Correio Braziliense

Afeto à mesa

A comida tem o poder de unir as pessoas. E se o prato vier recheado de memórias afetivas, então, melhor ainda


postado em 12/12/2018 22:36 / atualizado em 15/12/2018 15:05

A ceia é um momento especial e esperado, seja no Natal, seja no ano-novo. A maioria das famílias têm tradições próprias. Em algumas casas, a matriarca é a responsável pelas delícias e quitutes; em outras, o pai cozinheiro é o dono do fogão. Existem aquelas nas quais todos ajudam um pouquinho e o momento de preparar a refeição se torna uma grande reunião por si só. Há ainda aqueles que não têm o dom para as panelas e preferem encomendar. E os que passam as datas festivas com os amigos e a ceia em um grande mix de sabores. 

 

Independentemente do tipo de família e de ceia, há algo em comum: a comida. Quando compartilhada em momentos especiais, ela tem o poder de se transformar em uma máquina do tempo afetiva. Um doce igual ao que a avó costumava fazer pode levá-lo de volta à infância em questão de segundos.

 

Nas datas festivas, as receitas tradicionais de cada família não guardam apenas sabores. Trazem um gostinho especial que não vem de nenhum ingrediente, mas sim do coração e da memória. Receitas que têm histórias e vêm sendo passadas de geração para geração.

 

E, se você, além de honrar as tradições culinárias da família, quiser trazer novos sabores e novas memórias, pode se inspirar nas receitas de uma confeiteira alemã e de um chef peruano para levar um ar internacional para sua ceia. 

 

Um prato que simboliza a união 

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

 

Assinado por David Lechtig, dono do restaurante El Paso Texas,  o prato principal  foi escolhido por ter um significado especial para o chef. A receita de cordeiro é sempre a primeira que ele e as irmãs preparam quando se encontram nas datas festivas de fim de ano.

 

O passo a passo é sempre seguido à risca, da forma como está registrado em um antigo caderno de receitas familiares, escrito a seis mãos e em espanhol. O livro, que, segundo David, tem mais de 50 anos, foi escrito pela avó e pela mãe e foi a única coisa da qual o chef não quis abrir mão quando perdeu a mãe, em 1986. 

 

“Falei para minhas irmãs que elas podiam pegar o que quisessem, mas esse livro, mesmo que a tradição mandasse que fosse entregue à filha mais velha, tinha que ser meu”, lembra. Hoje, o caderno tem ainda as receitas adicionadas por ele.

 

A família é peruana,  mas, enquanto David vive no Brasil, as irmãs moram nos Estados Unidos. Por isso, quando se encontram, a festa é garantida — um momento especial no qual não abrem mão de estar juntos, independentemente do local. “Não é onde, é com quem. Então, todo ano, vemos o que funciona melhor para nós”, explica. 

 

O caderno vai sempre junto e, a cada ano, eles escolhem uma das receitas para preparar na ceia. No entanto, o prato tradicional peruano de cordeiro é sempre a primeira refeição que compartilham no grande encontro. Por isso, para David, nada simboliza melhor o Natal.

 

O nome do prato se refere a Chiclayo, cidade natal da mãe do chef, onde ela aprendeu a cozinhar. Durante a infância e a adolescência, a família sempre se reunia no Peru e o prato era servido na celebração. E a cozinha se tornou um lugar sagrado para ele e a mãe, desde que David começou a cozinhar, aos 11 anos. “Na cozinha, eu e minha mãe nos tornamos melhores amigos.”

 

 

CORDERO A LA CHICLAYANA

(Carré de cordeiro marinado em cerveja preta e cozido levemente em tempero à base de coentro e pimenta amarela. Acompanha feijão-branco) 

 

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

 

Ingredientes

 

• 1 kg de carré de cordeiro cortado em pedaços

• 250ml de cerveja preta

• 200ml de pisco peruano

• 1 maço de coentro picado

• 3 cebolas roxas grandes picadas

• 3 ajis amarillos (pimenta peruana) picados — pode substituir por dedo-de-moça amarela

• 1 colher de sopa de alho moído

• 1 colher de sopa de orégano

• Óleo vegetal

• Aji panca moída — pimenta seca peruana, que pode ser substituída por páprica picante

• Sal e pimenta-do-reino a gosto

 

 

Modo de preparar

 

• Marine o cordeiro, pré-limpo, por duas a três horas, na cerveja com sal e pimenta-do-reino. Em uma panela, refogue o alho, a cebola, o orégano, o aji panca, o aji amarillo e o coentro.

• Agregue a peça do carret de cordeiro para que o mesmo doure durante alguns minutos. Termine colocando todo o marinado na panela e deixando cozinhar em fogo baixo e tampado por duas horas. Em seguida, aumente o fogo e deixe ferver. 

• Acrescente o pisco e deixe alguns segundos destampado, para que o álcool evapore. Tampe novamente e deixe descansar até servir.

