Correio Braziliense

Perdoar: verbo reflexivo

O perdão exige reflexões e coragem, para antes de mais nada, perdoar a si mesmo. O ato desfaz nós emocionais, evita doenças e torna a vida mais leve


postado em 12/12/2018 20:34 / atualizado em 12/12/2018 21:35

A história humana é cheia de pecados, desde eventos bíblicos – como Adão e Eva comendo o fruto proibido – a terríveis momentos históricos, como o nazismo. Reservada às proporções, estamos todos sujeitos a ofensas, trapaças e mágoas. Mas Natal é tempo de se inspirar na trajetória de Jesus, que pregou que o perdão é o caminho para a cura.

 

Não importa a crença ou a religião, porém. Fato é que perdoar é um desafio bem humano. “O perdão não deve ser tratado como algo santo. É um processo durante o qual reconhecemos que nós poderíamos ter feito a mesma coisa que aquela pessoa que nos feriu fez”, explica a psicóloga Thirza Reis.

 

Muitas vezes, acredita-se que aquela mágoa ficou no passado, mas a verdade é que continua interferindo na vida de quem a sente. Por isso, é preciso perceber as emoções para se conhecer e, consequentemente, mudar e viver com mais leveza. “O ressentimento é a raiva que não está latente mais, mas que a gente fica remoendo. O desafio é acolher essa sensação, escutá-la, reconhecê-la, tratá-la com carinho, sem se julgar”, recomenda Thirza.

 

Perdoar também não significa tornar-se melhor amigo do desafeto. Para a psicóloga Luciana Maria Dias, em alguns casos, afastar-se de quem nos fez mal pode até ajudar no processo de desculpar, permitindo uma análise mais neutra e empática. A especialista acrescenta que perdoar ajuda a evitar doenças; melhora os relacionamentos e nos desafia a viver o momento presente, além de ensinar a lidar com frustração e conflitos; de reconhecer nossos erros; de aprender com as falhas dos outros e de utilizar todos esses recursos para o desenvolvimento pessoal.

 

 

 

Pai e filha (re) unidos

 

Mayara precisou passar por um processo de autoconhecimento para perdoar o pai, Cayê(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Mayara precisou passar por um processo de autoconhecimento para perdoar o pai, Cayê (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

 

Mayara Milfont, 29, empresária, e o pai, Cayê Milfont, 61, músico, passaram 20 anos afastados emocionalmente. Ela tinha 8 anos quando o casamento dos pais acabou e Cayê foi para o Rio de Janeiro, onde mora atualmente. “Eu ligava sempre, vinha a Brasília e a encontrava, mas, para ela, foi um abandono e eu não sabia”, lamenta. Ele, que sempre tinha sido um pai presente e carinhoso, tornou-se um pai a distância, que se esforçava, mas a situação era difícil para a criança. “Era uma relação muito fria.” lembra Mayara.

 

Ciente de que o afastamento do pai era um trauma que ela deveria superar, a moça fez terapia. Tentava perdoá-lo escrevendo cartas, com o objetivo de colocar para fora o que sentia, mas o ressentimento não se dissolvia. Tudo mudou quando decidiu fazer um curso de inteligência emocional. “Foi uma imersão em mim mesma, de autoconhecimento. Entendi que precisava me entender e perdoar o meu pai, ou as histórias de abandono se repetiriam na minha vida”, concluiu.

 

Chamou o pai para conversar, que ficou surpreso com a mágoa da filha. “Para mim, eu não deveria expor meu sofrimento com a separação para crianças, e imagino que isso tenha criado uma lacuna entre nós. Foi um privilégio ouvi-la, descobrir como ela se sentia e poder consertar as coisas.”

 

A reconciliação só fez bem a ambos. Ano passado, estiveram juntos no primeiro Natal depois de muitos anos. O perdão fez com que Mayara passasse a ver qualidades onde, antes, só via os defeitos. “Não foi só com ele que meu olhar mudou. Eu era uma pessoa que criticava muito. Passei a olhar os outros com mais empatia e a entender que as pessoas só agem de determinada maneira por causa do que elas viveram. E que raiva e ódio só contaminam a nós mesmos. O perdão liberta, traz paz e amor”, afirma. 

 


Aprendendo a desculpar a si e ao próximo

 

Sara entendeu que precisava se perdoar para perdoar o próximo(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Sara entendeu que precisava se perdoar para perdoar o próximo (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

 

Sara Guimarães, 22, estudante, sempre se cobrou muito. Sentia-se mal, chorava, se isolava quando achava que não correspondia às expectativas: as suas e as do outro. Resolveu, então, procurar terapia. “Além disso, eu tinha acabado de terminar um namoro e não me perdoava por isso.”

 

A psicóloga Luciana Maria Dias explica que “se perdoar é o início para perdoar o outro, por isso, se torna mais complicado”. Segundo ela, temos forte tendência a nos concentrarmos no passado e, com ele, vêm os ressentimentos. “Prova disso são os altos índices de pessoas diagnosticadas com ansiedade e depressão”, observa.

 

No tratamento, Sara fez um exercício de uma semana, durante o qual deveria tentar observar os defeitos e as virtudes em si e em algum desafeto. “É uma experiência de olhar para o outro e tentar ver coisas positivas, entender o que o levou a fazer certas coisas e também de me valorizar.”

 

Para a jovem, todos esses sentimentos contra si e também contra pessoas com quem não se dava bem lhe faziam mal. Quando encontrava alguém com quem não tinha vivido experiências boas e que não conseguia perdoar, se desequilibrava: “Eu ficava irritada e todo o meu dia era pior. Eu emanava uma energia ruim, pesada para tudo e para todos.”

 

Nesse processo, o coração ainda tem ressalvas, mas Sara, agora, já sabe que o perdão é mais importante para ela do que para quem é perdoado e, mais do que ninguém, ela precisa se tratar com carinho. 

 

 

 

 

 

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