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Ronnie Von, o Pequeno Príncipe, lembra relação com artistas da Jovem Guarda

Apesar do perfil diferente do padrão dos garotos da Zona Norte do Rio de Janeiro, o hoje apresentador de tevê decidiu aderir ao iê-iê-iê

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postado em 27/11/2013 06:02

Pedro Colon/Divulgação
Conhecido como Pequeno Príncipe, o hoje apresentador de tevê Ronnie Von vinha de família rica e conservadora e tinha inspirações na música erudita. Apesar do perfil diferente do padrão dos garotos da Zona Norte do Rio de Janeiro, decidiu aderir ao iê-iê-iê. Dono dos hits Meu bem (versão para Girl, de John Lennon) e A praça, conseguiu considerável sucesso na época da Jovem Guarda, mesmo sem pertencer ao programa. Foi o suficiente para o lançarem como candidato ao trono de Roberto Carlos.


O programa O pequeno mundo de Ronnie Von, quando surgiu, foi um contraponto à Jovem Guarda? O que diferenciava os programas?

Não eram ideias diametralmente opostas. O problema é que vivemos num país rotulador: ou é amigo, ou inimigo. A música do povo jovem era o iê-iê-iê, e em 1965 surgiu a Jovem Guarda, programa capitaneado por Roberto Carlos, com uma visão simplista, ingênua e divertida. Ao mesmo tempo, essa geração - na qual eu me incluo - revolucionou o comportamento social da época, apenas pela música. Tudo muito influenciado pelos Beatles. Na verdade, fui colocado no programa para ir para a “geladeira”, fui contratado para ser anulado, mas acabou tendo audiência e até lancei Os Mutantes. O que deve ser entendido é que o iê-iê-iê era um movimento, e a Jovem Guarda um programa de televisão.

Como foi isso de ser anulado? Tem a ver com a “disputa de trono” com o Roberto Carlos?

Pois é. Não sei de onde partiu isso. Eu ligava para o Roberto, e ele jamais me atendeu à época. Creio que é coisa de assessor que faz a cabeça do artista. A Record tinha uma programa mensal todo dia 7 com shows. Uma vez foi o Roberto cantou logo antes de mim e, quando entrei, fui ovacionado. No mês seguinte, a mesma ordem, e também recebi uma grande “ovação”: a plateia jogou ovos em mim. Fui chamado de “usurpador do trono do Rei”.

Você falou dos Mutantes. Há várias versões para a origem do nome. Uma delas diz que eles eram Os bruxos e depois ganharam essa alcunha. Como foi?

Eram dois grupos totalmente diferentes. Os Bruxos era uma banda minha, ligados na música erudita. Um dos integrantes, o Dinho, foi baterista dos Mutantes, após Os Bruxos se desentenderam e acabaram. Daí vem a confusão entre ambas. A origem do nome é bem simples: a Rita Lee estava na minha casa, eu estava lendo um livro de ficção científica, O império dos mutantes, que estava na mesa de centro da sala, vi e sugeri.


Voltando à Jovem Guarda, em algum momento você foi convidado para fazer parte do programa?

Não, pelo contrário. Se alguém da Jovem Guarda fosse ao meu programa, jamais poderia pisar lá.

Como foi quando os artistas da Tropicália foram ao seu programa?

Eu me senti vingado quando Caetano e Gil apareceram. Eu tinha uma ligação impecável, na época, com o Caetano (Veloso) e fundamentalmente com o Gil - ele era muito respeitado pela mídia impressa, que era fundamentalista com música. Quando apareceu a Tropicália, achei maravilhoso. Gravei discos com o Caetano, Duprat, participei bem dos inícios do movimento. Acabei acreditando, “empresários” fizeram minha cabeça, aliás, que seria um movimento efêmero. Larguei, apesar de aquilo ser o que eu queria musicalmente. Às vezes as pessoas usam o lugar-comum de dizer: “se eu voltasse, não mudaria nada”. Eu não! Errei muito mais que acertei, por que iria errar de novo se voltasse? Desliguei-me da Tropicália, por interesse econômico, e hoje me arrependo.

Você era visto como bonito e educado, perfeito para estrelar campanhas comerciais. Por outro lado, acusavam você de ser um ídolo pré-fabricado. Como encarava isso e como acha que sua presença repercutia entre outros artistas?

