal Costa e Caetano Veloso discorrem sobre o importante papel do iê-iê-iê para a transformação do cenário musical brasileiro. Na matéria, Gal “recusa-se a aceitar a hipótese de um abismo entre a Jovem Guarda e o tropicalismo”, e Caetano salienta que “Roberto derrubou padrões estabelecidos”, colaborando para que se ultrapassasse o “tipo de música quase acadêmica” na qual a bossa nova se transformara. A gravação, em 1969, por Gal Costa, da canção Meu nome é Gal, de autoria de Roberto e Erasmo Carlos, demonstra a sintonia entre esses artistas. E nunca é demais lembrar a bela interpretação que Elis Regina deu em 1970 para As curvas da estrada de Santos, outro sucesso da dupla, composta em 1969.

A postura aguerrida de alguns importantes nomes da MPB “contra as guitarras elétricas”, ou seja, contra a Jovem Guarda, explícita na passeata que em 1967 abria o novo programa da Record, Frente única pela MPB, foi contrabalançada pelo posicionamento de Nara Leão, representante daquela vertente e musa da bossa nova. Para ela, o evento do qual não participou, mais parecia “uma passeata do Partido Integralista”, como relatado por Caetano em seu livro de memórias. Não por acaso, em 1978, Nara grava um LP inteiro com canções de Erasmo e Roberto Carlos, e entre elas alguns sucessos da Jovem Guarda.

Entender o fenômeno da Jovem Guarda, portanto, implica questionar as narrativas que em seu tempo e em períodos posteriores ajudaram a construir imagens sobre o grupo. Nem tão alienados como nos fazem supor certos discursos, a Jovem Guarda inscreveu com sua experiência um novo modelo de juventude, transmitido por uma maneira de se vestir – a mini saia, os cortes de cabelo modernos, acessórios e bijuterias – de lidar com o corpo, de falar de seu universo, nem que para isso fosse preciso mandar tudo pro inferno.
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