Correio Braziliense

Muitos abraços, dezenas de beijos, mas um só presente

O tradicional amigo-secreto soluciona uma questão simples de matemática: amigos demais e dinheiro de menos. A brincadeira é divertida e garante que todos sejam presenteados na noite de Natal


postado em 12/12/2018 21:19 / atualizado em 14/12/2018 16:08

Fim de ano é tempo de confraternizações, e, por isso mesmo, é período de despesas extras. Entre elas, está as dos presentes de Natal. E, por mais que a gente queira, nem sempre o orçamento nos permite dar mimos a todas as pessoas queridas, seja porque a lista é numerosa, seja porque a grana está curta mesmo.

 

É aí que entra o conhecido jogo de amigo-oculto, para aliviar o bolso sem deixar ninguém de mãos vazias. A brincadeira pode ser feita da forma tradicional: sorteiam-se as pessoas, cada uma compra o presente para o respectivo amigo e, no momento da troca das lembranças, faz-se um discurso sobre as características dele para que os demais tentem adivinhar de quem se trata.

 

Dentro desse padrão, algumas regras podem garantir a ordem do jogo. Para que ninguém fique insatisfeito com o presente, uma opção é os participantes indicarem o que querem ganhar; para evitar prejuízos, comprando algo muito caro e ganhando algo barato, é possível estipular uma faixa de preço. Outra dica é definir temas para o troca-troca: pijamas, bebidas alcoólicas, chocolates, livros, por exemplo. Isso dá um rumo para a escolha do que comprar, além de padronizar os presentes.

 

Que o amigo-secreto nos una

 

Há mais de duas décadas, esses amigos mantêm a tradição de trocar presentes secretos no Natal(foto: Barbara Cabral/Esp.CB/DA.Press)
Há mais de duas décadas, esses amigos mantêm a tradição de trocar presentes secretos no Natal (foto: Barbara Cabral/Esp.CB/DA.Press)

Os amigos Arthur Tadeu Curado, 37, ator e dramaturgo; Ronie Bitu, 40, fisioterapeuta; Marina Rampazzo, 37, psicóloga; e Mayra Resende, 37, oficial de comunicação social do Exército, mantêm a tradição da brincadeira há 25 anos, desde que todos estavam na 5ª série do ensino fundamental. “Como somos amigos de muito tempo, nunca trocamos um presente pelo valor, mas pelo carinho que se coloca na escolha. Pensamos sempre em algo que faça o outro sentir o afeto que temos por ele”, explica Mayra.

 

Embora a correria da vida impeça que o grupo se encontre com a frequência com que gostariam, eles garantem que, em todos esses anos de amizade, há eventos que eles jamais perdem: casamento, velório e, claro, o amigo-oculto de fim de ano.

 

Com tanta história, eles embaralham a narrativa e os personagens. Ao olhar para trás, esquecem causos, confundem presentes, confundem sorteados, confundem os temas da festa. Uma delas é a de quando completaram duas décadas de amizade e eles precisavam escolher 20 presentes para o amigo-oculto. Arthur tirou Mayra e deu à moça uma caixa com diversos itens de papelaria, de que ela sempre gostou.

 

Em outra ocasião, a ideia era fazer o presente, e Carol transformou uma poesia de Drummond em quadro, especialmente para agradar a Arthur. Quando o tema da brincadeira era desapego, Marina deu uma blusa dela que a amiga adorava. Marina também amava a peça, mas abriu mão em nome da brincadeira.

 

E em meio a histórias bem-sucedidas, também houve frustrações que, se na época causaram até choro, hoje são motivos de gargalhadas. Arthur é conhecido por ser o azarado do grupo. De vez em quando, uma ou outra pessoa, além dos cinco, participa do troca-troca. Em um ano, esse convidado não apareceu e, justo ele, era quem tinha tirado Arthur. “Eu lembro que chorei, fiquei muito decepcionado. Mas, no dia seguinte, ela mandou algo para minha casa, além de um vaso de orquídeas”, relembra. Em outro ano, ele ganhou uma caixa de chocolates, quando o tema era “Faça você mesmo”. “Era um Lindt maravilhoso, mas foi frustrante”, conta, sem tabus, ao lado de Ronie, que foi quem o presenteou.

 

Mas há controvérsias sobre quem é o azarado, já que Ronie ganhou um roupão dois anos seguidos de pessoas diferentes e em brincadeiras com temas distintos. Um ano, Marina lhe deu porque o tema era “Bem-estar”. No seguinte, outra amiga fez a mesma escolha porque todos deviam dar algo que começasse com a letra do nome do sorteado. Nessa história, Marina está absolvida já que presenteou primeiro, mas ela também já escorregou: deu o mesmo livro duas vezes para o amigo. Na primeira vez, porque o tema era “Livro”. Na segunda, porque não teve tempo de fazer o presente com as próprias mãos. “Mas eu adoro o livro. Li um em seguida do outro”, brinca o fisioterapeuta.