Eu sofri o preconceito às avessas. E isso me fez pensar em desistir de tudo. O pré-fabricado aqui era herdeiro de mercado de capitais (o pai de Ronnie era presidente do Instituto do Açúcar e Álcool (IAA), só que queria ser cantor. A família virou as costas, o pré-fabricado não pôde se manter. Vim para São Paulo e fui morar num lugar que hoje chamam de cracolândia. Ainda assim, tive de ouvir “esse filho de papai está ocupando o lugar de outras pessoas que realmente precisam”. Só que eu deixei tudo no Rio e fui reinventar minha vida. Na época, o sucesso no iê-iê-iê só era aceito se sua origem fosse extremamente humilde. Se fosse rico, só poderia fazer bossa nova ou jazz. Hoje sou empresário de comunicação e posso dizer: não existe ninguém no nosso país alguém capaz de criar essa idolatria. Não existe dinheiro, talento e savoir-faire. O pré-fabricado continuou em 1966 e ainda está aqui em 2013. Eu realmente não sei de onde surgiu isso, mas havia uma corrente ligada a essa outra área do iê-iê-iê que me pegou de pau na época. Imagino que foram de empresários com ligação com a mídia impressa. Estou vivo 47 anos depois nesse mercado! Alguns amigos meus da época me disseram para eu não entregar os pontos. Isso me marcou profundamente. Existe esse tipo de perversidade, tudo é corporativismo nesse país. Junta um grupo e diz “isso é bom ou isso é ruim”. Eu estava na contramão da época, onde sempre andei. Foi um começo muito duro.

Se procuramos na internet, temos várias versões para a origem de seu apelido de Pequeno príncipe. Qual a verdadeira? O apelido influenciou sua aparência ou vice-versa?

Isso nasceu no programa de televisão. Meu pai, à época, conseguiu um acordo muito grande, ele era presidente do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), para ir aos EUA. Houve uma queda brutal na produção de beterraba nos EUA e eles estavam sem açúcar. O governo brasileiro queria priorizar o sucesso das usinas do nordeste, que estavam decadentes - e as de São Paulo, muito bem. Meu pai colocou o açúcar a um preço bom de compra para eles e de venda para nós. Virou primeira página do NY Times. Aí foram entrevistá-lo na Hebe.

Marcaram o programa para mim também, que estava em começo de carreira. Foi armado: comigo e com meu pai. Ele já havia se conformado com o fato de eu ser músico. Ele falou de mim: “estou no IAA e meu filho no iê-iê-iê”. Entrei em cena, abracei meu pai, e a entrevista continuou. Ele disse que eu era aviador, e ela “como assim? você não tem cara de aviador! esse cabelo grande (de rock)”. Aí ela lembrou do Antoine de Saint-Exupéry, que era aviador e escritor, e disse “ele não é a cara do Pequeno Príncipe? (obra principal do autor francês)”. Tive que segurar esse rojão muito tempo. Li e reli o livro para ver do que se tratava. Comecei a falar dele no programa e começou a vender muito, foram 500 mil exemplares. A detentora dos direitos, dona Consuelo de Saint Exupéry (falecida em 1979 e à época viúva do autor), quis me conhecer, e me enviou uma miniatura de Pequeno Príncipe, feita na Tchecoslováquia. Ela está em um lugar de destaque da minha casa - sou colecionador de arte e é minha peça preferida.

Os artistas do iê-iê-iê foram acusados de contribuir para a alienação dos jovens durante a época da ditadura militar. Qual a sua opinião sobre o assunto?

Acho muito pesado definir assim. Não foi exatamente isso, a alienação é passível de discussão. Todo mundo dizia isso naquele tempo. Era uma ingenuidade, alguém com formação acadêmica não pode desprezar uma forma de arte. Aquilo tinha uma importância na mudança de comportamento. Era entretenimento de garotada para garotada. É o equivalente a dizer que hoje o Justin Bieber está alienando o público.

Sua época psicodélica, com discos como A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre contra o império de Nunca mais e Máquina Voadora, fizeram maior sucesso posterior na internet do que na época. Por que acha que isso aconteceu?

Ninguém queria vender esse tipo de música na época. Jogaram fora cópias do disco na minha frente. Disseram que eu estava destruindo a gravadora. Foi um fracasso de vendas. Foi um susto: vi uma publicação austríaca, anos depois, e lá estava minha obra entre as importantes do mundo entre os discos psicodélicos?

O que acha de ter sido lançado como uma promessa de sucesso comercial e hoje ser cultuado em um segmento da cena underground?

Meu filho Leo Von (também músico) me mostrou uma comunidade do Orkut, com textos que me fizeram muito feliz. “Eu amo tio Ronnie, assisto tio Ronnie, tio Ronnie é rock’n’roll na veia, tio Ronnie é psicodelia pura”. Cerca de 30 bandas regravaram meu material, em 2007, com material para a internet. A recompensa tardou, mas não falhou. Foi como ter minha juventude de volta.

Olhando para trás, o que acha da época do iê-iê-iê?

Seja de uma maneira “alienante”, seja com um fundamento um pouco mais denso, o fato é que essa geração, da qual eu me orgulho de ter feito parte, mudou o comportamento do mundo. Mudamos o comportamento do planeta em uma revolução sem tiros. Participei disso, de forma modesta, e é motivo de orgulho para mim.
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