• Acompanha feijão-branco e chips de banana.

• Rendimento: 6 pessoas.

 

Pedacinho de céu

 

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

 

O doce ensinado pela confeiteira Anke Weise, uma  catarinense descendente de alemães, é uma história de amor do início ao fim. Um dos clássicos na Alemanha e pouco conhecida no Brasil, a himmelstorte era uma receita compartilhada pela mãe e pela tia de Anke.

 

O nome da torta é um spoiler da experiência gastronômica que se sucede à primeira mordida. Em alemão, himmel significa céu, e torte, torta. 

 

No aniversário de 70 anos do pai de Anke, a família estava toda reunida e uma tia, irmã da mãe da confeiteira que sempre levava um pequeno agrado aos sobrinhos, apareceu com um envelope. Ao recebê-lo, Anke acreditou se tratar de uma carta e deixou para ler depois. Porém, a tia logo questionou se ela tinha visto o conteúdo, e revelou que se tratava da receita da himmelstorte.

 

Por ter dois filhos que não cozinham, a parente quis que Anke perpetuasse a tradição da família. “Ela disse que a receita estava na família havia centenas de anos e que ela tinha medo de que se perdesse. Eu não me lembrava dessa torta e fiquei muito emocionada quando a vi”, lembra.

 

Escrita em alemão e com uma letra digna de caderno de caligrafia, a receita remeteu Anke à infância, quando a tia e a mãe faziam a torta em reuniões familiares. “Além de ser tão gostosa, trouxe toda carga afetiva da relação entre a minha tia e a minha mãe, e se tornou algo especial. Quis compartilhar, porque é algo simples, com um sentimento tão forte e bom”, explica. 

 

A relação de Anke com a confeitaria está intimamente ligada à mãe, que morreu há 15 anos. À frente da empresa A Doce Alemã, ela faz tortas alemãs sob encomenda e garante que o segredo é a simplicidade. A matriarca estudou confeitaria na Alemanha e criou um jeito de fazer doces diferentes.

 

Anke conta que ela passou a misturar os estilos alemão e brasileiro e criou algo único. E fez questão de passar para a filha, que, em suas tortas alemãs, usa a receita de herança familiar, mas varia nos recheios de acordo com a criatividade e o desejo dos clientes. 

 

Para Anke, trazer sorrisos, criar memórias e compartilhar são o objetivo da cozinha. E é isso que a confeiteira espera que a himmelstorte faça pelas famílias que optarem pelo doce na ceia de Natal. “Transformem o processo em algo especial, façam juntos. Com certeza, o sabor será ainda melhor.” 

 

HIMMELSTORTE

 

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

 

Ingredientes

 

• 375g de manteiga sem sal (em temperatura ambiente)

• 185g de açúcar refinado

• 1 ovo inteiro em temperatura ambiente

• 2 gemas em temperatura ambiente

• 2 claras em temperatura ambiente

• 375g de farinha de trigo

• 1 pitada de sal

• 2 colheres de chá rasas de fermento em pó

• 1 e 1/2 xícara de amêndoas laminadas

• 200g de açúcar cristal ou demerara

• 300ml de creme de leite fresco (gelado)

• Açúcar de baunilha ou açúcar de confeiteiro (a gosto)

• Manteiga para untar + farinha para enfarinhar as formas

• Frutas (cerejas, morangos, blueberries) para decorar e/ou misturar ao chantili (opcional)

 

 

Modo de fazer

 

• Na batedeira, bata a manteiga e o açúcar até obter um creme clarinho e fofo. Acrescente as gemas e o ovo inteiro e bata em velocidade média até incorporar tudo. Depois, aos poucos, acrescente a farinha de trigo e a pitada de sal. Bata até obter um creme homogêneo. Com a ajuda de uma espátula, adicione o fermento, misturando bem.

• Divida a massa em três partes iguais. Espalhe em formas de aro removível previamente untadas e enfarinhadas.

• Bata ligeiramente as duas claras com um garfo e pincele sobre a superfície das três porções de massa crua. Cubra com as amêndoas e, em seguida, com o açúcar cristal ou demerara. Leve ao forno.

• Asse cada disco por aproximadamente 12 minutos ou até a borda ficar levemente dourada.

• Retire do forno, abra o aro, desenforme e deixe esfriar.

• Enquanto os discos assam, bata o creme de leite fresco em chantili, adoçando com um pouco de açúcar de baunilha ou açúcar de confeiteiro. Reserve na geladeira.

• Com os três discos de massa assados e em temperatura ambiente, comece a montagem da torta: disco de massa, chantili, disco de massa, chantili, disco de massa.

• Decore a gosto (flores, frutas, rosetas de chantilly) e sirva em seguida.

• Rendimento: uma torta de três discos com 23cm de diâmetro — use formas de aro removível.

 

 

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