 

Às vezes, o grupo já deixa sorteado em uma confraternização de Natal o amigo-oculto do ano seguinte. Resultado: em um desses anos, Mayra se esqueceu de quem tinha tirado. O tema era “Viagem”, então, comprou um anjo durante um passeio no Rio de Janeiro e pediu para ser a última a entregar o presente. No mesmo tema, Ronie passou o ano viajando, mas não se lembrou que precisava comprar algo para Arthur. Resultado: na véspera, comprou um jogo de taças de vinho inquebráveis. “Eu estive em Berlim naquele ano. Não comprei lá, mas as taças são alemãs”, argumenta. Detalhe: Arthur não bebe.

 

Para este ano, o sorteio não foi feito com tanta antecedência, mas o tema, sim, foi escolhido previamente. Na ceia do ano passado, todos estipularam metas para 2018 e o presente deste ano deve estar relacionado ao objetivo pessoal determinado. A brincadeira estimula a criatividade, mas, obviamente, o mais importante é o reencontro dos amigos de infância, ano após ano.

 

Uma centena de mimos

 

A solução da família Medeiros para presentear seus 142 membros é sortear um amigo-secreto(foto: Wallace Martins/Esp.CB/D.A Press)
A solução da família Medeiros para presentear seus 142 membros é sortear um amigo-secreto (foto: Wallace Martins/Esp.CB/D.A Press)

 

Em uma família com 142 pessoas, os beijos e abraços estão garantidos na noite de Natal. Mas é inviável comprar mais de uma centena de presentes. Para a família Medeiros, portanto, a solução é sortear um amigo-secreto, uma tradição que teve início nos anos 1970. Com isso, economizam dinheiro, mas gastam bastante tempo na hora da revelação. A noite de Natal tem que começar às 19h para dar tempo de fazer a brincadeira, que pode durar até três horas. 

 

Nos primeiros anos, foram bem tradicionais: sorteavam no papelzinho e compravam um presente para quem tinham tirado. Uma das lembranças mais doces de Gabriela Medeiros, 44, é a de uma boneca enorme, que ganhou aos 13 anos. Quando olhou, achou que fosse uma mala. “Minha tia me levou a uma loja dizendo que tinha tirado minha mãe. Lá, ela descobriu que eu gostava dessa boneca. No dia, ela não foi à ceia, mas deixou meu presente”, relembra.

 

Cláudia, 38, irmã de Gabriela, também guarda uma memória especial. Deficiente visual, uma pessoa que a tirou lhe entregou um presente que, pelo tato, ela sentiu que era um livro. “Eu pensei: mas que loucura me dar um livro. Todo mundo sabe que eu não enxergo! Aí, a minha amiga-oculta disse que era um audiolivro. Eu fiquei tão feliz! Foi um dos melhores presentes da minha vida”, conta.

 

Mas a brincadeira não dava certo pra todo mundo. Tio Chico, 66, já se esqueceu de quem tirou, e Patrícia ficou sem presente; Letícia, 11, quando pequenina, pediu um cavalo e ganhou uma caixa de música de cavalo. Um exagerou e disse que ficaria feliz até com um saco de bala e recebeu justamente isso. Tia Neide conta que sempre ganhava umas blusas que acabavam ficando para as crianças, de tão pequenas que eram.

 

Agora, eles gostam mesmo é do amigo da onça, que não tem esse tipo de problema. O jogo consiste em uma pessoa escolher um dos presentes que está debaixo da árvore, sem saber do que se trata ou ainda tem a opção de escolher o presente que alguém já ganhou. Dessa forma, é possível pegar uma meia ou um envelope de dinheiro e, sem saber o que é, roubar do seu tio um presente que já foi aberto, que comprovadamente é bom e que o coitado adorou. “É divertido, mesmo que seja um presente sem graça”, garante Patrícia, 43, que, no ano passado, queria muito o jogo de facas e acabou ficando com três velinhas.  

 

O inconveniente foi com as crianças, que não entendiam a piada. “Elas choravam, não queriam entregar o presente que tinham ganhado, saíam correndo. Era uma confusão”, ela relembra. Os presentes delas, então, chegam com o tio Sever, que se fantasia de Papai Noel todo ano. “Todas as crianças sabem que é ele, mas fingem que não”, pontua Patrícia.

 

Tio Doca, 57, acha a competição engraçada e acredita que só funciona na família Medeiros porque são todos muito unidos e têm muito carinho e gratidão um pelo outro. “Todo mundo aqui já se ajudou em algum momento da vida, mas, quando começa o amigo-oculto, vira uma competição, são formados clãs, alguns pegam o presente mais desejado, mesmo sem querer, só para dar para a mãe, para o pai. É uma confusão”, conta rindo.

 

De vez em quando, alguém apronta mais alguma pegadinha. Uma das matriarcas da família, dona Inês, 63, em um Natal, chegou contando que tinha encontrado um casal da rua, que a mulher estava grávida e que os dois jantariam com a família e que precisava que alguém acolhesse os dois em casa naquela noite. Ninguém queria, todos tentaram desconversar. Foi quando entraram duas crianças da família vestidas de José e Maria. “Foi muito emocionante para nos lembrarmos do que realmente importa no Natal”, relembra dona Maria Lúcia. 

 

 

 

 

 

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